Ser

Versatilidade irada

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Eric Clapton, B.B. King, Santana, Steve Vai, Mark Knopfler, Jimi Page, George Benson, Willie Nelson. Se um dia fizermos uma seleção de reis da guitarra nacional, com certeza, Edgard Scandurra vai despontar entre os mais lembrados e cultuados.

Também pudera. O cara, que é instrumentista, compositor e cantor está na estrada há 22 anos só com o Ira!, sem contar os projetos paralelos que incluem a MPB e a música eletrônica, com quem vive um romance promissor com direito a disco lançado na última semana.

Antes de entrar no estúdio para o álbum de aniversário do Ira!, que vem com a produção do badalado Rick Bonadio, Scandurra afirma ter tido o privilégio de tocar com os Paralamas do Sucesso na turnê do projeto Pão Music, cujo último show do grande encontro foi realizado ontem, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Logo após a apresentação em Bauru do projeto, Scandurra conversou com a equipe do Ser e depois partiu para a balada com os fãs bauruenses.

Jornal da Cidade – Apesar de serem contemporâneos, o Paralamas e você possuem trabalhos muito diferentes. Como está sendo trabalhar com isso? Edgard Scandurra – São muito bons esses encontros, cara! Primeiro porque dá para matar a saudade dos caras da banda, dos Paralamas. Depois do acidente com o Herbert (Vianna), poder ver a banda de novo é muito bom. Eu estou podendo ver a banda e tocar com os caras. Então, é um lance muito legal para mim e eu estou muito feliz.

JC – Você tem uma versatilidade muito grande e está sempre tocando com todo mundo. Não tem aquela coisa de dizer: sou o Scandurra do Ira!, né? Scandurra – É uma coisa que eu gosto de fazer, ouvir e tocar música o tempo todo. O máximo que eu puder, melhor. Então, eu vou fazendo os meus projetos solo, ou com o Ira!, ou com os outros, e eu percebo que sempre vou evoluindo, por isso é uma coisa que eu sempre vou procurar fazer na vida.

JC – Quando você toca guitarra, parecem ser uma coisa só. É fato que Edgar e guitarra nunca se dissociam? Scandurra – Acho que sim, chega um momento que... não sei como vou explicar...

JC – Vira uma simbiose? Scandurra – É, uma coisa arroz com feijão, pão com manteiga. A guitarra acaba virando uma continuidade do meu por quê, da minha existência. É realmente, é a continuação do meu corpo, a guitarra, a música, enfim.

JC – E como você vê essas quatro guitarras diferentes, de bandas que são da mesma safra, mas estão juntas, talvez pela primeira vez, 20 anos depois. Dava para imaginar que isso iria acontecer um dia? Scandurra – Não dá para imaginar não. Mas é bom que isso aconteça, é legal ter essa história para contar. Às vezes, as pessoas ficam muito voltadas para as coisa novas, para as novidades, os novos nomes e tal, mas o pessoal da década de 80 ou até anterior à nossa, de 70, 60, como o Milton Nascimento e outros nomes da MPB são caras que têm muito gás ainda para dar. E a música é uma arte que tem a ver com o aprendizado, com as experiências de vida, de tudo. Então, a não ser que você se encoste na sua velhice e fique satisfeito com a sua aposentadoria, a tendência é sempre você aprender e ser melhor. Eu que conheço o Paralamas desde o começo, acho que o show de hoje, foi um dos melhores que a banda já fez na vida. Eu vi muitos shows dos caras em várias épocas e achei o de hoje espetacular. Quer dizer, isso foi uma prova de que a experiência faz muito bem.

JC – Já que citou a experiência, o Milton Nascimento e as coisas das antigas, você escuta esses caras apesar de já estar numa incursão muito grande pelo mundo eletrônico? Scandurra – (Com uma cara meio sem jeito) O que eu escutei dessa época já valeu, já está suficiente... (risos)

JC – E por falar na música eletrônica, como está o cenário brasileiro neste estilo? Scandurra – Eu acho que ela está em explosão. Nomes de Djs como Mark Marky, Patife, Mau Mau, Renato Cohen, Anderson Noise são nomes nacionais que estão lá fora. Desde João Gilberto não tinha uma música tocando tanto quanto uma música do Marky, em Londres. A música eletrônica está tomando uns passos muito grandes, até maiores que o rock no Brasil, que levou 20, 30 anos, para conseguir alguma coisa, a música eletrônica está levando muito menos que isso. Em menos de dez anos, já tem muita gente lá fora fazendo shows, tendo reconhecimento internacional e as festas cada vez maiores. Cada evento que tem de música eletrônica junta duas mil, cinco mil, dez mil pessoas, 30 mil e tal. Como toda moda tem seus problemas. Mas está em 70% do meu tempo musical.

JC – Então, o seu trabalho está 70% eletrônico? Scandurra – É, estou cyborg. Eu fiz um disco novo e estou lançando agora pela ST2, que é um selo novo de São Paulo, superbem intencionado e eu acho que vai dar umas coisas muito legais com eles. O disco chama-se “Dream Pop”, do meu projeto Benzina a.k.a Scandurra, que é o meu Live PA, que são as minhas apresentações ao vivo de música eletrônica, nas festas, nos clubes, nas raves. Eu toco com as minhas máquinas, meus groove Box e guitarra e daí saiu um disco que está com uma qualidade muito boa de som. Deste disco vão sair quatro remix de Djs como Renato Lopes, Mau Mau, Camilo Rocha, que são muito bons e muito importantes na cena da música eletrônica. E eu fico feliz de poder transitar no rock, às vezes, na MPB, em convites inusitados que vêm por aí.

JC – Aliás, qual foi o seu maior convite inusitado? Eu conversei com o Andreas (Kisser, guitarrista do Sepultura) e ele me contou que tocou com a Adryana e a Rapaziada, e você? Scandurra – O meu mais inusitado foi pelo Prêmio Multishow e foi com a Sandy... Toquei uma música do Rappa com Sandy!!!!

JC – E como foi????? Scandurra – Ahh! Foi... foi... Foi inusitado! (risos)

JC – Com o Ira! tem alguma coisa engatilhada? Scandurra – Com o Ira! a gente vai lançar, acho que em outubro, um disco. A gente vai começar a gravar agora. São músicas novas, inéditas, um trabalho bacana produzido pelo Rick Bonadio, que é um nome forte nos últimos anos dentro do rock’n’roll, desde Mamonas Assassinas, CPM22, Charlie Brown (Jr). Então, a gente vai trabalhar com ele e eu acho que isso vai dar um gás legal para o Ira!, que está fazendo 22 anos de estrada já. A gente tem uma história boa para contar e eu acho que, principalmente, com um produtor como ele pode ser uma coisa muito importante para a gente.

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