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Mulher é principal vítima do álcool

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 8 min

O álcool é muito mais destrutivo para a vida da mulher do que do homem. Além de provocar um efeito rápido e intenso no organismo feminino, que absorve instantaneamente a substância, ele tem um forte poder de destruição na vida das mulheres.

A constatação não é de um médico ou psicólogo, mas sim de profissionais que trabalham na busca para reabilitar as pessoas atingidas pelo vício do álcool, bem como das próprias usuárias. “Quando o alcoolismo entra em um lar através da mulher, a família não demora muito para ficar completamente desestruturada”, diz Elenice (nome fictício), ex-dependente, que viveu na pele essa situação.

A enfermeira Luciana de Oliveira Martins, que trabalha no Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Droga (Caps-AD), órgão ligado à Secretaria Municipal de Saúde, explica que o poder de fogo dessa substância no organismo feminino é muito mais devastador do que para os homens. “Por isso que as pessoas costumam dizer que a mulher fica embriagada mais rapidamente. O metabolismo da substância no corpo dela é mais ágil”, salienta.

O médico Luiz Alberto Chaves de Oliveira, especializado em dependência química, descreve no artigo “Aspectos do alcoolismo feminino”, publicado na revista Vivência (produzida pela Junta de Serviços Gerais dos Alcoólicos Anônimos do Brasil), que as conseqüências do álcool no organismo da mulher são mais precoces do que no homem. “Também é maior o índice de mortalidade. Elas são mais estigmatizadas e apresentam maior número de tentativas de suicídio”, destaca.

Além de todos os problemas de saúde, o alcoolismo tem o poder de desestruturar completamente o lar. Quando atinge uma mãe de família, essa doença acaba desnorteando a vida de esposos, filhos e netos. “A mulher é o esteio da casa e, quando ela vira alcoólatra, desestabiliza toda a família, pois o marido e os filhos não sabem como agir para segurar essa barra”, destaca Eunice (nome fictício), 64 anos, que há 15 anos conseguiu se livrar do problema com a ajuda dos Alcoólicos Anônimos (AA).

Ela sabe bem o que está falando, por ter vivido na pele esse mal. Em um ano, a dona de casa passou de um gole de cerveja a uma garrafa de vodca por dia. “Minha casa ficou vazia, sombria, triste. Eu abandonei tudo e não me importava com mais nada na vida”, conta.

Nos últimos anos, é crescente o número de mulheres que têm procurado ajuda nas entidades que prestam assistência aos dependentes desse tipo de substância. Em Bauru, não há números a respeito deste assunto, mas as pessoas ligadas às entidades que combatem esse mal afirmam que a presença feminina é cada vez mais notada na busca pelo tratamento. “Não temos dados comparativos, mas antigamente era bem menor o número de mulheres entre os pacientes do Caps-AD”, destaca Luciana.

Cada vez mais cedo

A enfermeira do Caps-AD, Luciana de Oliveira Martins, diz que a inserção da mulher no mundo do alcoolismo está se dando cada vez mais cedo. “A bebida é associada à alegria, à descontração e é uma forma que as jovens encontram de se sentir aceitas no seu grupo”, salienta.

A artista plástica Maria (nome fictício), 41 anos, que está há sete meses em tratamento no Caps-AD contra o vício, diz que fica assustada ao passar por lanchonetes e barzinhos próximos a escolas e faculdades. “Nas mesas lotadas de jovens, a gente vê que a cerveja é convidada especial do bate-papo da moçada”, destaca.

Luciana explica que nem todas as pessoas que bebem se tornam alcoólatras, mas quando ingerir essa substância se torna um hábito diário, o processo de dependência do organismo pode se acentuar. “Com o tempo, o organismo vai sentindo falta da bebida. É quando já está instalada a dependência”, ressalta a enfermeira.

Maria, que está em franco processo de recuperação, já se sente segura para palestrar sobre o assunto. Ao falar do alcoolismo em escolas e universidades, costuma ressaltar que o melhor a fazer é não tomar o primeiro gole. “Não há como saber se você tem pré-disposição para se tornar um alcoolista. Então, é melhor não arriscar”, enfatiza.

O que leva as mulheres à dependência da bebida?

De acordo com o médico Luiz Alberto Chaves de Oliveira, especializado em dependência química, o alcoolismo é uma doença essencialmente masculina. Em seu artigo “Aspectos do alcoolismo feminino”, publicado na revista Vivência (produzida pela Junta de Serviços Gerais dos Alcoólicos Anônimos do Brasil), ele destaca que a relação é de uma dependente para cada grupo de cinco a dez homens.

O problema é que, antes, apenas os homens eram estimulados a beber. Hoje em dia, com a emancipação das mulheres, os hábitos que eram voltados para a ala masculina começaram a ganhar força entre as representantes do sexo feminino. “O estilo de vida atual facilita o acesso às bebidas alcoólicas e, conseqüentemente, ao vício”, destaca Luciana de Oliveira Martins, enfermeira do Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas (Caps-AD).

Se há alguns anos a mulher sentia vergonha de beber cerveja ou outros tipos de bebida na mesa de um bar, hoje é comum observá-las fazendo um “happyhour” com os amigos.

