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Raciocínio espinhoso


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Médicos do serviço público federal recebem hoje, por 20 horas de jornada semanal, um salário líquido de pouco mais de R$ 1.600,00. Se optarem por 40 horas, os valores, é claro, dobram. Professores da Universidade de São Paulo, a que melhor remunera no Brasil, após, no mínimo, 20 anos de docência, conquistado o título de professor doutor titular, chegam ao salário médio de R$ 8 mil. O que dizer da remuneração dos de nível médio ou integrados às universidades federais?

Juízes e promotores, pelo que se lê nos jornais, querem garantir, na aposentadoria, uma quase integralidade comparativa de vencimentos, no valor de R$ 12 mil. Os médicos lutam para diagnosticar males físicos e recuperar a saúde dos que os buscam. Inclusive juízes, promotores e professores. Devem exercer sua atividade até na mais remota periferia, arriscando-se à violência crescente.

Os professores, desde o nível básico, preparam cidadãos para chegarem à universidade, que, se pública, é privilégio de poucos. Ensinam futuros médicos, futuros juízes e promotores e futuros professores universitários. Estes formam, finalmente, os médicos, juízes e promotores. Além de outros professores, que continuarão a sua tarefa. Não é possível descartar uma interdependência entre essas profissões. Não na atividade final, mas nos caminhos percorridos para atingi-los. Provavelmente, outras categorias profissionais poderiam ser objeto do mesmo raciocínio.

Médicos são severamente criticados quando ameaçam ou deflagram greves. Acusam-lhes de corporativos, qualificam-nos de máfia de branco. Professores não escapam de juízo rigorosos quando paralisam suas atividades. São cobrados, além disso, cada vez mais e responsabilizados individualmente, quando o problema é muito maior, pela qualidade do ensino. Alunos desacostumados da disciplina mínima escolar são abundantes.Até agressões físicas ocorrem.

Juízes e promotores, que como os médicos e professores do serviço público são admitidos por concurso, estão totalmente equivocados na expressão de sua discordância em relação à reforma da Previdência Social. Os melhores e irrefutáveis argumentos foram divulgados, até contundentemente, pela Ordem dos Advogados do Brasil e presidentes de Supremos Tribunais. Espera-se que seja um movimento de minoria. Não há dúvidas que se os médicos e professores da rede pública percebessem em torno de R$ 12 mil por sua jornada, poderiam dedicar-se muito além do que já o fazem, e com brilhantismo, as suas tarefas. É necessária uma ampla reflexão. A sociedade exige solidariedade e sacrifícios repartidos em busca de futuro possível.

O autor, Luiz Fernando Ribeiro, é ex-secretário municipal de Saúde.

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