Ser

De olho no amanh

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 10 min

Vários capítulos da história de Bauru têm como personagem Paulo Pereira Rangel que, mora no distrito de Tibiriçá, onde nasceu, e não pretende sair de lá tão cedo.

Ele se dedica à criação animais (mini-pôneis, ovinos e suínos), mas quem pensa que esse senhorzinho de aparência tranqüila, que vive na zona rural, é pacato, se engana. Aliás, é preciso muito para acompanhar esse moço de 82 anos, que afirma pensar no futuro todos os dias.

Aos 30 anos, Rangel tornou-se vereador e completou 51 anos ainda na Câmara Municipal. Ao mesmo tempo, teve por 25 anos uma escola de caligrafia e datilografia em Bauru, que também serviu de notícia para o semanário “A Verdade”, do qual foi fundador.

Em 1950, em meio a essas outras atividades, começou a criar animais. Primeiro foram as aves, galinhas de postura, depois os suínos, que até hoje cria com o filho. Vieram os ovinos e depois os pôneis (hoje rebatizados de mini-horses e têm o criador na diretoria da Associação Paulista). Como não bastassem as miniaturas de cavalos, Rangel mantém dois galinheiros com mini-galinhas, que, segundo ele, são para “agradar os netos”, ou melhor, mimar as três netinhas: Débora, 6 anos, filha de Claudia, a caçula de Paulo Rangel, e Marina, 8 anos, e Carolina, 6 anos, filhas de Paulo Filho, que mesmo aos 43 anos e tendo o dobro do tamanho do pai, é chamado de Paulinho como se fosse um menino.

Presidente do Centro Rural de Tibiriçá, ele é um dos fundadores do Sindicato Rural de Bauru, o sócio número dois, e membro atuante e premiado de diversas associações ligadas às suas inúmeras atividades.

Filho de um entusiasta do folclore que ensinou catira para muitos meninos da região, inclusive alguns dos senhores que formam o Grupo Caçula, ‘seu’ Paulo Rangel se assume como festeiro e faz questão de acompanhar seus animais em cada exposição agropecuária.

Numa conversa que poderia ter durado dias, este senhor, pinça com lucidez e bom humor, trechos de uma história que poucos conseguiriam acompanhar no mesmo ritmo.

Jornal da Cidade – Como personagem da história de Bauru e do distrito de Tibiriçá, como o senhor vê o fato de ter sido vereador por 21 anos, ter atuado na política da cidade por tanto tempo numa época em que as coisas eram muito diferentes de hoje? Como era a batalha pelo voto naquela época? Hoje, a indústria da propaganda cria um candidato vencedor sem que ele tenha bases políticas, ideológicas e de conduta, basta ter um bom marketeiro na retaguarda. Paulo Pereira Rangel – Naquele tempo, as campanhas eram diferentes. Não se gastava dinheiro como se gasta hoje. A campanha era feita na base de contatos pessoais e comícios. Hoje se tem a televisão, os jornais e as campanhas de distribuição de prêmios e brindes. Naquele tempo não tinha nada disso. Eu fui vereador pela primeira vez em 1951 e tinha 30 anos.

JC – Novinho, né? Era uma característica ter vereadores novos ou o senhor já era arrojado naquela época? Rangel – Eu era um dos mais novos. Tinha alguns da mesma idade.

JC – Mas dá para revelar o segredo desta longevidade com uma disposição de fazer inveja? Rangel – Eu tenho 82 anos e não fumo e não bebo. Nunca fumei. Nunca bebi. Já tive muitas cirurgias, sete ou oito já, mas estou sempre firme. Acordo às seis da manhã, vou lá nos pôneis, vejo os ovinos também, depois faço algum serviço de casa, fico por aqui (no escritório) e mexo com a papelada dos pôneis que dá trabalho. Você tem que comunicar cobertura da égua, nascimento, chama o inspetor para ver se o animal serve para exposição.

JC – Apesar da idade, o senhor faz 500 mil coisas ao mesmo tempo. Mas já teve tempo de fazer uma coisa só? Qual foi a sua primeira profissão? Rangel – A primeira profissão foi escriturário de fazenda, mas eu trabalhava também no posto de gasolina do meu pai.

JC – As criações vieram quando? Rangel – Em 1950, com uma criação de aves, só galinhas de postura. Depois vieram os suínos, que mantenho até hoje, mas passei para meu filho, pois a nossa granja passou a ser diferenciada, trabalhando com reprodutores. Passamos a participar de exposições e ganhar prêmios (mostra a galeria repleta de troféus e aponta para um quadro onde foi condecorado pela Associação Paulista de Criadores de Suínos). Eu fui o único até agora a receber este prêmio.

JC – E como chegaram os pôneis? Rangel – Os pôneis vieram mais como hobby e hoje, apesar de ter bastante, continuam sendo um hobby.

JC – Mas o senhor tem uma disposição para levar esses pôneis para todo e qualquer canto... Rangel – Semana passada estive em São João da Boa Vista e este final de semana vou a Jaú, numa exposição de pôneis da Federação. Agora, fala você, não fala senhor e pode colocar você na matéria.

JC – Você trata dessas “crianças” como se fossem filhos. Quando uma delas é arrematada num leilão não dá uma dorzinha no coração ou já virou costume? Rangel – Não. Você não pode ser um colecionador de animais... Mas os meus netos cada um tem o seu pônei.

JC – Mas nunca o senhor criou vínculo com nenhum animal? Rangel – Sim, sim. Tem aqueles que você reserva, aqueles que são muito premiados, acabam ficando sim com a gente.

