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Cura depende de aceitação da doença

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

O alcoolismo é uma doença que, para ser curada, precisa, em primeiro lugar, ser tratada como tal. Muitas pessoas que bebem não admitem que fazem isso porque têm necessidade de absorver as substâncias químicas. “Eles costumam acreditar que podem parar a qualquer momento. Mas não ficam um só dia sem colocar uma gota de álcool na boca”, explica a enfermeira Luciana de Oliveira Martins, do Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Droga (Caps-AD), órgão ligado à Prefeitura Municipal de Bauru que presta socorro aos dependentes químicos.

O sistema de tratamento adotado pelo Caps-AD não prioriza a internação. “Nós visamos a reinserção social do alcoolista e, para isso, acreditamos que ele deve ficar próximo à família e ao seu meio social”, explica a enfermeira.

Ela conta que, geralmente, quando uma pessoa busca ajuda é porque já está no “fundo do poço”, ou seja, no estágio mais avançado do mal. “Grande parte dos pacientes que nos procuram vem de maneira espontânea, porque aceitam que não conseguem lidar com o mal sozinhos”, salienta.

Foi o caso da artista plástica Maria (nome fictício), que decidiu procurar ajuda há sete meses no Caps-AD, quando se deu conta do seu grau de dependência. “Eu pensava que só bebia socialmente. Mas em um determinado momento, notei que estava tomando conhaque às 8h30 da manhã, todos os dias”, conta.

Luciana explica que, dependendo do estágio em que o paciente chega ao Caps-AD, ele passar por um tratamento de desintoxicação, feito com medicamentos prescritos por psiquiatras.

Simultaneamente, a pessoa começa a participar de grupos de apoio. A freqüência varia conforme o avanço do tratamento. “O primeiro passo é o intensivo, quando a pessoa vem todos os dias ao Caps-AD participar de reuniões”, salienta Luciana.

Com o passar do tempo, o paciente vai adquirindo a chamada sobriedade e, assim, é promovido ao semi-intensivo, com visitas semanais. Essa fase dura aproximadamente três meses. Se o paciente não tiver recaídas, passa para a fase não-intensiva, quando só precisa visitar a entidade uma vez por mês, para participar do grupo de apoio. “Nós damos alta ao paciente quando ele permanece nove meses sem beber absolutamente nada”, explica Luciana.

Apesar de um não ter ligação com o outro na essência do trabalho, o Caps-AD e o grupo Alcoólicos Anônimos (AA) têm um relacionamento de cooperação. “Há vários pacientes que freqüentam as duas entidades”, relata Alceu (nome fictício), um dos coordenadores do AA, que está há 21 anos sem beber.

Respeito e companheirismo

O sistema de cura proposto pelo AA é baseado na troca de experiência. Não há livro de registros de participantes, ninguém é obrigado a comparecer às reuniões e as únicas regras são quanto ao respeito e o apoio a quem precisa. “Nós não damos conselhos nem julgamos os companheiros. Apenas ouvimos o seu desabafo e alimentamos a força e a esperança para a resolução dos problemas”, explica Alceu.

Os encontros acontecem todas as noites, de segunda a sexta-feira, a partir das 20h. Em uma sala que imita um pequeno auditório, os “companheiros” (maneira como as pessoas se tratam nessa irmandade) vão se revezando nos depoimentos. O silêncio impera no ambiente e todos demonstram muita atenção a quem está palestrando. O semblante dos participantes varia conforme caminha a sua luta contra a doença. Há rostos tristes e cansados e há aqueles que exibem a face vitoriosa de quem superou a dependência e mudou a vida ao largar a bebida.

Nesse recinto, classe social, sexo, idade e cor são meros acessórios. “A bebida não escolhe suas vítimas. Qualquer pessoa pode sofrer desse mal, apesar do estigma de que alcoólatra é somente o andarilho que vive caído pelas ruas”, ressalta Alceu.

Eunice (nome fictício), que freqüenta a irmandade há 15 anos, explica que é preciso manter-se alerta para não recair no vício. “A gente ganha forças, se recupera, mas precisa dar continuidade a esse propósito de não beber. A força de vontade deve estar sempre presente, mesmo quando a pessoa se sentir curada”, salienta.

O lema do AA é “Somente por hoje”. O novo membro do grupo é incentivado pelos mais experientes a não tomar o primeiro gole nas próximas 24 horas. “A gente não tem que se preocupar com o amanhã. O problema é o hoje”, destaca Alceu.

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