Os surtos messiânicos de Lula começam a preocupar. Jânio Quadros começou assim e acabou numa crise mental que o levou à renúncia após a primeira frustração. O presidente atual também se coloca na condição de salvador-da-pátria, fala em “surto de desenvolvimento” e em “surto de pragmatismo político”. O que vemos é o País entrar num perigoso estágio de deflação, histórico recorde de desemprego, Produto Interno Bruto encolhido, atividade industrial e comercial em descenso. Enquanto isso, os bancos lucraram R$ 20 bilhões em 2002.
Esse messianismo leva a um outro surto, o stalinista. As informações do governo para os jornalistas estão sendo controladas e a cúpula petista enquadra velhos companheiros de partido. Lula, José Dirceu, José Genoíno e companhia trocam sem remorsos Babá por Geddel, Heloísa Helena por Sarney e as críticas das bases pelos elogios dos banqueiros e investidores.
No programa exibido pelo Partido dos Trabalhadores na televisão foi dito que “o Brasil está diferente”. Está mesmo. A taxa de juros paloccista de 26,5% ao ano mudou tudo. Para pior. Pela primeira vez assisti a um programa do PT onde não se tocou no drama do trabalhador desempregado.
Agora, Lula, num surto liberal chama os fiscais, como fez Sarney, para punir donos de postos de gasolina. Se estamos numa economia de mercado quem deve balizar preços no varejo é o mercado. Em Bauru a gasolina é mais barata em relação a outras regiões do Estado e do Brasil. É um problema de oferta e procura, lei que Lula e seu Ministério querem revogar. Fizeram publicar uma tabela de “preços teóricos” que, no caso bauruense, só vai servir para alinhar os preços dos combustíveis para cima.
O que deveria ser fiscalizada é a qualidade da gasolina, a ocorrência de vários delitos como a formação de cartéis e sonegação fiscal. A solução passa longe das bravatas. Denunciar pela imprensa a existência de malandros aproveitadores na cadeia produtiva e ameaçar com “profunda investigação” não resolverá o problema. Ressuscitar o tabelamento de preços é igualmente desaconselhável. Nem funcionários existem em número suficiente para fiscalizar a qualidade da gasolina. O Inmetro chegou ao ponto de treinar frentistas dos próprios postos para exercerem esse papel. É claro que o número de fraudes caiu. As estatísticas das refinarias, no entanto, comprovam que pelo menos 15% da gasolina consumida no Brasil é batizada com mais álcool do que o permitido, ou pela adição de solventes.
Não podemos esquecer, finalmente, os surtos verbais do presidente. Esses, por sinal, são os únicos que fazem lembrar, como diz Luiz Fernando Veríssimo, o Lula de barbas pretas que aprendemos a admirar. É esse o Lula que critica a caixa-preta do Judiciário, que nomeia um negro para o Supremo Tribunal Federal, que põe auditores da União para caçar prefeitos corruptos, que defende a reforma tributária e previdenciária. Lula de verdade é esse Dom Quixote que sai defendendo pelo mundo o combate à fome.
Daí, a dizer que este País está no caminho certo e que é preciso primeiro arrumar a casa para depois crescer, lembra aquela história do bolo do Delfim Netto. Este passou 20 anos da ditadura militar dizendo que a prioridade era fazer crescer o bolo para depois cada um saborear a fatia a que faz jus. Um dia as lombrigas se revoltam assanhadas por tantas promessas do tal bolo que nunca sai do forno. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)