Ser

O céu não é o limite

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 9 min

Ele era um garoto que sonhava em ser piloto, mas seu sonhos foram subindo, subindo e hoje, o bauruense Marcos César Pontes, 41 anos, é major da Força Áérea Brasileira e representante do País no Programa Espacial da Nasa.

Sua ida ao espaço está marcada para 2006, e, até lá, Pontes treina o corpo para enfrentar a microgravidade e a mente para controlar a ansiedade do momento de entrar em órbita.

As malas já estão prontas. Quer dizer, arrumadas na mente do astronauta que quer levar um pouquinho de muitos brasileiros e principalmente de Santos Dumont, que deu asas a todo esse processo.

Há alguns dias, major Pontes esteve em Bauru e Lençóis Paulista, a convite do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) contando um pouco da sua trajetória, também marcada por cursos profissionalizantes na unidade bauruense “João Martins Coube”. Aliás, o astronauta fez questão de contar em público que usa na Nasa lições aprendidas na rua Virgílio Malta.

Antes de entrar para a palestra, Pontes conversou com o caderno Ser e contou como vive numa ponte aérea entre o Texas e a Flórida, o Brasil e os EUA e mais 15 países que formam o programa espacial.

Jornal da Cidade – Seu sonho, desde menino, era estar onde você está hoje? Ou você sonhava outras coisas que não envolviam o espaço, a aviação? Marcos César Pontes – Olha, eu até vou falar sobre isso na palestra, os sonhos vão trazendo outros no caminho. Mas eu tinha um sonho desde criança, com certeza, em ser piloto, estar na Força Aérea. Eu ia muito de bicicleta ao aeroporto para ver vôos, decolagens, ver a Esquadrilha da Fumaça pousando, aliás fazer poeira ao invés de fumaça quando chegava ao estacionamento. Eu ia muita a Pirassununga. Tinha um tio que era sargento lá e eu ia queria ver os aviões. Depois, foi desenvolvendo... Entrei na Academia da Força Aérea, fui ser piloto onde praticamente cresci e isso tem uma idéia de propagação. Você está sempre sonhando mais alto e mais rápido. Então, a idéia de ser astronauta foi aparecendo e graças a Deus eu tive uma oportunidade, com a seleção da Agência Espacial Brasileira, em 1998. Aí eu falei: é nessa que eu embarco.

JC – E como você lida com essa ansiedade em estar aguardando a sua vez na missão espacial? Por que você está na porta, né? Marcos Pontes – É... eu estou aqui, estou pronto, só esperando mesmo que a gente tenha essa decisão por parte do governo de dar continuidade completa do programa. Aproveitar tudo de bom que esse programa tem a oferecer ao País, o que é bastante interessante. Mas eu acho que venho distribuindo essa ansiedade. Não é só o vôo. Eu tenho essa vontade de aproveitar todos os frutos desse programa ao qual tenho direito, toda essa parte de cooperação científica, de apoio à educação, de desenvolvimento industrial. Então, eu tenho trabalhado bastante nessa área também e cada vitoriazinha, cada visita dessas que eu faço em escolas, que eu vejo a motivação dos alunos, cada vez que a gente consegue colocar um professor para fazer intercâmbio nos Estados Unidos ou nos outros 15 países que participam da estação, ou levar um pesquisador para lá. Cada vez que consigo algo, me dá sensação de vitória.

JC - No ano passado, houve um problema burocrático entre o Brasil e o Estados Unidos em relação ao acordo do programa espacial. O que você sentiu naquele momento? Chegou a pensar: e agora? A minha viagem pode não acontecer? Por questões diplomáticas, a minha ida ao espaço está comprometida? Marcos Pontes – Eu venho treinando há cinco anos para fazer isso. Então, você sempre tem aquela parte e terminando você tem que executar o que foi mandado. E eu sou uma pessoa que gosto de concluir as coisas que começo. O que eu imaginei com esse episódio foi: agora é hora de arregaçar as mangas e trabalhar muito mais e tirar desse programa muito mais proveito do que poderia ser pensado. Então, comecei a planejar e executar projetos, usando essa participação do Brasil na estação espacial. Projetos que nenhuma outra iniciativa espacial, como Cibers, que é um satélite, ou satélites de pequeno porte, ou VLS, ou as bases de lançamento, consegue fazer, que é toda essa penetração dentro da educação, todo esse contato com 15 países ao mesmo tempo, levar indústrias para fora, fazer começar a exportar. Eu comecei a fazer isso. Essa foi a resposta para essa coisa toda.

E qual é a sua rotina? Você faz o que na Nasa no seu dia-a-dia? Marcos Pontes – Eu, às vezes, sinto falta da rotina. É que não tem rotina. Não tem. Você imagina o seguinte: no centro para treinamento nós temos simuladores, todas as instalações que são compartilhadas com as tripulações que já estão escaladas e as tripulações que ainda não estão escaladas, mas estão em treinamento. Então, o que acontece: a tripulação escalada, logicamente, tem prioridade, porque vão fazer um vôo daqui a seis meses, ou período menor que um ano que é o tempo de escala. Quando eles estão treinando, a gente dá o lugar a eles. Agora, quando eu estiver escalado, terei prioridade. A gente tem trabalho técnico também. Eu trabalho como engenheiro de sistemas, faço toda a parte de integração com os módulos da estação, sou responsável por isso e nas semana que eles estão treinando eu vou para Kennedy Space Center, na Flórida e trabalho na integração. Quando eles não estão treinando, passou uma semana em treinamento intenso, aí o horário é completamente maluco porque opera 24 horas. Às vezes, você está escalado, por exemplo, das oito da noite às oito da manhã dentro do simulador. Aí você dorme de manhã. À tarde, você pode ter uma aula e à noite você pode voltar para sua rotina normal, se é possível dizer isso. Pois sempre tem uma aula, uma reunião e assim vai, ou seja, não tem rotina.

