Pesca & Lazer

História de Pescador: Pescaria na Sexta-feira Santa


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“Eu não sei se é ficção ou era medo em demasia ou alguma coincidência ou se de fato existia, e meu avô sempre dizia, se fosse sair sozinho pra rezar sempre uma Ave Maria, depois que escurecia.

E quando entrava a Quaresma tinha que ter mais cuidado se era na sexta-feira, o negócio era dobrado, e que o tal lobisomem, de um homem, era transformado, e que sempre nesse dia que sete freguesia por ele era visitado.

Mas lá onde nós morávamos, no bairro do Carneiro, chegava a Semana Santa juntava alguns companheiros e decia o rio abaixo para visitar um traireiro, dizendo não sentir medo, pra lagoa do Figueredo seguiram os seis forasteiros. E foram todos animados beirando o ribeirão. Na frente ia Tião Balista, o mestre da profissão, seguido por seus discípulos, o sobrinho e três irmãos.

Tinha mais um convidado, pescador improvisado por apelido Tatão. Chegamos no tal lugar na beira da lagoa, Tonico e Zeca Basílio foram amassando a taboa, o Chico da Aruca animado e já com o anzol encastoado. O Abrão, que pouco falava, mais com a cabeça acenava.

Seria uma pesca da boa, Tião Batista e Tatão, dois pescadores de coragem, comentavam a personagem. Está certo que ele não fala, mais leva alguma vantagem, e um pescador de traira não pode contar mentira, também não escuta bobagem.

A pescaria ia animada e comentário era um só. Eu peguei a mais pequena, e escapou a maior. Às vezes, alguém reclamava, eu enrosquei o anzol, quando a conversa animava às vezes, alguém já gritava, vai espantar os lobós. Já era tarde da noite, já passava das onze horas. Tião Batista convidou os outros para ir embora. O Tonico respondeu nos já vamos sem demora, deixa eu ver se belisca, vou gastar mais uma isca que acabei de por agora. Só se ouvia canto de sapo e pio de Sucuri. E o Chico meio cismado já tinha até ouvido o Sacy. O Zeca, o mais levado dos seis, era o mais cricri. Para assustar os companheiros veio andando ligeiro dizendo vocês viram o que eu vi. Contente com a pescaria, mas todos já bem cansados, formaram uma fila indiana pelo trio fundo do gado com as varas sobre os ombros, até chegar na estrada, só se ouviam as pisadas de sapatão lameado. Quando chegaram na estrada começaram a comentar. Hoje é Sexta-Feira Santa, o dia que o bicho anda. Uns eram mais medrosos começaram a esconjurar. Combinaram todos juntos, para mudar de assunto, pois Deus pode castigar.

Dali a pouco, ouviram uma corrida de cachorros, pois estávamos logo perto do outro lado do morro. Até parece ter ouvido um pedido de socorro. O Chico estava tremendo e desse jeito dizendo, é dessa vez que eu morro. Surgiu na curva da estrada um bicho esquisito de traseira levantada e barba que nem cabrito. Quem estava mais na frente deixou escapar um grito, tá o diabo na casa do terço, que saudade do meu berço, me salve meu São Benedito.

Era uma estrada estreita de barranco avantajado, o bicho vinha correndo e o cachorro emendado. Então, os seis pescadores encostaram de um lado. Teve um que até fez figa e outro muchou a barriga e o bicho passou carcado. Quando a corriga passou, foi aquele forrobodó, foi caindo um a um parecendo dominó.

O Chico mais assustado, seu estado era de dar dó, levantava ele do chão, mas quando tirava a mão, ele maliava que nem cipó. De todos que lá estavam comentaram o mesmo fato. Se é verdade eu não sei, eu só fiz o meu relato. Só o Abrão caladão não assustou e achou o maior barato de ver todos tão assustados, a ponto de desmaiar por causa de um cachorro do mato.” (Alex Campos é pescador e contador de histórias)

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