Acusado de agredir freqüentemente a filha de 4 meses, por pouco Kleber Gonçalves não foi linchado anteontem à noite, na Pousada da Esperança 1. Ele foi socorrido pela Polícia Militar (PM), quando apanhava de populares na quadra 2 da Rua Miguel Débia.
De acordo com o comandante da Base Comunitária Leste, tenente Alessandro Rosseto da Silva, o rapaz apanhou bastante antes de ser auxiliado pelos policiais, que o levaram ao Pronto-Socorro Central (PSC). Seguiu para o mesmo endereço, a filha dele recém-nascida.
“A criança foi primeiro para o PSC, mas depois foi encaminhada para o Pronto-Socorro do Ipiranga, onde os médicos checaram se ela havia sofrido abuso sexual. Constataram que não. O bebê também não tinha fraturas, mas estava com vários hematomas pelo corpo”, conta o tenente.
Segundo ele, após a avaliação médica, o pai, a filha, a esposa e as testemunhas foram conduzidos por policiais até o plantão da delegacia de polícia para registrar a ocorrência.
Ao delegado, a mulher de Kleber, que é menor de idade, contou que ele sempre batia na filha e que, há dois meses, teria quebrado o maxilar da criança. Também teria relatado que o marido fazia carícias maliciosas no bebê e a ameaçado de morte.
Após o registro de um termo circunstanciado, todos os envolvidos na ocorrência foram liberados, inclusive o acusado, que saiu de casa ontem à tarde, após outro desentendimento. Quando a PM chegou até a residência da família, na quadra 1 da rua Capitão Orlando Pedro de Moura, ele já havia partido com alguns objetos pessoais, informa Rosseto.
Desdobramentos
Mesmo assim, Kleber será convocado para prestar depoimento na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Quem garante é a delegada titular da DDM, Rejani Borro Tiritan, que também pretende ouvir a esposa dele e as testemunhas arroladas no caso.
Segundo ela, o laudo do Instituto Médico Legal (IML) sobre as agressões sofridas pelo bebê balizarão os desdobramentos da ocorrência. Se o parecer indicar que as agressões foram de natureza leve, o acusado ficará sujeito à pena de dois meses a um ano de detenção. Punição que pode ser cumprida com serviços prestados à comunidade ou com o pagamento de multa.
Já se o laudo indicar que a vítima sofreu ferimentos graves, Kleber estará sujeito à reclusão de um a quatro anos.
“Chama a atenção a informação de que a criança sofreu fratura no maxilar. Vamos investigar. Consta no termo circunstanciado que o Conselho Tutelar está ciente. A criança deve ter ficado com a mãe”, comenta Tiritan.
A informação foi confirmada pela conselheira Sonia Scavassa, que atendeu o caso anteontem. Segundo ela, o bebê permanceu com a mãe porque ela não é conivente com as ações do pai e, segundo testemunhas, cuida bem da filha. “Ela saiu da delegacia na companhia da mãe, que nem conhecia a neta”, conta Sônia, enquanto aguarda os desdobramentos das investigações.
A apuração deve acalmar os ânimos dos agressores de Kleber que, na opinião do capitão Wellington Luiz Dorian Venezian, comandante da 3.ª Companhia da Polícia Militar, não foi vítima de um linchamento.
“Linchamento normalmente acontece quando se atenta contra a vida. Se isso tivesse acontecido, a polícia teria tomado outras providências. Agressões como essas são mais freqüentes, mas linchamentos são raríssimos. Em Bauru, não lembro de nenhum. Eles ocorrem em locais onde o poder público é mais ausente”, conclui o capitão.