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Manu é o máximo!

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Tudo começou com uma vitrolinha, depois veio o “Primeiro Gradiente”, hoje Manuela Pereira Saggioro, 21 anos, não é apenas uma estudante de letras. Ela é cantora e guitarrista da banda bauruense Technicolor, fã incondicional de Janis Joplin e o universo mágico do rock dos anos 70.

Corajosa como poucas mulheres da sua idade, ela já foi garçonete, mudou de faculdade e cruzou o Brasil com apenas R$ 600 no bolso.

Quando sobe ao palco, se transforma. Ora é Janis, ora Björk, ora Alanis Morisette ou ainda Rita Lee, mas confessa que se descobriu cantora trancada no quarto nas tardes de domingo.

O vôo da borboleta Manuela você conhece agora nos principais trechos de uma longa conversa cheia de risos, caras e bocas de uma garota que nasceu zen para fazer o mundo mais animado.

Jornal da Cidade – Quando você descobriu a música? Manuela Pereira Saggioro, a Manu – Quando eu ganhei uma vitrola do meu pai, vermelhinha com vários disquinhos para escutar. Eu ficava fissurada colocando disco, disco, disco. (faz gestos como se mexesse com o braço do aparelho). Aí surgiu o “Meu Primeiro Gradiente”... (suspira) Eu pedi para o meu pai e passava o dia escutando rádio, fita e assim eu descobri a música mesmo.

JC – O que você escutava na época do bracinho da vitrola? Manu – No bracinho da vitrola, eu comecei escutando música infantil mesmo. Eu me lembro de escutar um monte de Balão Mágico. Mas nessa vitrolinha mesmo eu descobri uns discos do meu pai e da minha mãe que era Carpenters. Aí, eu pirei em Carpenters e em Carly Simon também. Depois, eu pedi um tecladinho pequenininho e comecei a fazer teclado. Só que eu não tinha a menor paciência com leitura de música. Então, eu comecei a tirar tudo de ouvido. Eu escutava as músicas no rádio e tirava de ouvido todas elas.

JC – E até hoje você toca o que toca de ouvido? Manu – Hoje, eu sei um pouco mais. Estudei um pouco de música... Eu entrei na faculdade de música e fiz um semestre e meio. Depois larguei porque queria outras coisas numa universidade não só ver nota musical.

JC – Aí, você foi fazer letras para cantar em inglês? Manu –É, eu faço português e inglês mesmo. Eu escutava muita música em inglês e muita gente fala que tenho uma pronúncia legal. Mas eu acho que é de escutar. Aliás, cantar legal é escutar, você não acha? Não é verdade? Se você sabe ouvir, você consegue reproduzir. Se você não ouve direito, não vai cantar direito. Então, o que eu sei de música mesmo é de escutar, de ter uma entrega muito grande na hora de ouvir música. Se você me pergunta se já ouvi o disco novo do Chico César e se eu escutei uma vez ou outra ou só ouvi umas quatro músicas, vou dizer que não. Escutar um disco é pegar o disckman, apagar as luzes, fechar os olhos e escutar o disco inteiro do começo ao fim, tudo, tudo.

JC – E você segue esse ritual a cada disco que vai ouvir ou que lhe chega de novo? Manu – Imagina se hoje em dia dá para fazer isso, porque chegam dez coisas novas por dia. Mas quando eu quero entender, ou alguma coisa me chamou a atenção, vou escutar dessa maneira. Com Björk foi assim. Eu achava o trabalho dela uma coisa muito esquisita porque eu sempre gostei de rock anos 70. A Björk era uma coisa muito nova para mim, mas eu falei: vou escutar. Meu pai tinha todos os disco dela, peguei todos eles e pus um para rolar. Eu escutei uma música e disse: nooossaaa!! Eu deitei no meu quarto e escutei todos os CDs da Björk e aí eu me apaixonei.

JC – Mas e a paixão pela Janis Joplin? Manu – Olha, foi muito louco. Eu tinha 13 anos, 14 no máximo e me lembro de estar passando em frente a uma casa e ouvi um som e parei. Falei: “Nossa o que é isso, meu?”. Encanei, achei lindo. Não me lembro a música que era, mas lembro-me do disco porque bati na casa e perguntei o que estava rolando. Saiu da casa um cara malucão e disse que era Janis Joplin, uma mulher, uma cantora e tal. Pronto. Aí eu comecei...

