Bom dia leitores desta prazerosa seção do Jornal da Cidade.
Todos nós sabemos que é conceito geral de que todo pescador é mentiroso. Eu porém, não penso assim, pois, se toda regra tem sua exceção, eu sou essa exceção. Eis que sou pescador e não sou mentiroso.
Em verdade o que ocorre é que as barrancas dos rios e também os próprios, têm realmente os seus mistérios e de fato ocorrem coisas ali que são inusitadas e por isso mesmo sucitam as desconfianças quando o pescador conta alguma.
Vou lhes contar aqui um desses fatos que ocorreu comigo, mas antes quero reafirmar que não sou mentiroso, a despeito de ser pescador.
Foi o seguinte: Vários amigos meus, pescadores, me diziam que no rio do Peixe, proximidades da cidade de Conchas havia um local na sua barranca que era mal assombrado, pois ali pescador nenhum, por mais corajoso que fosse, não ousava pescar. Meus amigos diziam que naquele local se ouvia nitidamente a voz do falecido cantor nordestino Luiz Gonzaga cantando trecho de uma de suas muitas músicas.
Ora! Como sou curioso para tudo que é inusitado e também “nunca vi tatu de dois rabos e que eu não arrancasse um”, resolvi convidar dois companheiros de coragem e rumamos para o local. Essas coisas a gente tem que constatar por nós mesmos e não nos contentar com narrativas alheias, não é verdade?
Dia bonito, com uma brisa suave, lugar aprazível, nos posicionamos mais ou menos perto um do outro e aguardamos os acontecimentos.
Guardando o maior silêncio para não interferir na manifestação do cantor, este não se fez esperar e foi então que ouvimos num som meio baixo, mas com grande nitidez, o que se segue; “Ole mulé rendera aredner élum elo”. Os colegas que estavam comigo tremeram na base, eu porém, agucei o ouvido na esperança de identificar o local exato de onde vinha aquilo. “Ole mulé rendera aredner élum elo”, e eu caminhando em direção à música até que cheguei à uma grande moite de “arranha-gato” pois era dali que vinha a cantoria. Com grande dificuldade entrei na moita, e aí, a surpresa! Um pedaço de disco quebrado e ali jogado era o autor daquilo. Eu explico: um galho do arranha-gato tinha um espinho na ponta e este encostava no pedaço de disco quando o vento o movimentava e na ida tirava o som de “Ole mulé rendera e na volta invertia a letra da música quando então saia o “arednerélum elo”.
Desvendado o mistério do rio do Peixe, voltamos para casa e só agora, passados quase 20 anos é que resolvi contar esse fato, não o fazendo antes por medo que as pessoas não acreditassem.
Eu disse no início da narrativa que não sou mentiroso, e não sou mesmo, pois esse sonho aconteceu mesmo comigo, juro.
Zelio Póvoa