Ser

Mães ou irmãs?

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Corpinhos em forma, vestindo praticamente as mesmas roupas, sorrisos semelhantes, vozes que se confundem, idades não muito diferentes, andando sempre juntas e até freqüentando as mesmas baladas. Aparentemente, elas poderiam ser irmãs (você até juraria que são), mas na verdade são mãe e filha.

Casos de maternidade precoce sempre ocorreram desde que o mundo é mundo. Muitas de nossas avós se casaram e tiveram filhos com 12, 13 anos. Entretanto, antigamente as diferenças de corpo e principalmente no comportamento delimitavam uma relação muito diferente entre as duas gerações.

No final dos anos 80, várias reportagens chamavam a atenção para o grande número de adolescentes grávidas no País, muitas delas frutos de relacionamentos iniciados com a revolução sexual na virada dos anos 60/70. Com pais “liberais” e mais acesso à informação e diálogo essas mães formam hoje, em muitos casos, uma legião de companheiras e melhores amigas de suas filhas adolescentes e iniciam um novo processo de maternidade: aquela que interage como irmã, mas está sempre cobrando, mesmo que de maneira moderna e sutil, os limites da liberdade e o respeito que mãe merece.

Apesar de, muitas vezes, a relação parecer fraternal, essas jovens mães e suas filhas mocinhas afirmam que o “esquema” é de mãe e filha como em qualquer outra geração. A contato publicitário Sílvia Vidal, 35 anos, explica que os conceitos que reviu e a maturidade que ganhou nos nove meses de gestação da filha Amanda Vidal Cervantes, 16 anos, são a base de sua relação com a filha. Além disso, a própria experiência de vida fez com que Sílvia amadurecesse mais cedo. Ela engravidou aos 18 anos de um namorado 12 anos mais velho, separado e com três filhos do casamento anterior. A contato passou sete anos antes de se divorciar, cuidando todo final de semana de quatro crianças.

“Você não vê como irmã mais nova não, vê como filha mesmo, mas com a capacidade de discernir entre a mãe e a amiga. Quando a gente tem algum problema, ou ela, ou eu, a gente divide assim: a opinião como mãe e como amiga e vê das duas o que a gente pode tirar de melhor. Se o problema é comigo, ela fica até chateada com a pessoa pelo fato de o problema ser comigo, mas ao mesmo tempo ela tem a percepção de que não sou só amiga, sou a mãe”, assume Sílvia, avaliando que esse comportamento diferente tem dado muito certo.

“Além de ter alguém para conversar, eu não tenho problema de ficar sozinha em casa à noite, ou ela sai comigo ou eu saio com ela”, revela Amanda.

A mãe conta que isso começou há dois anos quando a filha queria sair à noite e não tinha companhia. “Como tinha que levar e buscar, já ficava junto”, confessa Sílvia.

Amanda aponta que hoje a mãe é sua melhor amiga e se diverte quando os amigos acham estranho encontrar a mãe da garota em um barzinho. “Pode ser estranho encontrar a sua mãe na balada, a minha não.”

A presença constante de Sílvia já fez com que ela fizesse parte da turma da filha e muitas vezes ao convidarem Amanda para algum programa, os amigos já avisam para levar a mãe. Mas a estudante assume que, muitas vezes, tem vontade de sair sozinha. Para resolver o embate, a mãe vai ao mesmo lugar, mas fica com outra turma.

Elas se divertem quando saem juntas e são paqueradas, juram que nunca resolveram paquerar o mesmo rapaz até porque o gosto das duas é bem diferente. Amanda namora o dono de um bar com jogos de aventura, e toda vez que Sílvia vai buscar a filha à noite todo mundo comenta ou pergunta da irmã. “Às vezes, leva o maior tempão para explicar que eu sou a mãe da Amanda”.

Sobre a sogra onipresente, o namorado Rodrigo Vizoni acha o máximo ter a mãe da namorada como uma amiga e não se importa em sair com a sogra junto. “Ela é legal como amiga, mas impõe os limites e tem todas as preocupações de mãe.”

Em trio

A estudante Monique Amaral, 15 anos, também divide com os pais Natalie Camillo Amaral, 35 anos, e Carlos Amaral, 40 anos, o prazer de sair para a balada em família e ter a aprovação dos amigos.

“Eu sou filha única e eles são superpreocupados. Então, para não me deixarem sair sozinha, eles vão junto. A minha mãe é superanimada e meu pai também. Outro dia fomos ao show do Raimundos e sabe que foi ele quem me convidou. Tem gente até que pensa que ele é meu namorado... E a gente não fica em casa quando um ou outro está de plantão. Acho que isso é um privilégio.”

Outro ponto positivo apontado por Monique é a amizade que os pais selaram com sua turma. Se for preciso ficam responsáveis por aqueles que esqueceram a autorização em casa e acabam dançando a noite toda numa tribo só.

