Foi dado anteontem o passo inicial para o processo de tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac) do sobrado situado no meio da quadra 11 da Rua Bandeirantes, no centro da cidade. Na casa, morou com sua família o dramaturgo e diretor Mauro Rasi, que morreu no dia 22 de abril deste ano, no Rio de Janeiro.
Os proprietários do prédio, Dinéia e Ubirajara Baptista, irmã e cunhado de Mauro, respectivamente, foram notificados da intenção do conselho de tombar o local e a partir de agora, segundo o membro do Codepac e diretor da divisão de museus da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) Roberto Chinalhia, não podem fazer nenhuma alteração estrutural na casa sem o conhecimento da entidade.
O objetivo é evitar que o espaço - considerado de suma importância para a cultura da cidade e do País pelo Codepac - perca suas características originais. A medida não foi recebida com muito entusiasmo pela família. “Não entendemos a notificação e vamos procurar saber do que se trata”, declarou ontem o empresário Ubirajara Baptista, que preferiu não opinar sobre os argumentos do conselho nem revelou se a família vai tentar algum recurso contra a ação.
A notificação é o primeiro estágio de um processo que pode culminar com tombamento do imóvel dentro de alguns meses. A idéia de se preservar o lugar onde viveu o maior dramaturgo bauruense foi discutida na última reunião do Codepac, no início deste mês.
A proposta, lançada pelas jornalistas Luly Zonta e Erika Dios, foi aceita por unanimidade pelos doze membros do conselho, que reúne, entre outros, o secretário de Cultura, Sérgio Losnak; o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina; e a secretária do Planejamento, Maria Helena Carvalho Rigitano. “A casa sintetiza toda a obra do Mauro. O tombamento é uma maneira de perpetuar tudo o que ele fez, principalmente porque a família fez questão de manter as dele coisas intocadas”, diz Luly Zonta.
O conselho tem a mesma opinião. “A casa é mais do que o lugar onde ele morou, é parte da obra do Mauro. Embora ela não tenha um valor arquitetônico, ela tem valor cultural, faz parte da literatura do Mauro, é uma personagem da obra dele”, avalia o presidente do Codepac, professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Nilson Ghirardello.
O próximo estágio do processo, segundo Ghirardello, é a obtenção pelo conselho de um parecer de três pessoas sobre a importância do imóvel que - dentro de no máximo 60 dias - será analisado. Caso o Codepac opte pelo tombamento definitivo, os proprietários serão avisados e o processo será enviado para a Prefeitura Municipal (através da Secretaria de Planejamento), que poderá então emitir o decreto de tombamento.
As três pessoas convidadas para fornecer o parecer ao conselho são o arquiteto Jurandyr Bueno Filho, o ator Sérgio Mamberti e a atriz Vera Holtz - todos amigos de Mauro Rasi. De acordo com Chinalhia, na próxima semana o conselho já deve começar a receber as opiniões do trio.
Orgulho
Segundo Nilson Ghirardello nessa fase do processo ainda não é possível saber o que vai ser feito do imóvel caso o tombamento efetivamente ocorra. Chinalhia lembra que os proprietários da casa têm que participar de todas as decisões sobre o espaço, mesmo que ele esteja tombado. “O ideal é que seja um espaço dedicado ao teatro”, diz.
Ghiradello concorda: “Com um espaço assim, as pessoas poderão compreender a obra dele através da casa”, afirma.
Para o presidente do Codepac a intenção de tombar a casa de Mauro Rasi deve ser encarada como um motivo de orgulho por todos. “Ele tem um nome na história do teatro brasileiro. O tombamento significa que o município considera essa pessoa e esse local importantes para a sua história”, diz o professor.