Ser

Em busca da expressão

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 3 min

Imagine não poder conversar, muito menos expressar suas necessidade básicas como uma vontade de fazer xixi ou dizer para sua mãe que não gosta de comer jiló.

Algumas pessoas, infelizmente, não possuem este dom. Não falam, sofrem de distúrbios auditivos ou possuem deficiências múltiplas.

Mas um método de comunicação alternativa desenvolvido pela fonoaudióloga Grace Cristina Ferreira, que há cinco anos atua na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru, está minimizando a barreira da comunicação em 25 crianças e adultos de 8 a 24 anos atendidos pela entidade.

Com base no processo de identificação de figuras pictográficas The Pictur Communication Symbols (PCS), instrumento de comunicação alternativa norte-americano largamente utilizado com pessoas com deficiência na comunicação oral, Grace desenvolveu o projeto de Leitura e Associação de Rótulos, Imagens e Embalagens (Larie).

Ela explica que no PCS algumas figuras são fáceis de identificar: uma bola é uma bola mesmo. Mas algumas são complexas pensando na população de deficientes intelectuais, que nem sempre conseguiam utilizar aquelas figuras para se comunicar.

“Então, começamos a pensar que quanto mais próximas da realidade dele fossem as figuras, mais fácil seria para ele. Eles utilizavam figuras de cultura muito distante da nossa. Foi então que surgiu a idéia de usar rótulos e embalagens, numa equivalência até com o método do Paulo Freire”, conta Grace.

As professoras solicitaram às famílias que enviassem embalagens vazias e já lavadas dos produtos que utilizavam em casa, fossem de alimentos, ou itens de higiene pessoal e limpeza, que fizessem parte da rotina dos alunos.

Com o envio dos materiais, elas começaram a desenvolver a exploração tátil, concreta dessas embalagens. A fonoaudióloga explica que muitos alunos não tinham a capacidade de sequer manipular um objeto tal o nível de deficiência em determinados casos.

“Eles não conseguiam ter a funcionalidade de pegar um sabonete, explorar um sabonete, cheirar, saber a função e é essa a exploração que conduz ao aprendizado. Que é o que a criança pequenininha faz normalmente e, até por limitações físicas e intelectuais, ela tem a dificuldade de compreender o significado do mundo”, justifica a fono.

Mãos e fichas

Depois de muita exploração tátil, os alunos passaram a ter o contato com os mesmos produtos, mas em fichas com suas imagens fotográficas, que são muito mais próximas à realidade.

As fichas quadradas, plastificadas e com velcro assumem diversas aplicações no processo de aprendizagem.

“Ela se torna um meio de comunicação mesmo. Pois no momento em que uma pessoa mostra com a ficha o que ela quer, ela consegue se expressar. Ela pode não dizer salgadinho, mas com a ficha ela vai apontar ou mostrar o que realmente quer. O que antes ela não conseguia fazer.”

No caso das crianças que já possuem um sistema cognitivo ou se comunicam de forma um pouco melhor, as fichas são utilizadas de maneira auxiliar no desenvolvimento da linguagem, ampliando vocabulário, aprimorando o sistema de categorização onde o aluno aprende, por exemplo, o que se conserva na geladeira, o que é quente, o que é alimento ou o que serve para deixá-lo melhor. “Isso vai ampliando a visão de mundo do aluno.”

Dessa forma, é comovente ver crianças e adultos podendo pedir uma bolacha ou um copo de suco. Aprender a tocar o amigo explicando como se lava os cabelos apenas com a visão de uma ficha com um frasco de xampu.

Ou ainda saber que alguns deles já vão ao supermercado e ajudam na organização da casa.

Isso cumpre também o papel de reinclusão social, o principal desafio das entidades de reabilitação e apoio a deficientes.

Os alunos conseguem ao mesmo interagir no mundo deles, explicam as professoras. A atitude em sala de aula muda e na vida também.

Grace conta que alguns pais já relataram que percebem que os filhos mudaram sensivelmente o comportamento depois que se sentiram úteis em uma situação de compra. Alguns até com o simples citar do nome do produto.

“E nós estamos falando de pessoas com deficiências severas, profundas e múltiplas, na maioria das vezes.”

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