No futuro, será possível aos profissionais da odontologia reporem os dentes caídos de seus pacientes com novos dentes, desenvolvidos a partir de células das próprias pessoas. O professor e pesquisador Jacques Eduardo Nor trabalha com estudos de biologia molecular e engenharia de tecidos, e veio a Bauru na semana passada apresentar um curso na Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de São Paulo (FOB-USP) sobre como suas pesquisas são aplicadas à odontologia.
A vinda do pesquisador é motivada por uma parceria entre a FOB e a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, onde ele trabalha. Nor é dentista, formado na Universidade Federal de Porto Alegre (RS) e fez mestrado e doutorado em Michigan.
Ele afirma que a realização de um curso como este em Bauru é uma iniciativa única. “Foi um curso bem inovador, mundialmente falando. Falamos da aplicação da biologia molecular e da engenharia de tecidos na odontologia. Durante muitos anos, a odontologia se baseou na parte mais mecânica e agora está expandindo para o lado biológico, da reparação dos tecidos”, comenta.
O professor explica que se uma pessoa perdia um dente, pouco tempo atrás, a única alternativa seria o implante de uma “ponte fixa” de metal e porcelana. Segundo Nor, agora, cada vez mais os profissionais pensam em repor o dente com outro dente natural.
“No ano passado, saiu a primeira publicação no Journal of Dental Research que descreve a engenharia de um dente. Se uma pessoa tem uma queimadura, a engenharia é capaz de produzir uma nova pele para repor. O conceito que trabalhamos no curso, e que eu trabalho em Michigan, é aplicar a engenharia na produção dentária”, diz. O Journal of Dental Research é a revista científica de maior impacto na área da odontologia.
No laboratório na Universidade de Michigan onde trabalha, Nor tem o apoio de estudantes graduandos e pós-graduandos de odontologia, biólogos, médicos e engenheiros.
O trabalho de pesquisa é financiado pelo NIH, o Instituto Nacional de Saúde americano. “No ano passado, recebemos um financiamento de US$ 1,3 milhão para cinco anos de pesquisas na área de câncer bucal. Os trabalhos que temos publicado têm saído em revistas como a Cancer Research, importantes da área”, conta.
A vascularização do câncer bucal é a área de trabalho do professor relacionada à doença. Ele explica que as células com câncer precisam de sangue, com nutrientes e oxigênio, para se desenvolverem, e dependem dos vasos sanguíneos para se espalharem para o organismo, através de metástase (multiplicação).
“No laboratório, procuramos diminuir a vascularização do câncer bucal, para levar as células a morrer de fome, sem nutrientes”, esclarece Nor.
Com as pesquisas, é possível atuar em duas áreas similares, segundo o professor. Ao mesmo tempo em que Nor e seus ajudantes procuram genes e moléculas que atuem no rompimento dos vasos, destruindo o câncer, usam a engenharia genética, nos mesmos modelos, para estudar a estimulação do crescimento de vasos.
O professor explica que já é provado que existem células-tronco na polpa dos dentes-de-leite, que caem na infância. As células-tronco podem se diferenciar e evoluírem em células diferentes. “No futuro, as pessoas poderão guardar um dente-de-leite congelado em laboratório, e se precisar de um dente novo, usarão as células-tronco para desenvolvê-lo”.
Ele conta que também existe um grupo de pesquisadores em Michigan que procura a presença de células-tronco em dentes adultos.
“Seria possível transferir as células para a gengiva, expandir e induzir o crescimento de um dente novo, modificando as células da gengiva em células de dente”, entusiasma-se.
Nor conta que um de seus colegas de trabalho é o professor David Mooney, que participou da equipe do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) que desenvolveu uma estrutura em forma de orelha humana nas costas de um camundongo de laboratório.
“Nós trabalhamos para estimular a vascularização do tecido. Se você vai trabalhar um órgão novo, precisará de vasos para levar nutrientes àquelas células. Se vai fazer o nervo de um dente, também precisa dos vasos, senão as células não vão se desenvolver”, esclarece.
As pesquisas desenvolvidas pelo professor ainda estão em fase inicial, com testes em camundongos em laboratórios. Mas ele acredita que não está longe de atingir a meta.
A diretora da FOB, Maria Fidela Caldas Navarro, ressalta a importância da presença de um profissional como o professor Nor em Bauru. “A ligação com pessoas e centros extraordinários, assim como o professor Jacques, só pode enriquecer e engrandecer nossa instituição”, diz.
“É com o desenvolvimento de parcerias, pesquisas, com intercâmbios como este, que a universidade e a população ganham”, finaliza Nor.