Rural

Agricultura de SP aposta na pesquisa

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo quer chegar ao final do ano com mais de 1.000 pesquisadores especializados atuando em relação aos 15 pólos tecnológicos regionais instalados no ano passado. A informação é do secretário de Estado da pasta, Duarte Nogueira Júnior. Ele explica que o estrangulamento da disponibilidade de área agrícola em São Paulo exige a busca pela verticalização: aumentar a produção.

Duarte Nogueira discutiu com o JC porque o Estado depende dos investimentos em pesquisa para ampliar seu horizonte em setores altamente competitivos como as patentes agrícolas e, ao mesmo tempo, indicou os entraves que devem ser superados para que regiões como a de Bauru ativem o ciclo da plataforma de exportação a partir da otimização da logística e do alcance de novas oportunidades com base no agronegócio.

O novo secretário de Estado diz como os pólos regionais poderão servir para vencer esse desafio de superar as metas atuais de produção e economia agrícola, agregando valor a partir do campo. Leia os principais pontos da entrevista exclusiva concedida ao JC:

Jornal da Cidade - Qual a visão do senhor sobre a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado? Duarte Nogueira Júnior - É uma pasta extremamente estratégica hoje no governo do Estado de São Paulo dentro da visão das quatro vertentes que o governador elencou durante o processo eleitoral, o governo educador, solidário, prestador de serviços e empreendedor. Neste aspecto, a Secretaria de Agricultura se enquadra em grande parte nesses quatro quesitos. Porque ela tem uma estrutura de pesquisa conceituada, de excelência, presentes na Agência Paulista de Tecnologia de Agronegócios (Apta), ela tem uma atividade significativa de defesa agropecuária, sobretudo na área de sanidade animal e vegetal, que qualifica e garante a produção do Estado, tem uma estrutura de assistência técnica e de inserção rural e tem uma coordenadoria de desenvolvimento de agronegócios que entra em uma nova etapa com o programa dos galpões.

JC - Qual a nova etapa? Duarte - Nessa nova etapa vamos criar infra-estrutura para agregar valor a uma série de produtos do setor primário da nossa atividade agropecuária e que está presente em centenas de produtos do Estado. E é um trabalho que envolve a aproximação do setor produtivo com a atividade de natureza social. Vou citar três delas. O primeiro é o programa Viva Leite, através do qual a secretaria atua nos 645 municípios do Estado atendendo 722 mil famílias/ano. Além da atividade de nutrição e alimentação, temos 16 restaurantes Bom Prato que fornecem refeições de 1.600 calorias por R$ 1,00 com parcerias com entidades. São 552 mil refeições/mês e, ao mesmo tempo, atendemos na região metropolitana da Capital a 80 mil famílias com o programa de cestas de alimentos. Se você somar o número de famílias atendidas por ano, temos 16 milhões e 250 mil famílias. É o maior programa de nutrição do País. Queremos aperfeiçoar esse trabalho e melhorar a infra-estrutura da área rural.

JC - Como a secretaria vai melhorar a infra-estrutura da área rural? Duarte - Com as intervenções através da sua empresa pública, que é a Codasp, que responde pela melhoria das estradas rurais priorizando as estradas de terra e o programa de pontes metálicas que já implantou mais de 1.100 pontes no Estado e tem uma programação para 2.000 pontes. Estamos trabalhando junto ao governador para ampliar esse programa para uma nova etapa. A atividade do agronegócio tem sido a grande alavanca da manutenção do superávit comercial do País e a Secretaria de Agricultura tem atuado com ênfase nessa área.

JC - Qual o fôlego dos programas via Codasp? Duarte - Temos orçado para este ano só para investimento no Programa Melhor Caminho, para as estradas rurais, R$ 19 milhões. Mas o orçamento da Codasp para 2003 deve superar R$ 45 milhões entre obras de terraplanagem e de intervenções para a área de agronegócios ou agroindustrial. Ao mesmo tempo, a Codasp vem prestando serviços também para a Agência Nacional de Águas para o uso e conservação de solo com base em um critério de desenvolvimento sustentado e considerando a recuperação de ambientes desagradáveis.

JC - Qual será o papel da secretaria para os pólos tecnológicos regionais, como o instalado em Bauru? Duarte - Os pólos da Apta, em especial o de Bauru, foram instalados ao longo do ano passado em um total de 15 em todo o Estado. Abrimos agora em Bauru um concurso público e em outras regionais que vai contratar 352 novos pesquisadores científicos que serão alocados nesses 15 pólos junto com nossas estruturas de pesquisa. Vamos superar a casa dos 1.000 pesquisadores. Fazendo uma comparação com a Embrapa, a maior empresa de pesquisa agropecuária do País que completou 30 anos em 2003, a Apta vai ter no seu conjunto mais de 1.000 pesquisadores e a Embrapa tem 1.800 para atender em todo o País.

