O aumento nas tarifas de telefone autorizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anteontem vai exigir ainda mais jogo de cintura do brasileiro. A regra agora é usar ainda menos o telefone e, quando usar, reduzir o tempo de conversa.
Em São Paulo, os reajustes serão de 24,5% para assinatura residencial e pulso e de 41,75% para assinatura não-residencial e habilitação, sendo que esta última salta de R$ 76,72 para R$ 108,60, de acordo com cálculos feitos tomando por base os valores disponíveis no site da Telefonica (www.telefonica.com.br).
Para a secretária Nádia Barnes Pais de Oliveira, o que mais pesa na sua conta telefônica é o custo dos pulsos - ela conta que a família gasta de 400 a 450 pulsos mensais. “Para uma residência que tem três pessoas que quase não ficam em casa, podem ser feitas poucas ligações, mas elas têm um tempo de duração longo”, diz.
Segundo Nádia, a última conta já apresentou queda depois que ela passou a “pegar mais no pé” da principal usuária da residência: sua filha Carolina, de 16 anos. “Esse mês veio até pouco: R$ 71,00. Mas no mês passado paguei R$ 100,00”, relata.
Na casa dela, as ligações para celular estão praticamente proibidas, e a Internet só pode ser acessada durante a semana após a meia-noite ou nos fins-de-semana, períodos em que é cobrado apenas um pulso por ligação. “Eu larguei um pouco da Internet, deixei o telefone meio de lado. Mas ligação para celular é quase nunca, eu evito bastante”, afirma Carolina.
Na opinião de Nádia, no entanto, o aumento nas tarifas telefônicas, ainda que previsto em contrato, é maior do que o razoável. “Se a chave do governo, lá em cima, não conseguiu deter o aumento, e a Anatel desautoriza o governo e sobe, não sei aonde vamos chegar”, declara.
Aparentemente, as famílias com filhos adolescentes são as que mais amargam uma conta telefônica pesada ao final do mês. De acordo com a doméstica Lourdes Pursini Tavares, suas duas filhas, de 14 e 19 anos, são as principais responsáveis pela conta mensal de cerca de R$ 60,00. “Elas ligam e esquecem, ficam falando quase meia hora”, diz.
Com o reajuste, ela e o marido vão ter de apertar ainda mais o cerco para a fatura do telefone não estourar o orçamento doméstico. “Agora vamos ter de segurar, para não pagar contas ainda mais caras”, afirma Lourdes.
Sem saída
Empresas que vivem quase exclusivamente do aparelho telefônico, como operadoras de telemarketing e imobiliárias, não têm outra saída se não pagar mais pelo mesmo serviço.
De acordo com a corretora de imóveis Wânia Porto, a conta telefônica da imobiliária de sua propriedade deve pular de cerca de R$ 1.000,00 para R$ 1.500,00. “Isso vai refletir enormemente aqui. Uma imobiliária vive do telefone, vive dos contatos pelo telefone”, diz.
Na opinião de Wânia - que já bloqueou as ligações para celulares dentro da empresa -, o jeito vai ser falar o “básico” com os clientes ou ir pessoalmente. “Nós vamos ter que contornar a situação diminuindo o tempo que nós falamos com o cliente, porque nós não podemos deixar de falar”, pondera.
Para Wânia, entretanto, a diminuição no uso do telefone pode ter um lado positivo: segundo ela, conversar pessoalmente com o cliente pode até resultar em melhores negócios.