Articulistas

Além da impunidade, hipocrisia também não


| Tempo de leitura: 3 min

Como a prática leva à perfeição, não há dúvida que a cidade sairá muito mais amadurecida desse embate de pontos de vista absolutamente contrários no que diz respeito ao que seria melhor para Bauru agora: aprovar uma Comissão Processante, com todo prenúncio de que lá na frente cassará o prefeito, ou entender que o momento não é propício para isso, ainda mais por se constatar que nada foi provado contra ele em termos de má fé ou dolo.

Como essa decisão caberá aos 21 senhores vereadores, se espera deles muita coisa. Principalmente que não se deixem impressionar - intimidar seria o termo mais adequado - pelo que irão ver, ouvir e sentir nas escadarias e nas galerias da Câmara.

O bom-senso indica que não se impressionem com os que irão democraticamente acompanhar a sessão da Câmara, da mesma forma que também não se deixem levar pela opinião daqueles que não estarão lá - certamente estarão trabalhando, produzindo para manter empregos e, no mínimo, pagar os salários em dia - mas, apesar de ausentes, pelo peso da sua representatividade e importância para o próprio desenvolvimento da economia da cidade, não podem ser ignorados.

O que chama a atenção nesse processo é até agora ninguém saber o que e quanto a cidade perdeu com essas compras de carne com pagamento antecipado, quem se beneficiou desse procedimento administrativamente irregular, como fazer para recuperar essa perda punindo os responsáveis.

Fora isso, o que mais está em jogo? A possibilidade de pegar o prefeito dada a sua impressionante falta de habilidade para articular politicamente e, com isso, diminuir o número de desafetos que tem entre os vereadores? A pergunta se justifica, pois em nenhum lugar consta que ele tenha se locupletado com o pagamento antecipado ou permitido que seus secretários e funcionários se locupletassem com isso.

Bauru não suportaria mais ter um prefeito cassado depois de já ter amargado a infelicidade de passar por essa deprimente situação, com a agravante da prisão. Para a imagem da cidade, para o seu conceito perante investidores que procuram o Interior para se instalar, gerar empregos, produzir riquezas, melhorar os nossos equipamentos urbanos, não conseguimos ver nada pior e mais mal indicado para acontecer exatamente neste momento.

Que horizontes poderia enxergar aqui quem está para decidir onde colocar seus investimentos? Uma cidade que vive em permanente clima de antagonismo e toda espécie de turbulências político-administrativas, sem conseguir permitir que se respeitem ou, no mínimo, consigam conviver, coexistir, mesmo com pensamentos discordantes, opiniões contrarias, divergentes? E possível que os senhores vereadores tenham a resposta para isso, pois nós não temos.

Defender um ponto de vista desses não tem nada de defesa da impunidade e da imoralidade, primeiro por uma questão de princípios e de valores de vida que procuramos cultivar, mas se tiver quem enxergue assim, que fique com sua estrábica visão. Certamente, quem enxergar isso dessa forma no mínimo deveria dizer como viu a CEI das Compras da Câmara ter levado quase um ano para consolidar o desfecho das suas providências internas, que culminaram com a poda de quatro mandatos e a punição de um único servidor.

Quer dizer, um monte de compras superfaturadas, desnecessárias e em quantidades absurdas, todo esse volume de irregularidade foi obra de um único funcionário? Agora, o pagamento antecipado de carnes adquiridas para posterior entrega justifica cassar o prefeito, exonerar quatro secretários e mais uma meia dúzia de funcionários da prefeitura? Por favor, hipocrisia, não.

Para nós é tranqüilo poder defender essa tese, não tendo sido eleitor do prefeito e de nunca o ter poupado de críticas, principalmente pelo seu estilo que nada tem a ver com o perfil empreendedor como gostaríamos de ver nossa cidade conduzida. Tranqüilidade que só se amplia por termos o orgulho de usufruir de uma amizade de mais de 40 anos com o vice-prefeito, sempre fundamentada no respeito reciproco e na comunhão dos mesmos valores éticos e morais. Neste momento, não é com a figura de um e de outro que estamos preocupados, mas exclusivamente com Bauru. (O autor, Flávio Antonio de Angelis, é consultor de empresa)

Comentários

Comentários