Articulistas

Por que os velhos viajam em p


| Tempo de leitura: 4 min

Adoro filhotes, todos eles e de todas as espécies. Filhotes humanos, filhotes de cangurus, de cachorros, gatos, até os filhotes de jacaré têm certa graça. Neles habita toda sorte de expectativas. A possibilidade é algo que lhes pertence incondicionalmente, pois eles são agraciados com o porvir. Talvez por isso neles reside o que há de melhor das suas espécies e talvez por isso expressam entre si o que há de mais feliz; pulam e correm. Não se preocupam com o tempo que está ali justamente a esperá-los, então não se assustam, simplesmente brincam com o eterno agora.

Encontro bandos de filhotes humanos nos finais de tarde quando eles saem da escola. Suados, elétricos, saltitam como se para acostumar novamente seus corpinhos ao gesto livre. O bando se afunila no portão da saída, espalhando-se depois pelo espaço como se não houvesse mais ordem, não existissem as ruas e as calçadas. Depois, afunilam-se novamente na porta do ônibus. Ônibus é um espaço apertado movido por rodas que leva os filhotes para suas casas.

Dentro do ônibus, o bando consegue através de alguma força desconhecida realizar o sagrado rito de atravessar a roleta; de uma maneira amorfa e apertada, suspendem no ar cadernos e mochilas, caem ao chão algumas bugigangas queridas que são logo recuperadas. Além da cara amarrada do cobrador, nenhum outro dano pode ser percebido, porque os filhotes se agitam e tagarelam entre si, superiores a qualquer formalidade.

No espaço ônibus os filhotes humanos encontram-se com outros que são da mesma espécie: os velhos. Os velhos são humanos onde habita a lentidão. Talvez por saberem que o tempo não mais os espera, seus corpos movem-se vagarosamente pelo quente da vida. Talvez por saberem o quão breve é o agora, se assustam com facilidade.

No espaço apertado movido por rodas, que leva os filhotes e os velhos para suas casas, se dá uma grande estranheza. Os poucos assentos que existem no ônibus não são suficientes para os velhos aquietarem seus corpos e remediar um pouco a rapidez das rodas do tempo. Os filhotes por não saberem a lentidão dos velhos, brincam de ocupar cada pedaço do espaço sem perceberem os velhos. Os velhos resmungam, se impacientam e agem de forma ríspida com a não percepção que os filhotes têm com aquilo que lhes é mais caro - o tempo. No espaço do ônibus, o que existe é um longo silêncio, pois as falas ditas pelos velhos e pelos filhotes são incompreensíveis mutuamente. Habitam de maneira diversa dois momentos distintos de um mesmo tempo e espaço sem o perceberem.

O estado de estranheza entre velhos e filhotes é projetado, oferecido e mantido pelos humanos chamados adultos. Adultos são os humanos que constróem os ônibus com poucos assentos e degraus altos demais para os velhos e para os filhotes. Controlam a passagem delimitada pela roleta e os dois mundos que existem entre ela. São humanos que repreendem os gestos libertos dos filhotes e ignoram a pressa lenta dos velhos. Humanos adultos são aqueles que subtraem as possibilidades, pois negam o porvir e desdenham o devir. Vivem num eterno agora, mas absurdamente artificial e enganoso, porque nunca têm tempo para brincadeiras e alegrias. Constróem cidades, templos, leis e nunca resolvem os problemas, apenas os formatam de maneira a não alterar seus reinados. São humanos que dirigem os ônibus de um jeito abrupto, com freadas fortes e curvas rápidas, que machucam os velhos e os filhotes. Humanos adultos são aqueles que permitem que os velhos viajem em pé.

Mas entre os humanos adultos, existem alguns que se diferenciam pela forma suave com que dirigem os ônibus. São aqueles que fazem planos de paz, executam gestos alegres, acalentam os velhos e partilham com os filhotes o sensível da vida. Entre os humanos adultos que são diferentes estão os poetas e os educadores.

Os educadores são os mediadores entre os vários e distintos mundos, que apodrecem quanto menos diversos. Os educadores pilotam espaços que não são movidos por rodas mas à janelas. Desço do ônibus no mesmo lugar de todos os dias, mas hoje um pouco mais feliz, pois percebo ser possível chegar o dia em que os velhos não mais precisem viajar em pé.

A autora, Tania Cristina Registro, é historiadora e fotógrafa.

Comentários

Comentários