JC – Em meio à vereança e aos animais, você também teve uma escola de caligrafia? Rangel – É, essa é uma longa história. Eu fiz um curso de caligrafia por correspondência. Depois, fui a São Paulo prestar um exame na Secretaria da Saúde para conseguir o diploma de técnico em caligrafia. Isto fui eu que fiz (mostra um quadro com o poema Bauru, de Rodrigues de Abreu, escrito por ele em letras góticas, em 1940). Aí, em parceria com o dr. Antônio Di Franco que foi o maior calígrafo brasileiro, montei a escola em Bauru, que funcionou de 1947 a 1972, durante 25 anos. A escola do Di Franco tem mais de 75 anos.

JC – Mas ainda existe? Rangel – Existe, mas agora com pouco trabalho porque agora, você sabe, que caligrafia caiu da moda. A minha escola era de caligrafia e datilografia e hoje essas duas coisas são supérfluas. Mas foi um serviço que a gente prestou com muito amor, porque você lida com a juventude, com pessoas de idade, faz muita amizade.

JC – A sua letra é bonita até hoje? Rangel – Não mais. A minha saúde anda meio abalada.

JC – Você sabe mexer em computador ou nem se atreveu a chegar perto? Rangel – Eu não sei mexer não. Tem aqui do meu filho, mas não me interessei ainda. Aliás, se eu estivesse ficando em Bauru, eu teria que entrar numa escola para aprender um pouco. Na datilografia, eu fui um bom datilógrafo, que datilografava com todos os dedos e sem olhar para o teclado, era assim que nós ensinávamos.

JC – Você também foi dono de jornal e usava toda a técnica de datilógrafo para escrever? Rangel – Não escrevia não. Era um jornal semanal de cunho político, que durou quatro anos e se chamava “A Verdade”, quem escrevia era o Nilson Costa, o Broncolino...

JC – Valeu a experiência? Rangel – A melhor experiência que tive, a melhor escola que tive, pois não tenho universidade, foi a Câmara Municipal. Ela é uma grande escola.

JC – Mas qual a grande lição da Câmara? Rangel – A de que você, às vezes, precisa se indispor até com seus companheiros para ser honesto, para ter uma conduta ilibada.

JC – Você sempre prezou a honestidade como a melhor e a maior qualidade de um homem? Rangel – Não sei se só a honestidade basta. A honestidade é uma das características fundamentais para um homem público, mas o trabalho voltado exclusivamente para a comunidade também predomina. Você não pode pensar em você. Você tem que pensar no povo. Não pense daquilo que está atrás de você, se vai ser beneficiado com isso ou com aquilo.

JC – Já que citou a responsabilidade com a comunidade, você como filho de Tibiriçá, hoje se sente um pouco pai de Tibiriçá? Rangel – Não, não. Eu me sinto um colaborador, sinto que prestei serviço à comunidade, o serviço de água, o posto de saúde e o Centro Rural foram conquistados junto à Câmara. O Centro Rural foi uma conquista junto ao governo federal, o seu‘ Faris Hauad, que era um homem desprendido, cedeu as terras e o governo aceitou. Dr. Nuno (de Assis), prefeito na época, assinou o convênio e construiu, numa parceria entre a Prefeitura, o Estado e o Incra. Somos o único Centro que prosperou, mas tivemos muita dificuldade, pois a liderança não é uma tarefa fácil.

JC – A identidade que o senhor tem com Tibiriçá não o tira daqui por nada? Rangel – Ahhh, não! Eu morei em Bauru um tempo, quando tinha a escola, pois trabalhava até tarde da noite. Eu prefiro morar aqui e fazer as coisas lá, do que vir para cá. A gente nasceu nesse meio e tudo aqui é agradável. É muito bom... Vou te contar uma coisa: este distrito é um pedacinho de Bauru, mas não tem os problemas que tem lá. Tibiriçá não tem favela, não tem pedinte e o último crime de morte aqui na vila foi em 1924 e todo mundo se conhece. Daqui só lá para cima, para o cemitério... (solta uma gargalhada com cara de quem não está nem aí para a morte)

JC – E isso, pelo visto, vai demorar a chegar. Rangel – Eu acho (afirma com convicção)

JC – Quando sobra um tempinho no meio de tantas atividades, o que você aproveita para fazer? Rangel – Eu gosto de conversar com os amigos. Às vezes, jogar um baralhinho de truco com o pessoal da comunidade lá na praça, sem dinheiro, jogo só de alegria. E gosto muito, muito de estar com meus parentes. Eu vivo muito bem com a minha família, além dos meus filhos, meus familiares todos. Nós nos damos muito bem. Isso é uma alegria muito grande, todo mundo me respeita muito e me trata muito bem. Modéstia à parte, sou muito querido.

JC – Você traz alguma recordação muito especial da sua infância? Rangel – A infância e a juventude para todos que moraram em Tibiriçá foram muito sadias. O que você fazia? Ia para a escola, voltava, ia brincar de futebol, jogar pião, soltar pipa, bolinha de vidro. Não tinha outras coisas não. Na juventude, eu me lembro das festas, do time de futebol que fui presidente... E jogava mais ou menos, não fui muito ruim não. A minha vida foi essa.

JC – Mas eu duvido que você ainda não tenha um sonho para realizar. Rangel – (risos) A gente não pode parar de sonhar para frente. Você não pode viver do passado. Você tem que viver do futuro. Eu sempre sonho uma coisa nova. Eu criava uma raça de carneiro, agora crio duas... Eu não paro nunca. Você não pode parar. Você tem que estar sempre fazendo coisas que tenham importância para você, podem até não ter importância para os outros. O segredo é estar sempre olhando o amanhã. O passado é saudade...

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