Dois Córregos - A Polícia Civil de Dois Córregos (73 quilômetros a Leste de Bauru) começou a desvendar nesta semana um assassinato que teria ocorrido há 17 anos na zona rural do município. O trabalhador rural aposentado José Pedro Gomes, 57 anos, é acusado de ter matado a filha Claudete (apenas o primeiro nome foi identificado pela polícia) e ocultado o cadáver da vítima. Na época do crime, em outubro de 1986, a menina teria aproximadamente 15 anos.
O caso veio à tona anteontem, quando uma das filhas do lavrador, Veruza Maria Correia Gomes, 23 anos, denunciou o suposto assassinato à polícia por meio de uma carta. Há cerca de dez dias, em conversa com a mãe, ela teria desvendado o mistério que cercava o desaparecimento da irmã. Indignada com a situação, recorreu à polícia. “Ela ficou se remoendo, tentando fazer a mãe procurar a delegacia para contar o que ocorreu”, afirma o delegado de Dois Córregos, José Carlos Freitas de Cara.
Segundo ele, logo após a denúncia, o aposentado foi conduzido à delegacia e teria confessado o crime, revelando inclusive o local onde o cadáver foi ocultado.
O assassinato teria ocorrido no sítio São Manuel, onde a família do trabalhador rural morava na ocasião. A vítima teria sido morta pelo pai dentro da própria casa com pauladas na cabeça.
Logo após o crime, com a ajuda da madrasta da menina, Maria José Correia Gomes, 52 anos, o acusado rural teria colocado a vítima em um saco de estopa e a atirado em uma represa dentro da propriedade rural. No dia seguinte, como o corpo permaneceu na superfície do rio, o casal teria resgatado a menina e a enterrado às margens da represa.
Ontem, uma máquina escavadeira foi deslocada pela Polícia Técnica até o local apontado pelo aposentado. Até o fechamento desta edição, parte da ossada da menina, inclusive o crânio, havia sido encontrada durante as buscas. O material será conduzido para o Instituto Médico Legal (IML) de Jaú, onde será submetido a exames para identificação. No local, a polícia também encontrou restos de roupa e uma corda.
Um inquérito policial foi instaurado para apurar o caso. Gomes deve responder por homicídio qualificado, cuja pena prevista vai de 12 a 30 anos de detenção, e ocultação de cadáver, pena de um a três anos. A polícia também investiga a participação da mulher do acusado nesse último crime. Segundo Freitas, ela teria confirmado todo o desfecho do assassinato em depoimento à polícia.
O delegado afirma que o aposentado deve responder o inquérito em liberdade. “Nós achamos que não há os requisitos legais que justifiquem a prisão preventiva”, aponta.
Desentendimentos
Segundo o delegado, Gomes teria afirmado que não mantinha um bom relacionamento com a filha - fruto de seu primeiro casamento. A menina teria morado com o acusado até os 7 anos, mas depois da separação dos pais teria ficado com a avó paterna em Pernambuco.
Após a morte da mulher, Claudete teria se mudado para a casa do pai e da madrasta em Dois Córregos, um ano antes do assassinato.
Na época do crime, Claudete seria a filha mais velha do acusado e teria desentendimentos freqüentes com o pai. De acordo com Freitas, o aposentado alegou que as brigas teriam sido motivadas por problemas de indisciplina e a descoberta de supostos envolvimentos amorosos da menor.
No dia do assassinato, pai e filha teriam tido uma discussão na cozinha da residência. A madrasta afirmou à polícia que teria ouvido os gritos da menina, mas quando chegou ao local ela já estaria morta.
Durante todos esses anos, o crime foi mantido em segredo. Para justificar o desaparecimento da adolescente, o casal alegou aos vizinhos que a menina teria sido internada em um hospital psiquiátrico e, para os filhos, que ela teria ido morar na casa da mãe biológica. Segundo o delegado, não há registros da época sobre o desaparecimento da menina. A polícia também não tem informações sobre o paradeiro da mãe de Claudete.
Após o assassinato da filha, o aposentado teria tentado suicídio três vezes. “Segundo o relato dele, seria uma suposta crise de consciência pelo ato que ele praticou”, afirma o delegado.
Na época do crime, o trabalhador rural era o único funcionário do sítio e morava no local com a família. Apenas Claudete era filha do primeiro casamento do acusado. Atualmente, o casal, que tem 11 filhos, reside no município de Mineiros do Tietê.
Veruza, a irmã que fez a denúncia à polícia, teria descoberto o caso nos últimos dias a partir da confissão da mãe. “Acho que a própria mãe, com peso de consciência, acabou contando para a filha, só que não esperava que ela tivesse essa reação”, opina o delegado.
Segundo a polícia, o aposentado teria um comportamento agressivo com a família, inclusive com Veruza. “A filha ficou revoltada (com o crime). Já não gostava muito do pai, que seria uma pessoa agressiva, e resolveu delatá-lo”, afirma Freitas.