Paulo Alves Pereira, 24 anos, a Pollyane, pegou 11 anos e seis meses por assalto e briga com cliente na rua, já cumpriu quatro anos de pena, mas está na Penitenciária 1 de Bauru há um mês “vivendo a vida”, como define.
Moacir Ferreira, 33 anos, a Mirandêi, está preso por receptação de carros e um assalto. Dos oito anos de pena já cumpriu seis e espera sua condicional para os próximos meses.
Idilmar Rocha, 30 anos, a Patrícia, também se envolveu em assalto, tem sete anos e quatro meses de pena, já cumpriu cinco, mas está voltando de um regime semi-aberto.
A detenção não é a única prisão na vida destas pessoas, registradas como homens, mas com alma feminina. O preconceito se repete. Afinal, cinco travestis dividem uma cela no presídio num universo de mil homens, muitos deles abominam a idéia de dividir o espaço com elas, que por sua vez apontam que a penitenciária de Bauru tem um tratamento humano e uma disciplina diferentes dos demais presídios.
Dois deles viveram no Carandiru e contam que a permanência no lendário complexo penitenciário, que deu origem ao livro de Dráusio Varella e ao filme de Hector Babenco, que sonham em ver, era infernal para “as bichas”, como se definem.
Há duas semanas, Pollyane, Mirandêi e Patrícia receberam a equipe do caderno Ser em uma sala reservada para contar como é a vida de um travesti na penitenciária. A recepção foi amistosa e em pouco tempo, elas refletindo conosco a sua condição de estarem aprisionadas duas vezes pela sociedade, que condena sua condição, seus atos e conseqüências.
A descoberta
Eles apontam que descobriram a homossexualidade “desde novinhas”, por volta dos 11, 12 anos.
“Eu não me descobri. Eu fui me encontrando e quando fui ver já estava. Eu nasci assim, nunca tive aquela fase de homem, quando menino eu nunca joguei bola, nunca soltei pipa. Eu era mais aquele filho caseiro, sempre estava ao lado de minha mãe”, relata Pollyane.
Dos três, apenas Patrícia não tem mãe, mas revela que sempre teve uma relação muito próxima, quando a mãe ainda era viva.
Já Miranda, como Mirandêi é chamada pelos companheiros de cela, reforça a ligação maternal muito forte. “A minha mãe ela me aceita do jeito que eu sou, independente que seja bicha, qualquer coisa assim, ela me aceita, eu sempre vou ser o filho dela. Nós temos um relacionamento muito bom. Ela sempre vem me visitar...”
“É o mesmo caso da minha”, dispara Pollyane. “Ela é evangélica e luta para que um dia eu vire do contrário, mas ela não me discrimina, ela me ama.”
A vaidade
Mesmo estando longe dos salões e das lojas de cosméticos, o fato de terem uma cela exclusiva para o grupo ajuda. Elas têm privacidade para fazer as unhas (que aliás, são muito bem feitas e cuidadas), depilar e passar os cremes que a-d-o-r-a-m e que chegam até elas pelos visitantes ou em forma de presente dos maridos e namorados.
Para manter a ordem na casa, elas passam a maioria do tempo de uniforme (calça cáqui e camiseta branca) como os outros detentos, mas como dizem que a P1 é “a melhor cadeia do Brasil” andam de chinelinho, pulseiras e brincos. E não saem para o trabalho sem perfume e hidratante.
Mas Pollyane reclama de ter precisado que cortar o cabelo para trabalhar. “Acho um preconceito isso”. O detento conta que estava com os cabelos abaixo dos ombros. “Fiz esse corte contra a vontade do barbeiro que falou que era uma cadeia masculina. Aí tive que deixar cortar. Mulher, mas mesmo assim me arrependi.”
“Aqui não pode ter cabelo comprido”, aponta Patrícia que como deve sair logo está escondendo os cabelos cacheados e quase louros. “Não quero cortar, nem criar caso. É complicado” Por isso, ela prende-os num coque discreto e não quis soltá-los para a foto com medo do juiz corregedor.
Entretanto, contam que no raio em que moram no verão acabam tomando sol de calcinha e sutiã.
As uniões
Sem o glamour do casamento do travesti Lady Di e do detento Sem Chance, no filme “Carandiru”, de Hector Babenco, Miranda também casou-se na prisão com um companheiro de raio, mora com o marido e até usa aliança.
“O meu casamento com o Paulo tem oito meses, mas não teve nada não. Foi uma coisa mais íntima, só entre eu e ele mesmo. Trocamos alianças e ficou tudo acertado. Na época em que casei, eu fiquei separada, mas não achei muito correto. Ele trabalhava o dia inteiro, voltava ía para sua cela e... nada. Aí consegui que ele viesse morar comigo.”
Sobre o início da paixão, a história de amor surpreende: “No meu caso, foi do nada. Na verdade, ele era marido de uma amiga minha. É assim... Essa amiga morava comigo. Só que na época, ela teve que ir embora e ele ficou depressivo. E eu sempre estava ali, dando aquela força para ele. Só que eu não se eu que interpretei mal, ou ele que interpretou mal... Quando eu vi, estávamos envolvidos”, conta.
Mas Pollyane se define como uma “bicha apaixonada”. Quando questionada se era paixão platônica, as colegas a definem como doentia. Desde 99, ela mantém um romance com um detento de outro raio. “A gente namora, sabe. Mas não dá para casamento.”
Menos falante que as colegas, Patrícia se limita a dizer que tem um namoradinho.
Os detalhes de como rolam o namoro e até o sexo, elas optaram por não contar. Mas afirmam que ao contrário de outras prisões não precisam, pelo fato de serem homossexuais, servirem a todos. “Eles respeitam a gente como ser humano. Os funcionários e diretores tratam a gente como s-e-r h-u-m-a-n-o”, carrega Pollyane.
Mas é claro que existem bilhetinhos e brincadeiras entre os presos. “Tem sempre um que grita: gostosona! Popozuda!”, conta e revela que às vezes recebe 15 a 20 recadinhos por semana.
Sobre casos de detentos enrustidos, elas preferem não comentar, mas garantem que às vezes percebem olhares e deslizes de alguns companheiros.