Cenas como idosos participando de bailes, atividades esportivas, palestras e aulas em universidades ou trocando idéias animadamente no meio das ruas estão se tornando cada dia mais comuns em Bauru. Também, pudera: de 1980 para 2000, o número de pessoas com 65 anos ou mais por grupos de 100 jovens passou de 16 para 20.
O índice, chamado de coeficiente de senilidade, é superior ao verificado no Estado de São Paulo e no Brasil e indica que a cidade caminha rapidamente para o envelhecimento, a exemplo do que ocorreu há décadas no continente europeu, referência mundial em qualidade de vida.
A conclusão é da pesquisa “Dados Demográficos, Econômicos e Sociais de Bauruâ€, realizado pelo Data-ITE (ligado à Instituição Toledo de Ensino) com base nos censos feitos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“A base formada por crianças e jovens está encolhendo, enquanto a de idosos está sendo ampliadaâ€, aponta o economista Herman Vos, pesquisador do Data-ITE.
Além de mostrar o coeficiente de senilidade municipal, a pesquisa apontou os índices por bairros e regiões administrativas. Tal levantamento permitiu identificar que a maior parte das pessoas com mais de 65 anos se encontra na região central de Bauru, em torno das paróquias Santa Teresinha, Catedral e Aparecida.
Na região da Catedral, por exemplo, foi registrado o coeficiente de senilidade mais expressivo da cidade: 168 idosos por grupos de 100 jovens. Muitos deles, de acordo com a análise de dados de amostragem por domicílio do IBGE, vivem sozinhos. “Há prédios que são verdadeiras ‘Vilas Vicentinas’ verticais, tamanha a quantidade de idososâ€, compara Vos, em referência ao mais tradicional asilo local.
No quadrilátero correspondente à região da paróquia Santa Teresinha, entre as avenidas Duque de Caxias e Rodrigues Alves, o coeficiente de senilidade é parecido e chega a 153. Já na região do Santuário Nossa Senhora Aparecida cai para 95, passando para 68 no Jardim Estoril.
No Núcleo Beija-Flor foi registrado um dos menores índices da cidade: 19. Ele só não é inferior ao das favelas, onde há apenas cinco idosos para cada grupo de 100 jovens. “Nesses espaços, as crianças representam 16% da populaçãoâ€, contrapõe Vos.
Diferentemente desses aglomerados urbanos, onde a infra-estrutura é precária em razão da renda reduzida e da marginalização, os idosos moradores da região central e da Zona Sul têm qualidade de vida.
“Em termos de serviços para idosos, Bauru é bastante privilegiadaâ€, garante a psicóloga Gislaine Aude Fantini, coordenadora da Universidade Aberta da Terceira Idade, ligada à Universidade do Sagrado Coração (USC).
Fundada a dez anos, a Universidade Aberta da Terceira Idade é uma das várias atividades oferecidas em Bauru aos idosos e que compõem o contexto favorável para o envelhecimento saudável e despido de preconceitos.
“Há dez anos, a terceira idade era tratada de forma irônica. Hoje, as pessoas estão aceitando melhor o envelhecimento, houve avanços tecnológicos e a comunidade acadêmica está mais voltada ao temaâ€, sustenta Fantini.
O geriatra Luciano Camargo compartilha desta opinião. Para ele, o acesso maior à informação e o desenvolvimento dos tratamentos de saúde permitiram às pessoas se dar o direito de envelhecer com qualidade, adotando exercícios físicos e mudanças de hábitos.
“O estigma do idoso em cadeira de balanço fazendo tricô foi por água abaixo. Hoje, as pessoas têm condições de manter vida ativa, intelectualmente e socialmente, e a infra-estrutura médica e sociocultural encontrada em Bauru contribui para issoâ€, aponta Camargo.
Múltiplas atividades
Prestes a completar 65 anos, a dona de casa Catarina Malandrino pretende manter-se ativa na terceira idade. “A gente deve se esforçar para ter tempo para fazer tudo. Respeito os meus limites, mas faço tudo que está ao meu alcanceâ€, afirma.
Para ela, as atividades múltiplas ajudam a manter a saúde em dia, garantem pique para cuidar dos netos e a afastam da saudade pela morte do marido, ocorrida há dois anos.
Por tudo isso e também pela fé é que Catarina participa ativamente das atividades do Santuário Nossa Senhora Aparecida. Já na Universidade Aberta à Terceira Idade, ligada à USC, foi em apoio a uma cunhada que estava em depressão. “Fui para fazer companhia e acabei pegando gosto. É muito bomâ€, recomenda a dona de casa, que neste semestre planeja se inscrever nas aulas de coral.
A agenda de Catarina inclui ainda as atenções à pizzaria da família e os cuidados com os filhos. “Procuro fazer tudo que posso e da melhor maneira possível, assim, consigo ter piqueâ€, ensina.