Outro fator que incentiva a dependência alcoólica é a depressão. Luciana conta que no Caps-AD há vários exemplos de mulheres que começaram a beber levadas por distúrbios psicológicos provocados por conflitos familiares ou conjugais. “É o que chamamos de co-morbidade”, salienta.

Depoimentos*

“Faz 15 anos que eu freqüento o Alcoólicos Anônimos (AA). Nosso tratamento não tem fim. Eu sempre fui uma pessoa normal: infância e juventude felizes, família excelente, casei com quem quis, com quem amei. Tive dois filhos maravilhosos. Eu tinha uma vida tranqüila e feliz até a adolescência dos meus filhos.

Quando comecei a sentir que eles tinham crescido e que não precisavam mais de mim, eu senti um vazio enorme. Até então eu nunca tinha bebido. Foi numa festa na minha casa que experimentei cerveja. Me senti alegre e feliz na hora. Passou-se um tempo e eu não voltei a beber. Em outra festa, fui buscar aquela sensação gostosa. Dessa vez, bebi dois copos. Quando eu vi, já estava bebendo cerveja em demasia. Nunca apreciei o gosto dessa bebida, só queria sentir aquela sensação de torpor novamente. Com o passar do tempo, para ficar alcoolizada, precisava tomar muitas garrafas.

Daí, decidi tomar as bebidas destiladas que me embriagavam em menos quantidade. Meu marido e meus filhos passaram a me alertar sobre o perigo de beber e eu dizia que podia largar a hora que quisesse. Quando eu tentei deixar, não consegui. A frustração de não conseguir abandonar o vício me empurrava mais ainda para a dependência. Eu prometia para tudo quanto é santo e para os meus filhos que ia parar com aquilo. Prometia com intenção de cumprir, mas não conseguia.

Nunca saí para beber em bar. Era só dentro de casa. Eu não via a hora do meu marido sair para eu poder tomar o meu primeiro gole. Minha casa foi ficando triste, vazia, sombria. Meus dois filhos não tinham mais alegria de viver. Eu nunca fiquei bêbada de cair, mas também não ficava sóbria. Eu já não sentava à mesa para me alimentar, me isolei.

Quando vi que estava muito doente, falei para o meu marido: ‘vamos procurar o AA’. Quando cheguei aqui, vi essa alegria, essa esperança. Vi que tudo isso estava nas minhas mãos. Eu ficava imaginando como ia conseguir parar de beber até o final do ano e meus companheiros falavam: ‘não, é só por hoje’. Aqui foi minha tábua de salvação. Aconteceu um milagre comigo. Os três primeiros meses foram difíceis, mas eu consegui superar.

O AA é um programa simples para gente complicada. Principalmente a mulher, que traz um estigma junto dela. A mulher chega aqui muito carente. O programa do AA dá 50% para você se recuperar. Os outros 50% são com você.

A mãe é o esteio do lar. É ela que transmite essa vibração para a casa e, quando ela está abalada, desestrutura tudo. Parece que o homem alcoólatra não traz tanta dor para a família como a mulher. Eu acho que ela é o eixo da casa. Quando ela bebe, desequilibra tudo. Quando o marido bebe, a mulher segura bem, ela cobre os filhos de amor e carinho. Eu nasci alcoólatra, por isso, tenho que ficar sempre alerta. O menor vacilo e eu volto na estaca zero.”

Eunice, 64 anos

“Eu já estou aqui há seis anos. Vim para o AA com meu ex-esposo. Eu achava que ele era o alcoólatra e não eu. Chegamos numa situação de total falta de respeito um com o outro. Depois de freqüentar as reuniões por 15 dias, comecei a entender que eu também tinha o problema. Mas era difícil de aceitar essa situação. Tive várias recaídas. Até que, em setembro de 2000, eu voltei e vi que tinha de continuar. Minha vida foi ficando cada vez pior, regredindo, se perdendo...

Faz três anos que eu estou sem beber, mas ainda falta muito para a sobriedade. Devagar, estou mudando a minha vida. Ainda sinto vontade de beber, às vezes. Só que não tenho mais compulsão, não me domina. Eu comecei a beber bem nova, com uns 16 anos. Bebi muito até os 18 anos, dei uma parada, voltei a beber novamente.

Eu cheguei ao ponto de querer matar meus três filhos. Estava separada do meu marido, sem emprego, sem ter o que dar para eles comerem. Bebida eu achava um jeito de comprar. Eu obrigava meus filhos a irem no bar comprar pinga para eu tomar em casa com Coca-Cola. Minha filha não gostava de ficar comigo, porque não suportava me ver bebendo.

Eu tomava a qualquer hora do dia, principalmente quando estava desempregada. Era de segunda a segunda. Eu tomava um litro de uísque sozinha.

Eu cheguei ao AA sem banho, sem comer, descabelada, já não tinha mais vontade de nada.

O meu problema acabou se refletindo nos filhos. Minha menina bebeu por um tempo, depois parou sozinha, sem ajuda do AA. Meu filho usava drogas, era um inferno a minha casa.”

Fernanda

* Os nomes são fictícios

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