Ela faz tudo ao mesmo tempo: cinema, teatro, televisão, ela é uma médica na novela “Agora é que são elas”. Mas não é só isso A atriz Cristina Mullins, que ficou conhecida nacionalmente como a Santinha da novela “Paraíso”, formou- se em biologia em 2002, está no final do curso de veterinária, dá aulas de mamíferos marinhos numa universidade carioca, desenvolve pesquisa e projeto de especialização em animais silvestres na Fundação Oswaldo Cruz e ainda negocia com os diretores tanto das faculdades, quanto dos seus trabalhos artísticos a participação em congressos.
Foi durante o 27.º Congresso da Sociedade de Zoológicos do Brasil, realizado em Bauru, no mês passado, que ela arrumou um tempinho, entre um painel e outro, para conversar com o caderno Ser. Afinal, “não deu tempo” para Cristina não existe. “É só querer que dá, é uma questão de organização”, comenta a atriz, bióloga, pesquisadora e futura veterinária apaixonada por animais silvestres, que é casada com o ator Otávio Augusto e tem um netinho para brincar.
Métodos? “Só para estudar para”. Casa? “Nunca quis saber, tenho uma casa grande e só uma faxineira”. Vaidade de atriz? “É mais fácil me ver com uma máquina fotográfica na frasqueira do que um monte de cremes. Tenho horror a essa história de plástica e não sou consumista, mas adoro comprar livros. Ali tem um monte, sabe?” (aponta para a banca no saguão do hotel onde foi realizado o encontro).
Conheça um pouco mais sobre essa guerreira com cara de anjo, que sempre fez papéis humildes e virginais, mas que sonha em interpretar vilãs, prostitutas e madames.
Jornal da Cidade - Como é que a Cristina Mullins foi parar no mundo das artes e como a atriz virou bióloga, veterinária e militante da natureza? Cristina Mullins – Eu sempre tive uma paixão tanto pelas artes quanto pela ciência desde pequena. Eram coisas que fazia sempre ao mesmo tempo. Eu gostava de interpretar, de pintar, desenhar... Eu gostava de fotografia, dança. Mas ao mesmo tempo eu sempre gostei de ciências na época da escola e a minha casa sempre foi cheia de animais, um pequeno zoologicozinho, predominantemente com animais domésticos, mas depois, nem tanto...
JC – Hoje que bichos você tem em sua casa? Cristina – Hoje, por incrível que pareça, eu só tenho duas gatas que acabaram indo para a minha casa. Mas porque eu passei um tempo da minha vida viajando muito e depois passei a morar em apartamento. Apartamento eu não gosto nem para criança, quanto mais para bicho. Acho que nenhum deles deveria morar em apartamento. Apartamento não foi feito para gente. É que nem recinto de zoológico: a gente tem que enriquecer, mudar o conceito, porque não faz bem para a saúde. Então, a vida inteira eu tive as duas coisas na minha vida e por acaso, profissionalmente, eu entrei primeiro para as artes. Eu comecei a fazer cursos, a freqüentar leituras de textos, aquela coisa tradicional da adolescência, os teatros amadores, até que surgiu um teste para a televisão num daqueles programas que escolhem jovens atores. E eu disse: não vou, isso é coisa de televisão, de faturar em cima. Mas me disseram que precisava ter pelo menos o segundo grau completo. Aí pensei: muda um pouquinho, já dá um certo nível. Juntamos uma galera e fomos ver o que dava. Aí, eu ganhei o programa.
