Ser

Amor de primo

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 6 min

Quem nunca teve uma paixão platônica por um(a) primo(a) ou um professor(a), que atire a primeira pedra. Conversando com amigos sobre as suas aventuras amorosas da adolescência, é comum ouvir relatos de pessoas que, em algum momento, sentiram atração ou mesmo namoraram o filho da tia ou do tio.

Na novela “Mulheres Apaixonadas”, da Rede Globo, Luciana (Camila Pitanga) e Diogo (Rodrigo Santoro) vivem uma dessas paixões arrebatadoras. Logo no primeiro capítulo do folhetim, pouco antes de se casar com Marina (Paloma Duarte), Diogo agarrou Luciana e disse a frase: “Amor de primo é para sempre”. Confirmando essa premissa, o casal deverá terminar junto na novela de Manoel Carlos, cujo último capítulo vai ao ar sexta-feira.

Alguns relacionamentos, como esse, tornam-se sérios e deixam os limites da imaginação para se tornar um caso de amor resistente e cheio de paixão.

Foi o que aconteceu com a dona de casa Maria de Lourdes Ferreira da Silva. Quando tinha 13 anos, ela conheceu o primo Nelson Olímpio da Silva, que morava em Uberaba e tinha vindo passar uma temporada em Bauru. “Foi amor à primeira vista”, conta.

No começo, com medo de assumir essa paixão, os dois ficaram muito amigos. Ele passou seis meses na cidade e a ternura entre eles aumentou. Quando Nelson voltou para sua terra natal, as cartas eram a única maneira de matar a saudade. “Mas a gente se correspondia pouco, com medo que o meu pai percebesse que estávamos apaixonados”, destaca.

A repressão da família só serviu para estimular esse sentimento afetivo entre os dois. “Meu pai era muito bravo e falava que não admitia o meu namoro com o Nelson, pois a gente era primo e não podia ficar junto”, ressalta Maria de Lourdes.

Dois anos depois de ter ido para Uberaba, Nelson voltou para Bauru, dessa vez para ficar. Em alguns meses, ele e Maria de Lourdes se casaram. Na época, ela tinha pouco mais de 15 anos e, embora o pai fosse contra o envolvimento, acabou se casando com o primo. “Ele ficou contrariado, mas não tinha como proibir, pois estávamos muito decididos quanto a isso”, afirma.

Hoje, 36 anos depois, eles continuam juntos e felizes. Da união, nasceram quatro filhos e, posteriormente, quatro netos, todos saudáveis.

Afinidades

O relacionamento entre primos tem diversas facetas. Há culturas que proíbem, outras que incentivam. Para algumas famílias, é um absurdo, quase um incesto; para outras, normal, e até mais aceitável, já que se trata de pessoas conhecidas e da família.

O professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru, Sandro Caramaschi, diz que a probabilidade desse tipo de romance dar certo é igual a de qualquer outro, ou seja, tudo vai depender do casal.

Segundo ele, em muitos casos, na hora de assumir um relacionamento desse tipo, algumas pessoas ficam em dúvida pois, além de todos os prós e contras de uma relação, a família é parte fundamental dessa história. “Tem gente que deixa de namorar um primo ou uma prima temendo uma separação no futuro”, salienta o estudioso.

Isso porque um desentendimento entre o casal pode causar transtornos grandes entre os parentes. “Como são primos, apesar de estarem separados, vão ter de conviver com a pessoa por perto para o resto da vida, já que ela faz parte da família”, explica o professor.

Ele diz que o fato dessa relação gerar tanto interesse pode ter como base a afinidade que une ambas as partes. “A proximidade é suficiente para determinar o relacionamento, mas não chega a produzir problemas mais sérios”, destaca.

Tradição

Na família da dona de casa Helena (ela só quis dar um nome fictício), o casamento entre primos é uma tradição que vem desde os avós, que eram primos legítimos.

A tia dela, seguindo os passos dos pais, também se uniu a um primo e teve quatro filhos. Destes, dois deram continuidade ao costume - a Rita e o Silvio, casado com a irmã de Helena. “E quase que o terceiro filho dessa minha tia se casou comigo, que sou prima dele”, conta.

Ela diz que chegou a marcar a data do enlace matrimonial, mas que desistiu por questões familiares. “Não que os parentes tenham sido contra. Mas é que um dos imóveis do meu avô estava em jogo e nós brigamos por conta disso”, salienta.

Hoje, casada com um não-primo, e mãe de três filhas, Helena diz que não teria problema nenhum em ter vivido essa história de amor.

Ela explica que a família incentivava essa união, pois achava que era mais seguro para as “moças” namorarem com uma pessoa já conhecida.

O mesmo aconteceu com os primos Hélio de Araujo e Maria de Sousa. Eles estão casados há 37 anos e não precisaram brigar com a família para se casar. “Pelo contrário, meu pai até incentivou o namoro, porque conhecia muito bem o pretendente”, conta Maria.

Eles não chegaram a conviver muito na infância e têm poucas recordações um do outro. “A gente foi ter mais contato mesmo na adolescência”, diz Hélio.

Outras pessoas não têm a mesma sorte. A dona de casa P.S.L. (ela preferiu não se identificar), 24 anos, viveu uma intensa história com um primo, que lhe custou o casamento. “Eu me separei para morar com ele”, ressalta.

Ela diz que a família nunca aceitou o romance por causa do parentesco e que eles mantiveram o relacionamento às escuras durante muito tempo. “Desde a adolescência, nós éramos apaixonados. Namoramos escondido e acabamos terminando. Cada um seguiu a sua vida. Eu casei, tive uma filha e, um dia, meu primo reapareceu na minha vida. Não pensei, duas vezes: enfrentei a família, terminei meu casamento e fui morar com ele”, conta.

A união durou três meses e foi abalada devido a telefonemas insistentes de uma ex-noiva do rapaz.

Ela diz que ainda não esqueceu essa paixão e que, se tivesse uma outra oportunidade, retomaria o romance.

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A Igreja e a genética

O sentimento intenso entre primos pode encontrar barreiras não só dentro de casa. A Igreja e a genética ainda colocam alguns obstáculos para que essa união se concretize.

De acordo com o monsenhor Almir José Cogiola, pároco da Igreja Santa Rita, para casar-se, é necessário pedir autorização ao bispo. “Os primos que desejam se unir em matrimônio têm de apresentar uma justificativa ao padre na hora de fazer a documentação do casamento. O padre leva essa questão até o bispo, que pode vetar ou não o enlace”, explica.

Segundo ele, na maioria dos casos, a Igreja aprova o casamento entre primos, apesar de desaconselhá-lo. No entanto, antes de dar o veredicto, é solicitado ao casal um exame de sangue pré-nupcial, para assegurar a saúde dos futuros filhos.

Isso é necessário devido à consangüinidade. Acredita-se que os descendentes dessa união têm alta probabilidade de nascer com graves problemas genéticos. “Quando é detectado algum distúrbio genético na família, a concepção de um bebê entre primos é inviável”, explica o biólogo geneticista Esiquiel de Miranda.

Ele destaca que o risco de ter filhos com problemas de saúde é de 3% entre os casais desconhecidos e sobe para 12% entre primos.

Porém, novos estudos estão mudando esse panorama. No ano passado, foi divulgada uma tese do Conselho Nacional da Sociedade de Genética dos Estados Unidos mostrando que essa probabilidade havia caído para 4,7%. Miranda ainda desconhece esse estudo e acredita que é melhor avaliar com cuidado a questão.

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