Araraquara - Dos quase 950 sentenciados que estão recolhidos na Penitenciária Regional de Araraquara (125 quilômetros a Nordeste de Bauru), aproximadamente 300 estudam nas sete salas de aulas que o presídio dispõe.
Em conversa com a reportagem, alguns detentos confessaram a dificuldade em aprender certas disciplinas, apesar disso, vêem a oportunidade como uma das únicas maneiras de aprender alguma lição atrás das grades.
De acordo com o professor do Telecurso, Silvio Luís do Prado, a evasão dos sentenciados nas salas de aulas é grande, entretanto, existe muita fragilidade no ensino, apesar do respeito dos alunos com os professores.
Ele ainda afirma que a rotatividade dos presos atrapalha o andamento dos estudos e essa descompensação complica os alunos nos exames realizados no final do ano.
Márcio Roberto Custódio Felix, 35 anos, preso há dois anos por assalto, tendo ainda pena de cinco anos e seis meses a cumprir, afirma que há 17 anos não estudava, mesmo assim, diz ter bastante interesse no curso.
“Quando ganhar minha liberdade espero voltar a trabalhar, e com o estudo que estou tendo aqui ficará mais fácil”, diz. No presídio, Felix aprendeu a profissão de barbeiro, que espera desenvolver quando retornar a Descalvado.
“Aqui eu só estudo, mas acho que o Governo do Estado poderia apoiar mais essas iniciativas educacionais”, ressalta.
Cursando a 4ª série, o funileiro Cosmo da Silva Trindade, 36 anos, está há quatro meses na unidade local, vindo remanejado da Penitenciária de Santo André. Preso desde 1993, por extorsão, está prestes a ganhar a liberdade. Na sua opinião, matemática é a disciplina mais complicada, mesmo assim, gosta de estudar.
Antes de ser preso, nunca havia estudado, pois diz que as necessidades da vida o fizeram trabalhar desde criança. Na prisão, Trindade diz sentir a falta da filha de 23 anos que, por dificuldades financeiras, há dois meses, não vem visitá-lo.
“Sinceramente, isso aqui não é vida para nenhum ser humano. Só as pessoas que ficam em lugares como esses é que entendem que o crime não vale a pena”, afirma o sentenciado.
Até então, morador de Jandira, Luís Severino da Silva, 38 anos, conseguiu escrever o próprio nome no dia da visita da reportagem na unidade. Acusado de homicídio, foi condenado a 21 anos de reclusão, apelou na Justiça Criminal e a pena foi reduzida para 14 anos.
Preso há seis anos, desde dezembro está na penitenciária da cidade, após transferência do presídio de Avaré. Atualmente, o sentenciado trabalha um dia na cozinha da unidade e o outro estuda o inicio do ensino fundamental.
Silva trabalhava na zona rural do Recife e, com a ilusão de crescer, foi para São Paulo. Há 13 anos não vê a família.
“Tenho muita vontade de aprender aqui na prisão e agora estou conseguindo fazer pelo menos as contas básicas”, comemora Silva.
Há dois anos e cinco meses na unidade, apesar de ser morador na Capital, Antônio Ventura, 43 anos, cumpre pena de cinco anos e três meses por um assalto cometido em Araraquara. Ele já havia cumprido 15 anos por outro assalto, foi solto, resolveu render um gerente de banco, acabou detido.
Desde fevereiro, Ventura estuda na penitenciária local. Já passou por outras prisões como a de Avaré, onde cumpriu pena em 1987. Aluno da 4ª série, ele admite encontrar dificuldades em entender Língua Portuguesa e Matemática. “As contas de divisão não entram na minha cabeça.”