JC – Isso foi quando? Cristina – Eu tinha 18 anos e estava começando a fazer faculdade de comunicações. Mas eu ganhei o programa, e daí, né? Eu fui é passar férias no interior. O Herval Rossano estava querendo escalar elenco para uma novela, mas depois não deu certo e só aí que fui para o Rio de Janeiro para correr atrás da história. Fui morar no Rio e camelei muito, pois eu tinha o contrato, mas não tinha o trabalho. Era um contrato curto de seis meses e que passou rápido e eu fiquei lá, passando minha fomezinha básica, penando aqui, tentando lá. Aí fui fazer uma novela das dez, a “Nina”. Fiz quase como figurante, mas depois refizeram os testes para alunas que seriam amigas dos primeiros papéis jovens, fui aprovada e passei a ser um personagem com fala e nome. O meu trabalho foi superbem recebido pelos diretores da casa, pelos colegas, mas a censura cortou e eu não fui ao ar... Foi um aborto. Você faz um filho e ele desaparece. Na época, eu conheci meu primeiro marido, que fazia cinema. Ele me conheceu no estúdio, gostou do meu trabalho, me chamou para fazer um personagem e eu voltei para São Paulo. Fui para a Tupi, fui para a Bandeirantes onde fiz “Os Imigrantes”, que foi um baita sucesso que o Benedito Ruy Barbosa escreveu, foi para o Rio e aí me convidou para a fazer a Santinha, de “Paraíso”, que era o papel principal. Voltei para o Rio e tem toda essa carreira de tevê, teatro e cinema, cinema bem menos.
JC – Mas que lhe valeu um prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado em 96, 95? Cristina – Acho que foi em 95, no primeiro período da faculdade de biologia e tinha “História de Amor” junto, era uma confusão, uma novela...
JC – E como é conciliar tudo isso? Faculdade de biologia que é totalmente diferente das artes... Cristina – Aí eu tenho que te contar como aconteceu, mas não é totalmente diferente. Ator é um observador de vida, quem observa a vida, observa toda a vida. Eu não vejo muita separação. O ator... o ator de verdade, porque tem ator e ator, é muito ligado à natureza, exatamente pelo movimento da vida: a evolução do homem, a evolução da espécie. Nós temos muitos médicos que viram atores, músicos, dentistas. A Dedina Bernadelli começou fazendo biologia, depois seguiu a carreira. É muito comum você ter artistas nas áreas de biomédicas porque lida com a vida. Eu acho que tem muito a ver. Se eu te falasse: virei engenheira mecânica, não tem nada a ver, a gente pode até achar alguma coisa, mas na verdade não tem. Eu fui viajar com o teatro e parei em Belém, a porta de entrada da Amazônia, e comecei a perceber que eu sonhava muito, muito ricamente, quando eram pesadelos, eram supermegapesadelos. Eu me lembro que comentei com a equipe da peça e perguntei se estavam sonhando muito, pois os meus sonhos estavam muito malucos e eu achava que era a selva. Não a selva, mas o natural da gente, a proximidade com essa memória desse código genético, isso acho que me deu um cutucão lá no fundo, mas eu deixei para lá. Não prestei mais atenção. Aí eu fui para Manaus e enquanto todo mundo ia para a Zona Franca, eu me embrenhava na selva, aí mexeu e eu falei: esse lado precisa ser trabalhado! Mas levei um ano para me decidir, porque não é uma decisão fácil. Fiquei remoendo, remoendo... Porque não é só isso, você chega para o marido e diz que vai mudar tudo, ele imagina: você vai me largar também, né? Mas depois desse ano, eu cheguei para ele (o ator Otávio Augusto) e disse que queria prestar vestibular para biologia. Ele deu uma parada e disse: é... você sempre gostou disso, legal. Ele nunca criou clima, na verdade ele admira. Na verdade, queria prestar para veterinária, mas todas as universidades eram longe pra caramba e eu ainda estava trabalhando. Então, optei pela biologia e uma boa faculdade particular porque achava difícil fazer o vestibular de uma pública. Afinal, há quantos anos estava longe da escola. Você lembra? Física, química, aqueles segredinhos da tia Loló? Os meus foram enterrados com ela (risos). Fiz um cursinho e prestei todas de biologia e todas de turismo, pois se não passasse em biologia, iria fazer turismo ecológico. Não pelo turismo, mas pelo ecológico.
JC – Tudo para ficar perto do mato e do bicho... Cristina – Exatamente! Aí passei em todas e resolvi escolher a biologia e acho que foi maravilhoso porque eu sou muito mais bióloga, que veterinária. Eu adoro a veterinária, mas a forma de pensar é um pouco diferente e eu tenho a forma de pensar de um biólogo. Eu bem a cientista-pesquisadora.
