Economia & Negócios

'Lucros dos bancos travam o Brasil'

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

O sistema financeiro liderado pelos cinco maiores bancos brasileiros, que detêm 57% de todo o movimento do País, continua sendo o grande vilão da economia neste ano, a exemplo do que já vinha ocorrendo. O economista Carlos Sette considera que o País só vai retomar o círculo virtuoso da economia se o governo jogar duro com os bancos.

Ele revela que um estudo deste mês da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que os banqueiros brasileiros continuam tendo a absurda rentabilidade de 30% ao ano enquanto que nos países do Primeiro Mundo o lucro é de 2%. A redução na taxa de juros não será capaz de, sozinha, colocar o País de volta na rota do crescimento econômico. Leia os principais pontos da reflexão do economista na entrevista a seguir:

Jornal da Cidade - Qual a avaliação do senhor sobre a posição conservadora do Banco Central em relação aos juros? Carlos Sette - Concordo que o Banco Central foi conservador durante esse período. A taxa de juros Selic teria que ter sido reduzida muito mais do que aconteceu. A taxa básica é o referencial para o governo pagar sua dívidas e quanto mais essa taxa descer, mais o País terá possibilidades de crescimento, de gerar emprego e renda. Espero que o governo vá propor uma redução mais agressiva ao longo dos próximos meses. O mercado esperava uma redução de 2% na taxa e o governo reduziu 1,5%. O governo não fez mais que a obrigação ao reduzir a taxa.

JC - Quais as conseqüências dessa taxa de juros para a economia agora? Sette - Temos vários ângulos para avaliar sobre o impacto no segundo semestre deste ano. A taxa básica é a da Selic. Mas a realidade do que acontece com o custo final do dinheiro no mercado é outro. Todos sabem que a composição das taxas é outra. Porque os bancos pagam 24,5% de taxa, mas custa 120% ao ano para o cheque especial, na ponta, e custa 230% para o cartão de crédito e 75% para as empresas. O desconto de duplicata está com taxa de juros de 77% ao ano. O que deixa tão caro a taxa é a relação entre a tomada do custo básico e a composição final, que tem os impostos, a taxa de inadimplência e a rentabilidade dos bancos.

JC - Os bancos estão aplicando taxas de rentabilidade fora da realidade do mercado, que está pressionado pela estagnação? Sette - Aqui reside o maior problema hoje da economia para o governo atuar. A revista Conjuntura Econômica da Fundação Getúlio Vargas deste mês, muito confiável, apontou uma rentabilidade dos bancos brasileiros de 30%, contra 2% dos bancos do Primeiro Mundo. Isto é um absurdo. O governo terá que trabalhar essa questão. Os bancos acabam ficando com todo o ganho da economia. E esse é o grande nó para o governo desatar para o segundo semestre. Porque a queda na taxa de juros realizada nesta semana não vai ter efeito tão rápido e eficiente sobre a economia no segundo semestre. Se o governo não equacionar a taxa cobrada pelos bancos e rediscutir os mecanismos de rentabilidade, o resultado final na ponta continuará sendo muito lento.

JC - Se os bancos continuarem ganhando fora da realidade, não há espaço para a economia reagir no conjunto? Sette - É isso. Não tem espaço. Ninguém mais ganha o que os bancos estão ganhando no Brasil há muitos anos. O setor produtivo, que é quem produz e verdadeiramente emprega, seja da indústria, comércio e da área de serviços, está com as margens muito apertadas. E são esses segmentos que empregam e ainda correm o risco porque é o empreendedor que colocou máquinas novas, investiu, mas deixa boa parte de seu capital nas mãos da posição do banco, que continua cobrando fora da realidade e ganhando muito. O banco é o sócio do país, sem esforço. Ele não sua a camisa e repassa a taxa de inadimplência no custo do empréstimo. Talvez seja o único segmento que repassa a taxa de inadimplência sua para os outros. Os segmentos industriais e do comércio têm inadimplência e estão apertados em vários setores, mas eles não conseguem repassar a inadimplência porque senão não têm condições de competir. Já está difícil vender, girar a mercadoria, com a situação atual, apertada. Mas os bancos repassam tudo, calçam essa bota chamada inadimplência no mercado. Se o governo não fizer alguma coisa os créditos ainda vão continuar escassos.

JC - E qual o impacto dessa situação dos bancos para o conjunto da economia? Sette - Se os juros para eu comprar uma mercadoria estão em torno de 120% ao ano, para adquirir uma geladeira, por exemplo, eu vou vender cada vez menos. O comércio não consegue vender e a indústria não consegue aumentar a produção. Com a defasagem dos salários e os juros elevados na prática, o consumidor fica sem condições de comprar. A economia retrai. E essa situação aumenta o custo das indústrias, que ficam pressionadas porque o setor precisa fazer o giro de capital e não consegue girar tudo o que deveria e ainda paga 75% de taxa para descontar as duplicatas. Então a indústria diminui a margem de lucro. E quem diminui muito a margem de lucro não investe em publicidade, não investe em máquinas. Então no conjunto da economia todos perdem porque uma coisa está amarrada a outro no ciclo da economia.

JC - O governo vai ter que mexer com sistema bancário? Sette - O governo está em uma situação de saia justa porque na medida em que os bancos foram fazendo fusão eles se fortaleceram. Hoje os cinco maiores bancos do Brasil detêm 57% do setor, de todo o movimento financeiro. Os bancos são mais fortes, formaram um conglomerado. Mas o governo vai ter que apertar, negociar com os bancos. Porque só a queda na taxa de juros não vai resultar em crescimento na economia. A queda de 1,5% de taxa de juros para uma taxa que custa 75% para a indústria, 120% para o consumidor. Quer dizer, o resultado final na ponta é nada. O problema está na alta rentabilidade dos bancos. Esta é a economia real que está distante da taxa de juros que o Banco Central reduziu. O governo não fez muito mais que a obrigação em reduzir. E agora terá que apertar junto aos bancos. Será uma briga difícil, porque os bancos estão muito à vontade. Além disso, o governo precisa pelo menos aprovar a Reforma da Previdência ainda neste ano e dar o encaminhamento, pelo menos, para a Reforma Tributária. Esses são os desafios para o segundo semestre. Precisa criar ambiente para voltar o investimento. Senão o círculo virtuoso da economia não retorna.

JC - E os governadores querem uma divisão melhor da fatia das receitas nacionais? Sette - E tem sido muito positivo o posicionamento dos governadores, que estão dando esse recado direto para o governo e negociando. É negociando que se eleva a discussão. Mas as reformas também têm que trazer benefícios para os municípios. A Reforma Tributária tem que trazer também uma descentralização dos recursos para que os prefeitos, os deputados, não tenham que ir a Brasília sempre com o chapéu na mão.

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