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Circulando: Para matar a saudade

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Se você tem mais de 40 anos e é bauruense “da gema”, certamente se recorda de um “carrinho” com apenas três rodas que rodava para todo canto vendendo botijões de gás. Pois saiba que este veículo não sumiu do mapa. Ele, ainda, pode ser visto na cidade, mas desta vez parado na garagem do aposentado Luiz Antonio Tiengo.

Para quem não conhece, o veículo parece ser fruto de uma curiosa combinação de Romiseta com triciclo, por causa da frente com roda única e formato arredondado em conjunto com uma caçamba traseira apoiada nas duas rodas restantes. Mas, na verdade, trata-se de um autêntico modelo Lambretta Car Li 1963 importado da Itália, que atualmente poderia enquadrar-se no segmento dos motociclos.

À primeira vista, é fácil perceber que o veículo já não é mais “o mesmo”, principalmente devido à carroceria de cor amarela, que substituiu a original cinza. Entretanto, engana-se quem pensa que ele está “caidão”. Graças ao extremo zelo de Luiz, o motociclo parece novo, mas sem perder suas características “retrô”.

Externamente, lá estão as setas de direção dianteiras e os piscas sinalizadores e de freios traseiros, o farol redondo único na frente, as maçanetas cromadas nas portas, o espelho retrovisor do lado do motorista e, é claro, a “caçambinha”.

Mas é por dentro que o veículo surpreende. Logo “de cara”, o guidão de lambreta, desenvolvido para funcionar como “volante”, já chama a atenção. Também estão presentes no painel o velocímetro, que registra até 80 km/h, um amperímetro para marcar o nível da carga da bateria, limpador de pára-brisa manual, buzina e a tampa do tanque de combustível capaz de ser abastecido com 10 litros de gasolina.

Já o motor - de dois litros e acionado por pedal - fica escondido embaixo do único banco, que comporta até duas pessoas. Mecanicamente, o aposentado garante que a “lambretinha” está inteira. “Apesar de não sair muito, ela funciona bem”, afirma Luiz. “Também refiz toda parte de freios e rolamentos, que tiveram de vir de São Paulo pra cá porque não encontrava as peças aqui”, conta ele.

Mas um dos maiores desejos do aposentado é repintá-la na cor original de fábrica. “Quero utilizá-la mais no dia-a-dia, mas para isso quero torná-la cinza novamente. É uma forma de eternizá-la”, considera Luiz.

No entanto, ele sabe que ser dono de um veículo raro e igualmente incomum significa tornar-se o centro das atenções. Nas vezes em que rodou com a Lambretta Car Li, o aposentado já teve uma pequena idéia disso. “Todos ficam olhando e muitos perguntam, principalmente, de onde ela veio e qual o país de fabricação”, diz.

Saudosismo

Mas como e por que o motociclo foi parar nas mãos do aposentado bauruense? As respostas a estas perguntas têm um motivo em comum: saudosismo.

Em sua adolescência, época dos famosos encontros de lambreta na cidade, Luiz e uma turma de amigos eram “lambreteiros” de carteirinha. “Corri durante sete anos e tenho taças e medalhas até hoje. Depois que casei tive de parar, mas nunca deixei de gostar delas”, revela.

E a maior prova disso é que, há cerca de quatro anos, Luiz resolveu comprar a Lambretta Car Li. “Mesmo sendo um modelo diferente do que estava acostumado a guiar, é uma forma de relembrar o passado. Quando a vi aqui em Bauru, me simpatizei na hora com ela e não pensei duas vezes em comprá-la”, lembra o aposentado.

Mas, surpreendentemente, Luiz conta que toparia vendê-la. “Se comprar um carro para meu filho que estuda fora, precisarei desocupar espaço na garagem. Vai dar dó, mas acho que não teria outra solução”, confessa ele, em tom amargurado.

Só que como um homem prevenido vale por dois, o aposentado também é proprietário de uma Vespa 1961 que, a exemplo da “lambretinha”, ele jura estar inteira. “Essa cabe em qualquer cantinho”, conclui Luiz.

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Perfil

Nome: Luiz Antonio Tiengo Idade: 58 anos Profissão: Aposentado Hobby: Tomar cerveja Lugar bonito: Um rancho em Arealva Cor preferida: Branca Time do coração: Noroeste

Quem o senhor nunca levaria em sua “lambretinha”? “Nunca levaria o presidente Kennedy, pois ele já morreu. Vai que eu o levo e o matam novamente.”

E quem o senhor faria questão de levar? “Todos do Jornal da Cidade.”

O que mais lhe irrita no trânsito bauruense? “Ir ao Centro da cidade, pois tem um trânsito muito tumultuado e complicado. Além disso, é difícil para encontrar vagas para estacionar.”

Que nota o senhor daria aos motoristas bauruenses? “Os motoristas bauruenses são muito ruins. Há dois tipos: os que seguram o trânsito, que eu chamo de marcha lenta, e os outros que querem te ultrapassar de tudo quanto é jeito. Por isso, é difícil dar mais que cinco.”

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