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Duas almas da sociedade civil


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Estamos presenciando uma explosão da sociedade civil, que em poucos anos se transformou de uma desarticulada galáxia de Organizações Não-Governamentais (Estado) em uma rede mundial que em boa medida participa do Fórum Social Mundial (FSM). O sistema político reagiu diante deste crescimento questionando sua legitimidade e seu poder de representação, classificando-o como um fenômeno radical e não construtivo e liquidando-o como “não-global”, ou seja, anti-histórico e romântico.

A análise deste processo é a chave para explicar a expansão do FSM. É preciso considerar que na sociedade civil convivem duas gerações. A primeira, nascida nos anos 70, identificou-se com o modelo do desenvolvimento, que era o ponto de consenso e de compromisso da comunidade internacional que haveria de elaborar em conjunto, entre Norte e Sul, para melhorar a condição dos mais pobres, dando-lhes instrumentos econômicos, sociais e culturais para a construção de um mundo mais justo e viável. Neste contexto nasceram as Estados que atuam em favor dos direitos humanos, do meio ambiente, da plena participação da mulher, da educação e da saúde e de outros temas globais nos quais as Nações Unidas encontram sua nova razão de ser.

É uma geração que considera que a marcha da globalização neoliberal é tão potente e avassaladora que não existe ação mais importante que não seja a de denunciá-la e detê-la. Pode-se colocar a grande mobilização de Seattle, no final de 1999, como sua certidão pública de nascimento. Esta segunda geração obtém sua legitimidade através da rejeição das instituições internacionais às quais, ao contrário da primeira geração, considera como atores do processo de globalização, e também rejeita com maior convicção ainda os partidos políticos e outras instituições políticas, porque os vêem como parte do problema e não como aliados para sua solução.

As relações entre as duas gerações não foram boas no início, quando as Estados eram consideradas burocráticas ou superadas pelos novos grupos, que, por sua vez, eram considerados extremamente radicais pelos primeiros. O FSM de Porto alegre, com sua primeira reunião em janeiro de 2001, permitiu que as duas gerações se encontrassem e se entendessem. O processo de integração ficou manifesto com o transcorrer dos Fóruns Mundiais, dedicadas cada vez mais à proposta de alternativas e não apenas à denúncia da globalização neoliberal. Também se produziu a incorporação de dois movimentos - indigenista e feminista - que tinham trajetória própria e que logo se converteram em um dos motores do FSM.

É assim que agora se pode falar da Sociedade Civil Global, na qual cada componente, grande ou pequeno, tem sua função e atividade. Este processo provavelmente continuará se fortalecendo, sobretudo pelo uso das novas tecnologias de comunicação, que ampliam os intercâmbios e o conhecimento recíproco. De fato, o FSM não teria sido possível sem a Internet. Os organizadores do FSM esperavam cerca de cinco mil pessoas em Porto Alegre em 2001, chegaram mais de 30 mil, e em 2003 foram aproximadamente 100 mil.

O autor, Roberto Sávio, é presidente emérito da IPS e membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial - FSM.

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