Uma notícia divulgada no início de julho é alvo de séria reflexão para os comunicadores sociais desse país. O governo Lula, com o objetivo de aprovar as reformas da Previdência e tributária, está convocando apresentadores de programas populares para que colaborem na divulgação de sua proposta. Ele quer que Ratinho, Gugu, Datena, Hebe e outros expliquem os detalhes das propostas que estão tramitando no Congresso Nacional. Com um possível apoio popular, o governo quer conquistar maior adesão às propostas pelos deputados.
A estratégia governamental tem fundamento. A força desses apresentadores é grande. Juntos, eles têm uma audiência que nacionalmente é estimada em 50 milhões de espectadores. No Brasil, os programas jornalísticos e jornais impressos, mesmo usando linguagem popular, ainda não conseguiram esta façanha.
Se os Meios de Comunicação Social (MCS) do país já tivessem deixado claro qual é seu papel na sociedade, este pedido não teria razão de existir. Se a leitura fosse um hábito para os brasileiros, os jornais mais baratos, difundidos e acessíveis a maior parte da população, não passaríamos pela “saia justa” criada pelo pedido governamental. É obrigação dos MCS fomentar os temas de interesse social. Seu papel de “formadores de opinião” é colocado em cheque quando um pedido como esse é feito.
O pedido de Lula aponta duas questões relevantes: a primeira, de que a Imprensa, e aí também estariam incluídos os telejornais, não dá uma cobertura eficaz sobre os temas a que se propõe debater. É lógico que o governo quer defender sua proposta tal como ela é, mas é obrigação dos MCS discuti-la com toda a sociedade, expondo inclusive o que pensam os opositores. Apresentar algo como o governo quer, em programas populares, que não têm preocupação jornalística, é perigoso e favorece ainda mais a parcialidade.
A segunda questão a ser refletida diz respeito ao próprio governo. Ela está relacionada à Educação. Apelar para que as discussões políticas do país sejam ampliadas para programas populares revela que a educação brasileira não valoriza a leitura, a interpretação do mundo e a criticidade. Se os brasileiros estão longe dos jornais não é só porque eles são caros, mas também porque sua leitura não é um hábito entre nós.
No momento, nossa única esperança é de que Ratinho, Gugu, Hebe, Datena e os outros apresentadores convocados por Lula, caso aceitem a proposta, o façam da forma mais ética possível. Porém, a nossa preocupação continua porque, se averiguarmos o histórico dos programas dirigidos por eles, veremos que o sensacionalismo faz parte de suas rotinas. É claro que o governo Lula acerta ao apelar para o que é óbvio: “ir até onde o povo está”. Por outro lado, erra, porque camufla uma questão mais séria e ainda não resolvida: quais são as políticas necessárias para a democratização da informação no Brasil? (Rodrigo Botelho - jornalista formado pela Universidade Estadual Paulista - Unesp)