“Meus amigos até paqueram a minha mãe, acham ela linda”, deixa escapar a filha que tem sempre os seus paqueras avaliados pela mãe na mesma hora. “Ah! Acho que esse não é legal, aquele é mal encarado, coisas de mãe, mas quando conheço alguém e gosto vou lá apresentar para ela.”

A mãe Natalie aponta que a sintonia com a filha vem desde a barriga, e apesar de em alguns momentos a filha achar que deveria estar sozinha, ela garante que andam em turmas separadas apesar de estarem no mesmo lugar. A amizade do grupo vai além dos bares e pistas de dança, ela permanece na academia de ginástica e nos churrascos em família.

“Ela curte bastante esse lance da gente sair junto, exceto quando ela quer sair sozinha e acaba dando umas saidinhas às escondidas de vez em quando”, entrega a mãe, que foi avisada por amigos que a filha estava numa festa na última semana. “Mas ela já se redimiu”, defende.

Entretanto, Natalie aponta que nos últimos dias a filha anda com as asinhas de fora. Mas apesar da rebeldia do grupo, típica da idade, ela aponta que impõe limites, principalmente de horário e não quer saber da filha virando madrugada.

“Acho que adolescente é a fase mais difícil. É quando você precisa saber onde está acertando ou errando. Apesar de ser pediatra e lidar com adolescente, com a minha filha é diferente. Eu estou tendo que aprender algumas coisas diferentes e com todo esse convívio, ando percebendo que hoje se dá muita liberdade e eu tenho necessidade de impor limites. Eu percebo que ela é do bem, mas às vezes a gente briga.”

Mesmo assim, a cada briga (muitas vezes motivadas pelo uso sem aviso e desaparecimento de roupas que são do mesmo tamanho), as duas têm o hábito de pedir desculpas. “Mas no geral a gente se dá bem, principalmente se não perdermos o hábito de pedir perdão”.

Enfrentando a barra

Apesar de Sílvia revelar ter ficado superfeliz ao saber que ia ser mãe, ficou com medo da reação dos pais. Mas depois da notícia dada, ela conta que se sentiu poderosa e achava maravilhoso ver sua barriga ficar enorme.

Entretanto, hoje ela afirma que sempre é cedo para se criar um filho. “Tanto que não tive outro até hoje. Você tem que ponderar tempo, trabalho. A Amanda é meu centro. Tudo gira em torno dela e eu penso que 70% é dela e só 30% é meu. Tenho esse dever.”

Apesar de Amanda achar horrível o comentário, admite que ama a mãe e adora o pai com quem pouco convive para não dar choque. Ela conta que ambos se amam, mas têm um gênio...

Do outro lado, Sílvia revela que a filha acabou sendo uma produção independente apesar do tempo feliz em que viveu com o marido. Mas hoje, apesar da filha ter vários meio-irmãos e os tios a tratarem como irmã, a sua única família é Amanda.

Natalie costuma dizer que ela e Carlos “ficaram grávidos”. Os dois namoravam quando passaram no vestibular para medicina e decidiram se casar para poder morar juntos, mas no andar da faculdade nasceu Monique e para dar seqüência ao curso os dois se revezavam nas madrugadas e as avós deram uma força.

“Tivemos a sorte de ela ser muito independente, saiu das fraldas cedo e apesar da correria somos sempre, pelo menos até hoje, muito presentes.”

Cada caso é único

A psicóloga e psicoterapeuta Cláudia Tebet Manaia lembra que, antes de mais nada, não há regras únicas quando se fala de seres mãe. Para ela, o fato de ser mãe tão cedo ao ponto de ser confundida com a filha pode trazer vantagens e desvantagens, de acordo com a situação. “É que as histórias de vida de cada um, seu contexto social, cultural, psicológico, são determinantes para suas condutas e relações, ou seja, como foi essa gravidez, o exercício da maternidade desde o início, vínculos, papel de mãe, família, religião.”

A psicóloga alerta, porém, que diálogo entre mães e filhos sempre será saudável, seja a mãe jovem ou não. “Mães jovens podem realmente ter mais facilidade para o diálogo com seus filhos, devido ao fato de estar ainda mais próximas da idade deles, ou seja, a fase da adolescência da mãe não está tão longe e o vocabulário está mais fresco em sua mente. Há com isso uma maior facilidade para conversarem sobre temas que surgem nesta fase , como sexualidade, ‘o ficar’, amor, paixões, drogas, amizades.”

Segundo a psicóloga, para que a mãe tenha a liberdade de impor limites dentro de um modelo de relação jovem, é necessário que ela saiba bem seu papel para poder exercê-lo quando necessário. “Outra questão importante é quando a mãe quer vivenciar tudo do seu filho sem ter sua vida própria, como seus próprios amigos. Tudo tem limites, até mesmo por parte da mãe, como não deixar o adolescente vivenciar algumas situações que são próprias da idade dele pode. Isso pode interferir no seu aprendizado para a vida adulta.”

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