JC - Nos filmes, a gente vê que a comida que vai para o espaço é pó, é pílula, que gosto tem aquilo? Se come assim mesmo? Como funciona a cozinha do espaço? Marcos Pontes – (risos) Não é pílula, também não é pasta. Aquilo lá era antigamente. Mas hoje em dia é o seguinte: imagine essa comida que a gente coloca no freezer num saquinho sem ar, a vácuo, só que desidratada para ficar leve. Aí, você tem uma maneira de hidratar isso, que se transforma numa comida. É uma comida hidratada que não tem muito gosto, não por causa da comida, mas por um efeito da microgravidade no vôo. É isso... Pensa bem, é menos de um ano que você vai permanecer no espaço, então você agüenta.

JC - Mas eu acredito que para um americano que tem uma comida sem grandes preocupações com sabores e temperos deva ser fácil, mas para um brasileiro... Marcos Pontes – Eu estou lá há sete anos. Fiz meu mestrado e estou há cinco anos na Nasa. Então, acho que me adaptei bem. Eu não sou exigente com comida. Eu como o que tiver, quando puder... Eu não me preocupo muito com isso não.

JC – Do ano passado para cá, você tem vindo com uma certa freqüência ao Brasil, coisa que antes não acontecia. Do que você tinha mais saudade? Marcos Pontes – Olha, a saudade principal que a gente tem é das pessoas. Eu tenho a minha família aqui em Bauru, eu tenho meus amigos aqui, mas tenho amigos lá também. Então, passou a ser uma coisa, que como você disse passou a ter uma freqüência porque passei a ser da gerência administrativa do projeto. Então, eu tenho vindo mais para cá e acabo me sentindo morando aqui e lá ao mesmo tempo. Estou no meio do caminho.

JC – Você gosta de música? Marcos Pontes – Demais.

JC – Mas na sua jornada tem como ouvir música? Do que você gosta? Marcos Pontes – Tem, toda vez que estou sentado na minha mesa e estou ouvindo música, ponho o fonezinho e ficou ouvindo. Eu gosto basicamente de tudo, de música clássica, gosto de Mozart. Eu gosto de música pop, música americana, rock. Desde que eu consiga entender o que está sendo falado, eu gosto. Minha trilha, basicamente, é essa.

JC – Vamos imaginar o seguinte: Marcos Pontes está escalado para voar daqui a seis meses e tem uma bagagem mínima em todos os sentidos para levar para o espaço. O que você levaria? Já pensou nisso? Marcos Pontes – Já, já pensei. De item pessoal, eu vou levar CDs de música, a gente pode levar um computador, um laptop...

JC – Que funciona de que jeito? Marcos Pontes – Por incrível que pareça, a estação é controlada por laptops, a interface final do programa será feita por 28 laptops. Hoje ainda não é esse número, e não é Windows. Mas eu vou levar um laptop porque eu também me divirto escrevendo e pretendo escrever um livro. Então, vou aproveitar meu tempo, se é que a gente vai ter tempo. Vou levar algumas fotos e agora vem a outra parte que não é bem pessoal, mas... eu vou levar duas bandeiras do Brasil, que quero correr o País pelo máximo de cidades de Norte a Sul e terminando em Brasília, para as pessoas poderem ver a bandeira que vai para o espaço, assinarem o livro. Aí vou trazê-las de volta e deixá-las em Brasília, mas ainda não sei para qual lugar elas irão. Pelo meu vôo ser em 2006, centenário de Santos Dumont, uma das idéias que eu tive foi conseguir em um museu um item pessoal de Santos Dumont, que seja um chapéu, um relógio, e levar para lá para justamente prestar uma homenagem, 100 anos depois. É como se Santos Dumont tivesse ido ao espaço.

JC – E como é a insustentável leveza do ser de estar numa cápsula com gravidade zero? Marcos Pontes – A gente tem uma série de treinamentos no avião que faz parábolas e a gente consegue alguns segundos de microgravidade nessas parábolas. A sensação, fisicamente, é mais ou menos a seguinte: todo mundo já sonhou um dia que estava caindo. Já sonhou isso? Você caindo num abismo? Deu aquela sensação de frio na barriga? No início da microgravidade, a sensação é essa: dá aquele friozinho na barriga como se estivesse caindo. Aliás, fisiologicamente é a mesma sensação. Logo depois, quando você controla essa sensação, aí tem aquela sensação de liberdade, acho que essa é a palavra mais apropriada a isso: liberdade. Você perde essa força que fica puxando a gente o tempo todo e essa sensação de poder ir para qualquer lado é muito boa, muito mesmo.

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