JC – E você resolveu seguir essa linha de pesquisa mesmo? Cristina – É, trabalho com pesquisa e enlouqueci com a biologia, amei de paixão, foram os cinco melhores anos da minha vida. A minha carreira dá isso também, mas tem a emoção de quando se está começando. Eu tive o mesmo frisson pela biologia como eu tive pelas artes. Foi muito legal. Você está mais velho, não tem medo de prova, não tem o stress do jovem, você compreende mais... Quer voltar para a escola? Eu acho o máximo e dou o maior apoio, faça faculdade depois que já passou a fase de busca de uma carreira, porque é maravilhoso. Muita gente do meio veio conversar comigo e também acabou voltando para a faculdade. É magnífico, o professor não te assusta, você tem a mesma idade que ele e ele não vai fazer tipo, nem te sacanear, porque não cola. Eles até gostam de ter gente mais inquisidora em sala de aula.
JC – O fato de ter uma pessoa famosa e mais velha dentro da sala de aula deve fazer com que a moçada tenha um outro parâmetro. Cristina – Você acaba estimulando isso e é uma troca muito positiva até hoje a gente vive se encontrando em bar, todo mundo se adora. Foi muito legal e junto com a faculdade eu fiz o curta que ganhou o prêmio em Gramado, fiz o “Você Decide”, em que era uma freira, que não me lembro o nome.
JC – Era Suzana. Mas, particularmente, os seus papéis mais marcantes foram a Godóia, de “Meu Pé de Laranja Lima”, a Tamires, de “Brega e Chique”, a Santinha, de “Paraíso” e a Léo. Cristina – A Gódoia era ainda do tempo da Bandeirantes e a gorda Léo que vira manequim é mais recente.
JC – E como é virar manequim no espaço de uma novela? Cristina – Na verdade, aquilo era tudo efeito. E um caloooor... Eu estava super magrinha e usava espuma e duas blusas de manga comprida que não deixavam aparecer o braço fino. As calças eram largas, os sapatos um pouco maiores e trabalhei mesmo o movimento corpóreo, físico, um exercício de observação de me movimentar como se tivesse mesmo uma camada de gordura de verdade, andava com os braços distantes do corpo e as pernas um pouco afastadas como se uma coxa raspasse na outra e tivesse um leve balanço natural dos gordos. Eu parava como se fosse balé, preenchendo um espaço físico. Então, eu não emagreci, já estava magrinha. Emagreci um pouquinho mais para ficar fina no vídeo, porque tenho ombros e peitos e não tenho altura, sou atarracadinha e agora estou mais gordinha, é da idade...
JC – Você conta a sua idade? Cristina – Falo. Não tenho o menor problema. Estou com 46, mas existe um moleque aqui.
JC – Um moleque mesmo, com tudo que é direito, subir em árvore, etc, etc? Cristina – Com meu neto, subo eu e ele. Sou vodrasta, mas molecagens faço todas com ele.
JC – Por falar nisso, há quanto tempo você está com o Otávio? Vocês tem uma história legal para contar? Cristina – Estamos juntos há 17 anos e o mais legal da história é que fomos muito amigos antes de nos apaixonarmos. Nós éramos amigos e um dia caiu a ficha. Um olhou para o outro e disse é mais que isso. Não foi uma coisa ohhh!!! Nós éramos muito próximos e tínhamos muito em comum. E virou uma longa história de amor.
JC – O que é raro no meio artístico, principalmente quando os dois são artistas. Agora, com que freqüência vocês se encontram? Cristina – (Solta uma enorme gargalhada) Ultimamente, começou a ficar difícil. Mas sempre foi meio complicado. Mas tem o seguinte, eu não temo perdê-lo pela distância. Acho que ele sofre um pouco mais com a saudade, eu administro melhor, acho a saudade uma coisa legal, que me faz feliz. Eu sou muito segura e não gosto de amarrar ninguém. A gente está junto porque nós nos amamos, nós nos admiramos. Aliás se não tivesse respeito e admiração, que é básico, não teria nem me casado. E eu tenho uma profunda admiração por ele, politicamente, como ator indubitavelmente, acho ele o máximo não tenho nem o que discutir, eu adoro a pessoa que ele é, aí... não tem o que discutir. Quando viajo me dá uma crise de angústia, mas depois vai melhorando, a gente se fala o tempo todo e não é para perguntar onde está e sim como está, para dizer que está com saudade ou só para “I just called to say I love you” (cantarola).