Ser

Conquistas da disciplina

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 10 min

Aparentemente, a tarefa de preparar um atleta parece fácil. Basta fazer um cronograma e cobrar o atleta.

Mas ao contrário do que se imagina, o preparador físico tem que ficar analisando tudo o que seu aluno faz.

Aos 32 anos, casado e pai de uma garotinha de 2 anos, o professor de educação física Kiko Mendonça comanda as atividades físicas de 14 profissionais, faz as avaliações numa das grandes academias da cidade e ainda é responsável pelo preparo do piloto bauruense de Fórmula Indy, Airton Conti Daré, o Darezinho.

Mendonça confessa sua paixão por carros e se assume como fã de corridas de qualquer espécie, mas o máximo que ousou fazer em alta velocidade foi pilotar um kart numa pista indoor, o que garante ser uma boa prova para reforçar a necessidade que até os sedentários têm de fazer exercícios.

Entre uma aula e outra, Kiko conversou esta semana com o Caderno Ser e mostrou que a disciplina é a alma do negócio. Confira:

Jornal da Cidade - Como você entrou para o mundo dos esportes? Você era atleta desde a infância? Kiko Mendonça – É bem por aí. Eu sou atleta desde pequenininho e sempre gostei de esportes. Escolhi a minha atividade profissional dentro daquilo que sempre gostei a vida inteira. Foi muito fácil escolher minha profissão porque era uma coisa que eu fazia desde criança.

JC – E quais esportes você praticou? Kiko – Todos os que estavam ao meu alcance. Eu sou de Agudos e freqüentava todas as escolinhas que a cidade oferecia, mas uma que me dei muito bem foi o voleibol. Quando entrei na faculdade o que me despertou a atenção foi fisiologia do esporte, do exercício, que me motivaram a seguir para a preparação física. A parte específica de treinamento era a que eu mais gostava tanto na escolinha, quanto na faculdade, era nessas matérias que mais me dedicava.

JC – Nesse sentido, as próprias características de preparo físico exigem disciplina e dedicação. O Kiko é assim: disciplinado e dedicado? Kiko – Muito, muito dedicado. Eu tento instigar qualquer um dos meus alunos para isso. Se não tiver disciplina nessa área, não tem condições de chegar ao objetivo que ele está querendo alcançar. Se a gente pensar em atleta, o atleta visa performance e ele precisa de disciplina para atingir seus objetivos. A disciplina no mundo dos esportes é crucial. Mas a gente tem alguns alunos que são indisciplinados.

JC – Como pessoa, você é metódico e se cobra muito? Kiko – Eu me cobro demais, mas não sou muito metódico não. A minha parte profissional é o principal. Se for preciso, eu dou aula de madrugada, se tiver que trabalhar no domingo e feriado, eu também vou. Aliás, já cansei de acordar às quatro da manhã ou passar o feriado treinando. Com a minha parte profissional não tem conversa, se tem que treinar, vamos lá. A única coisa metódica é cumprir o cronograma que faço para cada atleta e que faço cumprir a ferro e fogo, a não ser quando tem alguns encalços no meio do programa. Mas aí entra a habilidade do professor de educação física em estar reprogramando a situação. Isso acontece mesmo. Vou citar o caso do Airton (Conti Daré, o Darezinho): a gente estava no meio do treinamento, num momento primordial de sua preparação e ele estava prestes a fechar um contrato nos Estados Unidos. Ele foi, mas quando voltou tive que reprogramar todo o treinamento para recuperar a seqüência.

JC – Você prepara o Darezinho desde o início da carreira dele como piloto? Kiko – Não, quando ele começou, fazia preparação com profissionais de São Paulo, mas assim que ele entrou na Fórmula Indy, na IRL, eu estou auxiliando na sua preparação física. Mas o processo de trabalho com corredores vem antes do Airton. Eu fiz um trabalho dentro da faculdade para estar trabalhando o condicionamento físico de atletas de corrida. Esse trabalho foi feito com corredores de Fórmula Kart e Fórmula Corsa e está publicado em duas revistas internacionais.

JC – E qual a diferença em preparar um corredor que fica sentado num cockpit de um outro atleta com atividade aparentemente mais intensa como um triatleta ou maratonista ou jogador de algum tipo de bola? Kiko – A diferença está na performance. O cara que está dentro do cockpit aparentemente, como você disse, está lá sentado e guiando. Mas este mesmo cara está com um estresse muito grande. Ele está andando numa média de 300 km por hora e essa tensão não é só psicológica, é tensão muscular também porque ele tem que estar segurando o volante do carro e ficar atento a quem está passando também a 300 por hora. A tensão nos músculos das costas, ombros e braços é muito grande. Então a gente tem que estar avaliando todo esse processo do piloto para desenvolver um trabalho em cima. Agora, um maratonista que vai correr 42 km está com toda a prova na cabeça e parece que ele só está correndo, mas ele também está pensando. Toda a preparação física deste atleta vem à tona quando ele está correndo. A performance é o que conta. Quando a gente compara um atleta com um não-atleta a gente visa o objetivo de cada um: o atleta quer resultado e o não-atleta quer qualidade de vida, quer saúde, vem à academia para moldar o corpo.

