JC Criança

Aproveitar, conversar e aprender com eles

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

Depois que a gente cresce, percebe que não curtiu o quanto poderia os nossos avós. Aí, pela lei da natureza, acaba sendo tarde demais. As pessoas acham que não têm tempo para conversar com os mais velhos e se esquecem o que eles já viveram e o quanto têm para ensinar. É gostoso e muito importante perceber como as pessoas com mais experiência de vida podem ensinar e até aprender em um bate-papo gostoso.

É um brinquedo que se aprende a fazer apenas com caixas de fósforo vazias, ou uma forma mais fácil de entender a lição de casa, ensinada pelos mais experientes.

Hoje, os avós participam bastante da vida dos netos. Muitos são responsáveis por levar os netos na escola e cuidam da criançada até o final do dia, quando os pais chegam do trabalho. Uma tarefa nada fácil para quem já educou seus filhos e já trabalhou uma vida inteirinha.

Mas eles não reclamam. Fazem tudo com amor e procuram passar aos pequenos lições que facilitem suas vidas.

Nem sempre a meninada está preparada para ouvir o que uma pessoa idosa tem para dizer. Mas vale a pena ficar atento e escutar, aprender.

Coisa de gente mais experiente

Eu era muito criança quando perdi meus avós, por isso não pude aproveitar nadinha do que eles pudessem me ensinar. Mas como eu sou temporona, a caçula da família, aproveitei bastante meus pais. Com meu pai eu comecei a pescar e foi ele quem me disse certa vez: “Se você não tem nada de bom para falar de uma pessoa, não fale nada. É feio falar da vida de alguém”.

Já a minha mãe, um dia que fiz uma arte “daquelas”, frisou: “sempre que for fazer algo que prejudique outra pessoa, pense como você se sentiria se estivesse no lugar dela. Será que você iria gostar?”. Aí eu pensava... Mas nem sempre a gente consegue aprender tudo na “falação”. Os exemplos de vida são ainda mais importantes para se aprender a viver.

Observar como eles tratam outras pessoas, o que gostam de ver, de ler e de ouvir pode dar alguns sinais do que é importante para cada um. Se o seu avô é daqueles que passam horas cuidando das plantas, mesmo ele sendo bonzinho, com certeza ficará uma fera se você chutar a bola justamente na roseira que acabou de soltar um botão.

Os idosos sabem muito sobre a vida, sobre as pessoas e têm mais tempo e paciência para ensinar. É comum ouvir dos avós a frase: “eu brinco mais com os netos do que brinquei com meus filhos”. E isso é perfeitamente normal.

Os avós da Beatriz de Souza, 8 anos, dão exemplo de como isso ocorre. A vovó Anna de Assumpção Noronha Souza, 67 anos, fala com muita emoção das três netas que já tem. “As mais novinhas são gêmeas, têm 7 meses.” Ela conta que ser avó é mais gostoso. “Quando a gente é mãe, se preocupa muito com os filhos e não tem tempo para dar atenção.”

O vovô Nivaldo Batista de Souza, 69 anos, concorda. “Eu acho que a gente tem mais amor pelos netos. Quando a Beatriz chega em casa é uma alegria! Com os filhos não tinha tempo, agora ela, eu posso ensinar a nadar em Piratininga, levo para tomar sorverte, tenho todo tempo.”

Beatriz aproveita a casa dos avós para fazer lá o que não dá para fazer em casa. “Eu moro em apartamento e na cada dos meus avós tem o Tobi, um cachorro bravo com quem eu adoro brincar. Lá vejo mais TV, meu vô compra bala, chiclete e chocolates, que eu amo!”

Beatriz estava com dona Anna e seu Nivaldo participando do “Chá dos Avós”, no Colégio São Francisco de Assis, em Bauru. O evento ocorre há cinco anos como forma de valorizar os avós, que tanto influenciam na vida dos netos. “Percebemos que eles têm um papel muito importante na vida dos netos e queríamos homenageá-los. Todos os anos, eles participam de uma programação especial. A realização é em conjunto, tem um toque de cada um - professores, funcionários, alunos e pais. É o momento de valorizá-los pelo o que eles são!”, explica a irmã Márcia Cidreira, diretora do Colégio São Francisco.

Ela compara: “os avós são anjos da guarda em nossas vidas”. Por isso, a escola optou pelo projeto para valorizar a existência da pessoa idosa, que já tem uma história de vida para transmitir.

Coisas gostosas

Avó tem essa fama, de fazer “coisas gostosas”. Para Gustavo Reis Mantovani, 8 anos, a vovó Maria Guarnetti Reis, 64 anos, é especialista na cozinha. “Ela faz pão-de-queijo sempre que eu vou à casa dela. Às vezes eu até ajudo”, conta o garoto, que divide o colo dos avós com o irmão Guilherme, 6 anos.

Gustavo é daqueles netos que gostam de ajudar. “Ele me ajuda com a bacia na hora de lavar roupas. É um ótimo menino!”, comenta a vovó. Ela conta que a alegria de ser avó é ainda maior do que ser mãe. “Com os netos, a gente tem mais tempo, consegue dar a atenção que merecem.” O avô dos meninos, Adérito Alcino dos Reis também é muito ligado. “O meu vô sempre leva a gente para jogar bola”, conta Gustavo, justificando a ausência dele, que não pôde ir ao evento.

Dona Maria fala com orgulho do carinho dos netos. “Dia das Mães eu recebo presente, Dia das Avós eu recebo presente. Eles escrevem, são uns amores!” Ela só fica angustiada quando algum deles fica doente. Aí não há coração de avó que agüente, pois sofre junto com a mãe das crianças.

Orgulho de avó

Karen Letícia Caetano, 9 anos, aproveitou o Chá dos Avós no Colégio São Francisco para exibir suas duas avós: a paterna, Maria Inês Santos Caetano, 59 anos, e a materna, Maria Luiza Nonato, 51 anos. Com suas duas “Marias”, Karen aproveita para ganhar beijos e carinhos. “É a coisa mais gostosa do mundo e um pouco mais”, fala a vovó Maria Inês. “É ser mãe duas vezes”, diz a Maria Luiza.

Com orgulho da neta, a avó Maria Inês conta sobre uma visita ao colégio. “Uma vez, a Karen precisava levar alguém para dar uma entrevista na escola para contar coisas do passado. Eu compareci e fiquei rodeada de crianças me entrevistando, fiquei muito orgulhosa e feliz!”

E nas apresentações? “Ela faz balé e quando há uma apresentação, eu fico muito contente. Ela é a única menina, depois só tenho netos”, diz Maria Luiza. Ela também faz as vontades da neta, que se diverte com seus cosméticos. “A Karen pega todos os meus batons”, recorda Maria Luiza.

Elas são as escolhidas no momento de aflição. “Quando ‘brigo’ com a minha mãe corro e agarro nas minhas avós”, finaliza Karen.

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