Ele conheceu a cidade quando ainda era garoto, mas hoje Carlos Reichenbach tem 48 anos e mais de 30 dedicados ao cinema nacional. Ele adora retratar personagens femininos, porém, ultimamente (de uma década para cá), a pequena Dois Córregos, a 73km de Bauru, tem sido a fonte de inspiração do cineasta que nasceu em Porto Alegre (RS) e já recebeu aplausos demorados e prêmios pelo mundo.
É em Dois Córregos que vai rodar seu próximo projeto, depois que dois filmes essencialmente femininos e que já estão gravados forem às telas.
Carlão, como gosta de ser chamado, é uma figura simples, bem-humorada, de fácil acesso. O talento e a fama não atrapalham em nada a sua convivência com as pessoas humildes, tipicamente brasileiras.
Há duas semanas, ao chegar em Dois Córregos para uma participação especial no 2º Encontro Estadual de Escritores, qualquer um pôde perceber que o cineasta se sente em casa. Desceu do carro e foi cumprimentando as pessoas, parando para conversar com os comerciantes, fez parte da platéia como qualquer espectador. É claro que lhe pediram autógrafos e, para cada assinatura, tinha, como se diz no interior, um dedo de prosa.
Bom de papo, apesar das safenas recentes, Reichenbach conversou com o caderno Ser e topou ser dirigido para fazer as fotos. Confira as melhores tomadas.
Jornal da Cidade – Pelo tamanho de Dois Córregos, abraçar as causas culturais é um exemplo a ser seguido por muita gente... Carlos Reichenbach – Eu acho fundamental. Até estava comentando hoje com um rapaz que é difícil vir a Dois Córregos e não virar poeta, porque aqui tem uma atmosfera muito estimulante para a criação. Para a invenção e a criação. Isso pode se indicar até porque eu já fiz dois longas aqui e vou fazer outro brevemente. Então, esta cidade é um manancial de trabalho, um manancial de inspiração muito grande. Para mim, desde 1960, quando conheci Dois Córregos, aos 13 anos de idade.
JC – Você veio para cá para passear? Reichenbach – Eu estudava em Rio Claro e tinha um amigo que morava em Dois Córregos. A minha paixão começou pela estação que está aí... Mas, felizmente, o filme “Alma Corsária” preservou a imagem da estação como era na época. Isso tem que ser restituído! Isso aí é a reprodução da estação de Marselha. Historicamente, é um pecado deixar a estação assim.
JC – O que mais entristece é que são muitas estações no mesmo péssimo estado. Reichenbach – Eu estive há dois meses com o roteirista Daniel Chaiar, vendo três cidades próximas daqui. O nosso projeto abrange a possibilidade de filmar em Dois Córregos, em Bocaína, Torrinha e um pedaço em Brotas também. A gente esteve em busca de estações de trem e percebeu o quanto se perdeu da história do País. Na verdade, você não está destruindo um pedaço da cidade, está destruindo a história de São Paulo e é esse o grande erro, a grande tristeza. A gente esteve em Ventania e não tem mais estação. Estivemos numa estação também próxima de Brotas, que simplesmente foi invadida e dá medo chegar perto.
JC – A estação de Bauru que tem um prédio monumental, está lá, abandonada. Comentou-se de fazer dela a sede da reitoria da Unesp, mas até agora nada. A Maria Fumaça foi reformada por um projeto muito bacana que pretende fazer pequenos passeios e tiveram coragem de roubar o emblema da NOB (Noroeste do Brasil). Reichenbach – É por isso que é importante quando se fala da necessidade de se voltar a ler, fazer um trabalho maciço de cidadania em prol da leitura. Quando se abandona coisas como essas, está se abandonando a própria história. A grande verdade é essa. Quando você deixa uma coisa dessa acontecer, você assassina a história do Estado e isso é muito grave. Aí voltamos na importância de um evento de escritores. Pois esses caras têm a função de não ter medo. Eu escuto hoje que a comunicação é muito rápida, é urgente e necessária, mas o resto é elitismo. Mas eu acredito que não existe cultura em País algum se não existir uma elite cultural. Que se dane! Tem que existir a elite cultural sim. E acho que o fato de sediar um evento como esse, tão específico e, ao mesmo tempo, tão precioso como a literatura, para falar a verdade é um milagre. Milagre mesmo. Então, por que não transformar a cidade na capital nacional da poesia, da literatura?
JC – Elemento humano e inspiração não faltam, né? Reichenbach – Inspiração não falta mesmo.