JC - A secretaria assume a pesquisa como prioridade? Duarte - Sim, porque a pesquisa tem o cunho de atendimento de estratégias de produtividade e de melhoria de qualidade na pesquisa aplicada, e atua também nas novas técnicas de plantio e de cultivo. Mas isso demanda longos anos de pesquisa e o acompanhamento permanente que pode durar 10, 15 ou 20 anos até completar o resultado final. E o poder público precisa dar continuidade a esses programas e ampliar a capacidade de resultado. Precisamos atender a nichos específicos de mercado cada vez mais dinâmicos e a pesquisa é fundamental.

JC - Os dados comparativos do Estado com a Embrapa não mostram que o governo federal erra na estratégia em se tratando de pesquisa? De outro lado, há um avanço de grandes conglomerados privados e multinacionais na área de patentes agrícolas? Duarte - Acho que esse tem que ser o tom, o esforço pela pesquisa e o registro. E a Apta tem feito o esforço para regrar essa questão atuando firme para a fixação e de certificação de patentes que são desenvolvidas por elas. O capital intelectual e de propriedade será cada vez mais importante nesta área e a Secretaria de Agricultura do Estado está trabalhando nisso. A Embrapa vem atuando nessa área e não são atividades competitivas, são complementares.

JC - Mas o governo tucano federal não erra ao não apostar na ampliação da estrutura da Embrapa? Duarte - Quem pode aferir esse conjunto de resultados é a própria sociedade, que tem reconhecido o êxito dos resultados da Secretaria de Estado em comparação com outros segmentos. Mas não fazemos disso uma competição. Assumimos um desafio na área de pesquisa e estamos ampliando a ação nessa área. O objetivo é trazer resultados para São Paulo, que continua sendo a maior plataforma agrícola do País, mesmo que já tenha atingido o teto em termos de área, com 19,5 milhões de hectares ocupados ou por pastagens, ou por atividades agrícolas, ou por reservas ambientais. Então, temos que verticalizar, aumentar a produtividade.

JC - E quais os resultados da economia agropecuária paulista? Duarte - A somatória de toda a produção agropecuária do Estado, sem considerar o agronegócio que vem depois da cadeia produtiva, atingiu nos últimos 12 meses R$ 20,930 bilhões. E isso significa que nós superamos o recorde que era de 1996, no melhor momento do Plano Real. Isso, mesmo enfrentando as intempéries como juros elevados e os problemas com a economia. Mas o agronegócio no Estado tem superado seus desafios.

JC - A instalação dos pólos regionais permite detectar o eixo de planejamento em relação à vocação agrícola da região? Duarte - Toda mudança vem carregada de muita expectativa, em uma ponta, e de receio na outra ponta. Mas a atividade de reformulação do processo agroindustrial e de agronegócios através dos pólos tecnológicos vai facilitar o acesso não só à tecnologia, mas também às informações sobre o mercado interno e de exportação para que os nossos produtores do Estado tenham uma dimensão exata e consistente em torno daquilo que eles pretendem produzir.

JC - E qual a situação do pólo regional de Bauru em função da presença de vários modais e sua vocação agrícola? Duarte - A infra-estrutura dessa região em face da presença de opções de escoamento via rodoviária, ferroviária, hidroviária e, em breve, com o novo aeroporto, facilita em muito o esforço de vencer os gargalos de levar a produção para os principais pontos de consumo, nos grandes centros consumidores. A logística, que sempre é tratada dentro do custo do produto para consumo, tem em Bauru uma característica muito positiva e isso vai certamente alavancar as estratégias e as oportunidades dessa região.

JC - Como o senhor vê o fato da região ter 64% de sua produção agrícola baseada na cana-de-açúcar? Duarte - A produção de cana-de-acúcar compõe o perfil da divisão do valor da produção no Estado. A cana responde hoje por 29% do nosso valor de produção agropecuário, seguida da pecuária e do suco de laranja. Depois temos grãos, café, fruticultura. Dentro desse conceito, temos cada vez mais a atenção voltada para a possibilidade de se criar diversificações. Acho que essa estrutura da cana aqui vai continuar sendo uma presença forte. Além da cana-de-açúcar envolver o alimento através do açúcar, não há como negar a viabilidade do álcool como combustível bem posicionado do ponto de vista ambiental em relação ao petróleo. E a cana também envolve a co-geração de energia através do carbono, que o mundo moderno vai cada vez mais debater. Mas além da cana, a região de Bauru tem uma pecuária bem estruturada ao seu redor e tem ações que vão abrir caminho para a verticalização das unidades produtivas. Há espaço para diversificação de culturas em segmentos específicos aqui também.

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