Enquanto a Prefeitura Municipal de Bauru aguarda a resposta do Banco Mundial quanto ao empréstimo de U$ 30 milhões para o tratamento do esgoto de Bauru, a população convive diariamente com a poluição e o mau-cheiro do rio Bauru e seus afluentes.
No dia 5 de junho de 2004, vencerá o prazo dado pelo Ministério Público (MP) à administração municipal para iniciar o tratamento do esgoto, num termo de acordo e compromisso assinado há alguns anos. Seria necessária a instalação de uma rede para canalizar os detritos, com 53 quilômetros de interceptores ao lado dos córregos, além da construção de uma estação de tratamento.
O empréstimo do Banco Mundial para o financiamento do projeto de tratamento de todo o esgoto do município seria de US$ 30 milhões, cerca de R$ 90 milhões. Na última semana, o Conselho de Financiamento Externo (Confiex) da União concedeu parecer favorável ao empréstimo a Bauru. A verba seria dividida em quatro parcelas, sendo que a primeira seria liberada apenas em 2004.
De acordo com a assessoria de imprensa do Departamento de Água e Esgoto (DAE), com a disponibilidade da verba, uma empresa será contratada e o processo para a despoluição das águas será iniciado o mais rapidamente possível.
Poluição
As pessoas que vivem e trabalham nas margens do rio Bauru têm do que reclamar. Em dias de calor e sol forte, o mau-cheiro do esgoto e da poluição invade as casas e estabelecimentos comerciais sem que nada haja a fazer.
Pode-se pensar que estas pessoas, que convivem diretamente com a poluição das águas do rio que corta a cidade, já estão acostumadas com o mau-cheiro, da mesma maneira que os sentidos deixam de perceber um barulho repetitivo, depois de alguns minutos. Mas não é assim.
O mecânico André José Soares diz que o odor é mais forte nos dias de calor. “Esse cheiro ruim incomoda demais, atrapalha para trabalhar. Acho que se a prefeitura canalizasse o rio, ia melhorar esse problema”, sugere.
Há 32 anos, Eloir de Souza Rodrigues vive em uma casa na avenida Nuno de Assis. Ela conta que acompanhou a evolução da região. “Antes, só tinha uma ponte de eucalipto para atravessar o rio. A gente passava por cada enchente! Depois que fizeram a avenida, com asfalto, tudo certinho, melhorou bastante”, relata.
A dona de casa diz que a poluição e o mau-cheiro do rio, além de serem desagradáveis, também atraem insetos. “Além de todo o esgoto, muita gente joga lixo, bicho morto. Fica aquele cheiro ruim, a gente não consegue se acostumar. Se alguma coisa fosse feita para melhorar, tirar a poluição, ia ficar muito bom. Se ainda fosse limpo, o rio Bauru poderia ser o cartão postal da cidade”, sonha Eloir.
Os netos da dona de casa, João Paulo e Paulo David Rodrigues, dizem que até têm vontade de nadar no rio. “Quanto está muito calor, dá vontade de nadar, mas é muita sujeira, não pode, não”, diz João Paulo.
“Hoje (ontem) mesmo, a gente estava passando ali, atravessou a ponte (passagem de pedestres) e estava muito fedido. É por causa do sol forte, fica pior quando o dia está quente”, conta Paulo.
Trabalhando há oito anos numa loja de materiais de construção, Sueli Alves da Silva diz que não consegue se acostumar com o mau-cheiro. “Tem dia em que está insuportável. No inverno, com o tempo mais frio, a gente consegue agüentar, agora no verão, não dá. A gente fica até com enjôo”, afirma.
A ocupação do município, há mais de 100 anos, teve início nas margens e proximidades do rio Bauru. Atualmente, toda a cidade está dentro de sua bacia hidrográfica. Ele nasce no bairro Lago Sul, onde recebe o nome de Água da Ressaca. No encontro com o córrego Água da Forquilha, o curso recebe o nome de rio Bauru Tem como afluentes os córregos Água da Ressaca, Água da Forquilha, Água do Sobrado, córrego da Grama, Água do Castelo, córrego Barreirinho, córrego Vargem Limpa, ribeirão das Flores e ribeirão Vargem Limpa.
Segundo a Organização Não-Governamental (ONG) Instituto Ambiental Vidágua, todos estes afluentes já chegam ao seu destino final, o rio Bauru, completamente contaminados. O rio, depois de também cruzar o município de Pederneiras, deságua no rio Tietê.
De acordo com o Vidágua, cerca de 1.500 litros de esgoto sem tratamento são despejados por segundo diretamente nas águas do rio Bauru ou em seus afluentes. O diretor da ONG, o biólogo Ivan Ferrazoli Demarche, aponta que o rio Bauru é atualmente um rio de classe quatro, ou seja, com águas totalmente poluídas, de acordo com a classificação realizada pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). A classificação vai de nível um (água própria para consumo, mesmo sem tratamento) a quatro (totalmente poluída, imprópria para consumo mesmo se passar por tratamento).
“Também analisamos o oxigênio dissolvido na água, e obtivemos resultado abaixo de cinco, nos padrões de zero a dez. Nível abaixo de cinco indica que é impossível a presença de vida aquática. O pH (potencial hidrogeniônico) deu quase neutro, puxando para ácido. Significa que, além do esgoto doméstico, tem também esgoto industrial. Se houvesse só esgoto doméstico, o pH deveria ficar neutro”, explica Demarche.