JC – Como você já deu a deixa de que a cidade lhe inspira e o próximo filme vai ser por aqui, qual a temática da película? Reichenbach – Na verdade, é um projeto que já existia na época em que filmei “Dois Córregos”. Chama-se “O Amigo Católico”, que, na verdade, é um filme sobre essa grande contradição que é o Brasil. O Brasil é um País muito especial e o filme vai reportar exatamente isso. É a história de um cineasta judeu, amigo de um médico e escritor católico, envolvendo o personagem de um padre que se descobre médium. Então, é uma história nossa, porque o Brasil é isso! Eu acho que um estrangeiro que chega aqui não consegue entender e até se assusta quando vê isso tudo à sua frente. O filme se projeta na necessidade de enxergar quem é o homem brasileiro. Quem é esse homem? Na verdade, isso é um grande enigma, uma grande incógnita e, de uma certa forma, é preciso olhar esse homem brasileiro com muita generosidade. Esse é o projeto do novo filme.
JC – Mas, agora, o que o Carlão está fazendo? Reichenbach – Nesse momento, eu estou concluindo dois filmes que já estão gravados. Até o final do mês de outubro, já deve estar saindo a cópia de um que filmei no ano passado, um longa-metragem, chamado “Garotas do ABC”, que retrata o universo da mulher operária, o universo da operária têxtil. Ele foi todo filmado em São Bernardo. Acredito que, até o final do ano, ele deva estar sendo exibido ao presidente, pois ele pediu para ver assim que ficasse por abordar São Bernardo e ser um filme onde a mulher operária é a personagem principal. O outro eu fiz há dois meses, na cidade de Cidreira, no Rio Grande do Sul, onde foi filmado 20% de “Dois Córregos”. Só que agora eu fiz ao contrário, 90% do filme no Sul, em Cidreira. Um filme co-produzido e estrelado pela Betty Faria, que se chama “Bens Confiscados”. Ele deve entrar nos cinemas em fevereiro.
JC – Já que falou no Lula, com essa mudança de governo, como ficou o cinema brasileiro? Reichenbach – O cinema brasileiro sobrevive. Acho que um exemplo disso é um filme como “Alma Corsária”. A cultura brasileira nunca foi tão violentada como na época do seu (Fernando) Collor de Mello e, no entanto, foi nessa época em que a gente filmou “Alma Corsária”, que foi considerado um dos primeiros filmes da retomada e um dos melhores. E eu acho que não há dificuldade, quando você tem um desejo e um estímulo para que algo seja feito, aquilo acaba sendo realizado. Mas tem que ter desejo. Nada, nada impede o desejo. E o primeiro filme que fiz em Dois Córregos, o “Alma Corsária”, foi feito com muita dificuldade. Levou três anos para ser executado, entre o início e a realização. Ele foi filmado em Dois Córregos, no final de 91, início de 92 e só foi concluído em novembro de 1993. Nós estávamos enfrentando o período mais negro do cinema brasileiro, o do governo do presidente Fernando Collor de Mello, o despo(r)tista. Mas, se a gente conseguiu driblar aquele momento, não tem nada não. O desejo com um mínimo de estímulo é o melhor manancial de trabalho.
JC – E qual a maior emoção depois de um filme pronto? Reichenbach – Foi a exibição de “Dois Córregos” em vários países do mundo. Ele representou o Brasil, acredito que em 22 festivais internacionais, inclusive no Festival de Locarno, na Suíça, onde a primeira exibição do filme foi para 4.500 pessoas. Foi a exibição mais emocionante que já vi na minha vida. Imagine 4.500 pessoas que não falam português, que assistiram “Dois Córregos”, na Suíça e que aplaudiram por quase 15 minutos!
JC – O que você sentiu vendo aquilo? Reichenbach – É indiscritível, indiscritível. É uma emoção que não tem explicação. Eles recebem o autor, o diretor, como popstar... Me fizeram subir no palco. Eu estava de boné. A vontade que eu tinha era de jogar o boné. Foi muito emocionante. E depois vieram outras exibições tão emocionantes como essa. Uma delas foi aqui em Dois Córregos, que me lembrou “Cinema Paradiso”. Foi uma delícia. Mas a experiência mais indescritível da minha vida aconteceu com “Alma Corsária”, em outubro de 1993, quando tiramos o filme do laboratório e exibimos para 1.500 pessoas no Cine Brasília, durante o Festival de Brasília, e esta talvez tenha sido a experiência mais emocionante: foram 30 minutos de aplausos ininterruptos. As pessoas choravam no final e diziam: ‘o cinema brasileiro lavou a alma’. E ele foi a grande premiação daquele ano, um ano em que ninguém dava nada para a cena brasileira. O impacto de uma platéia pela primeira vez não dá para explicar.