JC – Já que citou a qualidade de vida, hoje o que as pessoas buscam mais ao chegar numa academia? É sabido que o exercício físico produz endorfina, que é uma das substâncias do bem-estar. As pessoas vêm para a academia buscando endorfina, ou querem perder peso, já que a obesidade é o novo grande mal do mundo? Kiko – As pessoas vêm em busca do corpo perfeito, ou de diminuir a camada de gordura corporal. Elas vêm mais por estética mesmo. Mas boa parte da população já passa a buscar qualidade de vida. Muitas pessoas dizem que não são atletas, mas acabam sendo. Eu tenho um aluno, um neurocirurgião, que disse que me procurou por qualidade de vida, mas quando você vai analisar as práticas da pessoa percebe que não é só isso. Muitas vezes, ele acaba ficando de dez a doze horas por dia operando numa mesma posição. Então, na verdade, ele é um atleta porque acaba dentro da atividade profissional dele, tenso e fazendo exercício. Então, preciso avaliar tudo, do tempo em que ele gasta, à freqüência com que ele faz, os músculos trabalhados, se ele emprega força ou movimentos finos, as refeições que ele faz... Parece que é só chegar na academia e passar um treino, mas a parte do preparador físico é justamente estar analisando todos os detalhes que envolvem a profissão desta pessoa.

JC – Então, até um profissional sedentário precisa de preparo físico para ficar sentado à frente de um computador o dia inteiro? Kiko – Sim, é isso mesmo. Eu tenho uma aluna que fica sentada o dia inteiro à frente do computador, mas ao mesmo tempo é como se estivesse numa maratona tendo que tomar uma série de decisões e vivendo o estresse de controlar o que acontece dentro da fábrica onde atua. Às vezes, ela fica negociando valores por horas e quando a reunião acaba está toda tensa, cansada física e psicologicamente por ter gasto tanta energia. Mas com o preparo físico que ela tem, acaba levando vantagem sobre quem tem apenas uma vida sedentária. Outro dia, ela me contou que ganhou uma cotação pelo cansaço. O fornecedor desistiu e ela bateu o preço pela resistência. No caso de um executivo, o preparo físico aplicado no que a gente chama de pessoas comuns dá resultado. Então, você percebe que temos o atleta e o atleta do dia-a-dia.

JC – Aliado ao programa físico, com ou sem aparelhos, o que os seus alunos levam de lição de casa? Dieta, relaxamento... Kiko – A primeira lição que passo para qualquer um deles é ter uma conduta correta de se alimentar. Muitas dessas “pessoas comuns” e até mesmo os atletas têm um erro básico que é a alimentação. Eles comem fora de hora, comem qualquer porcaria o dia inteiro, não se alimentam na proporção correta de carboidratos, fibras, proteínas... Até os meus pacientes médicos acabam fazendo uma única refeição por dia, por causa de uma cirurgia ou por não ter folga entre um paciente e outro.

JC – E como você monitora o Darezinho, que passa a maior parte do tempo fora do Brasil? Kiko – É um monitoramento feito 80% por e-mail.

JC – Mas ele não te engana? Kiko – Engana, engana, sim. Mas eu tenho uma forte aliada que é a mulher dele, que me conta tudo o que ele não fez. Dentro dessa programação checada por e-mail, tem uma parte do ano em que vou para lá. O Daré tem todo um programa específico a seguir e eu posso citar que ele faz pelo menos uma hora e meia de exercícios por dia, tirando apenas o dia da corrida. Em época de temporada, ele treina intenso de segunda a quinta e dá manutenção até o dia da prova. Se a corrida é num sábado à noite ou num domingo à tarde, os exercícios do dia são de alongamento e bem leves. Mas nos dias que antecedem a prova, ele se prepara para agüentar a corrida. No começo, quando o Airton não tinha preparação física, ele acabava a prova tendo que colocar gelo nas costas por não suportar a dor.

JC – Além da perda de peso natural a cada corrida, o que mais pode acontecer a um piloto mal preparado? Kiko – Essa perda de peso é de água perdida durante a corrida, não é gordura corporal. Aquilo que ele ingere de água durante a corrida, porque tem uma garrafa dentro do cockpit com um tubo ligado ao capacete para o piloto sugar quando tiver sede, não dá tempo de ser metabolizado pelo organismo, hidratando o atleta durante a corrida. Mas um atleta sedentário dentro do cockpit, ao final da corrida estará com toda a musculatura tensa e dolorida, chegando até a sentir-se mal com fadiga muscular.

JC – Recentemente, o Airton sofreu um acidente e quebrou ossos da perna, braço e mão. Qual será sua missão na recuperação do piloto? Kiko – Ele foi muito bem operado, saiu há alguns dias da fisioterapia, mas como ele estava muito bem condicionado, a recuperação dele está sendo bem rápida. Agora a primeira coisa que a gente vai fazer é restabelecer a massa muscular perdida, ele tem alguma deficiência de movimentos, e vou ter que estudar quais serão os melhores exercícios para que ele recupere não só os músculos e movimentos, mas também a força e os reflexos perdidos com a cirurgia. É um trabalho muito minucioso, que precisa ser feito sem que ele sinta dor.

JC – Então, a próxima vitória dele é mais uma vitória sua enquanto profissional, é isso? Kiko – Para mim e para a fisioterapeuta que o acompanhou. Mas enquanto profissional, será a minha vitória vê-lo de volta às pistas.

JC – E como é ver o Airton no pódio? Kiko – A gente ganha a corrida com ele. Se ele estiver no pódio, a sensação é de estar lá em cima junto com ele. Quando ele ergue um troféu, a gente também parece estar levantando uma taça, pois é uma vitória que também é nossa. Só o atleta com bom condicionamento físico chega até o final, quem não tem pede água...

JC – Essa corrida termina onde? Kiko – No ano passado, numa conversa no laboratório de Fisiologia da Unesp de Rio Claro, eu e alguns professores perguntamos ao Airton aonde ele quer chegar e ele respondeu que seu sonho é correr na Fórmula 1. O meu sonho é fazer com que ele chegue lá e depois a gente vê quais os outros sonhos estão na frente.

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