JC – Começou aquela pesquisa que a gente faz quando é adolescente e elege um ídolo e faz de tudo para conseguir tudo sobre o ídolo? Manu – (Balança a cabeça positivamente) Para conseguir tudo. Justamente. Arrumei tudo. Eu fiquei em contato mais de um ano com o guitarrista dela. Sabe aquele famoso solo de “Summertime” (cantarola)? Ele é quem fez esse solo. Entrei na Internet e vi uma página da Big Brother, a primeira banda que tocou com ela. Pensei será que eles estão vivos? Mandei um e-mail, contei tudo e o cara pirou. Ele me mandou material da banda, que ainda é a mesma da Janis e só tem uma vocalista nova. Pediu para eu dar um jeito de arrumar um show para eles no Brasil que ele vinha tocar em Bauru na faixa. (Aliás, num festival idealizado por ela em 1998.) Mas agora não tenho mais o contato com ele, perdi o contato com ele. Mas Janis Joplin foi tudo. Eu passava, via de longe, escutava e parava. Se via alguém com camiseta na rua, eu parava para conversar e dizia: nossa que legal!!!

JC - E quando você se descobriu cantora? Manu – Eu comecei tocando violão. Lembra da história do teclado? Larguei o teclado e falei: Quero ser guitarrista! Aí o meu tio me arrumou uma guitarra velha, destruída... Nossa! Uma Jennifer que teve que regular horrores para poder conseguir sair um som. Aí comecei a tirar uns acordes de violão na guitarra e depois de um tempo eu comecei a cantar. Você começa a tocar e quer cantar. Só que eu acordava no domingo, almoçava, me trancava no quarto e só saía de lá oito horas da noite. Ficava tocando e cantando a tarde inteira, mas se alguém abrisse a porta, eu ficava roxa de vergonha. Mas de porta fechada, eu cantava. Aí, eu fui soltando um pouquinho, mas não achava que cantava. Eu cantava porque tinha prazer em conseguir fazer aqueles acordes, naqueles ritmos, tirar um solinho, uma coisa assim e colocar a voz. Uma vez fui para a praia e me disseram toca, você está tocando. Era uma música do Bob Dylan “Blowing in the wind”, toquei a música e me disseram: Então canta. Aí, eu cantei baixinho e todo mundo disse: Nossa você canta bem. Aí, depois de tanto ouvir que eu cantava bem, fui cantando e até hoje estou cantando.

JC – Hoje, cantar significa tudo para você ou é uma fase da sua vida? Manu - Ah! Significa tudo sim. Mas eu não acho que se parar de cantar eu não tenho outra opção. Eu acho que posso fazer tudo nessa vida. Quando eu larguei a faculdade de música, fiquei um ano trabalhando de garçonete no Armazén e comecei a fazer cursinho. Eu não sabia o que ia prestar, mas desde que eu descobri Woodstock, com 13, 14 anos, e cismei que tinha que fazer uma viagem pelo Brasil de carona e mochila. E comecei a avisar minha mãe: Olha, um dia eu vou pegar a mochila e sair andando. Ela dizia que eu estava louca. Mas quando eu tinha 19 anos, peguei R$ 600 que eu tinha, um mapa, trilhei, avisei os amigos, arrumei a mochila, chamei o Rodrigo meu amigo com quem sempre fazia um som, ele topou e fomos. Viajamos durante quatro meses pelo Brasil, conhecemos 11 Estados. Quando acabava o dinheiro a gente tocava... Eu pegava o violão e ele a percussão, tirava um sonzinho e assim ganhava grana para o almoço, o jantar. Mas a gente dormiu em praça, em proa de barco, na estrada. Mas eu posso dizer que violão e voz já toquei no Brasil inteiro. Principalmente, no Nordeste é muito difícil ver menina tocando e cantando em inglês. Em pontos turísticos, lotava bar, tocava três dias seguidos. Tinha noite de ganhar R$ 200. Ou então, a gente ía de hotel em hotel, almoça em um, dormia em outro. Eu arrumei emprego e lugar para morar em todos os lugares do Brasil. Então, eu penso em só cantar, mas não tenho medo de pensar em como vou sobreviver.

JC – Mas além do talento, você tem um carisma, uma leveza, um astral que abre portas que a maioria das pessoas não tem? A sua mãe é psicóloga. Foi ela quem te deu essa bagagem de não ter medo das coisas? Manu – Nossa! Isso é totalmente pai e mãe. Cada vez que eu penso na minha família, eu digo: puta meu, valeu! Valeu mesmo, por tudo!

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