Regional

Tranqüilidade é aliada da vida longa

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

A vida nos pequenos municípios segue quase que uma ‘regra’. A rotina diária é pacata e não tem nada de estressante. A alimentação é sempre mais saudável, o que garante que as pessoas que vivem nesses municípios tenham mais saúde e vivam mais, em tese. Os velhos costumes de substituir um medicamento por um chá de ervas muitas vezes comprometem um tratamento médico.

A despreocupação com a violência, de modo geral, é uma característica dos moradores de cidades de pequeno porte, onde ainda é possível dormir com a janela do quarto aberta e deixar o carro na porta da casa com a bolsa dentro sem se preocupar com os furtos e roubos.

A tranqüilidade é tanta que em Reginópolis (70 quilômetros ao Norte de Bauru), por exemplo, a dona de casa Angelina Tófoli, 58 anos, nem se preocupa em trancar a casa para ir fazer compras no supermercado. “A distância entre a minha casa e o estabelecimento é pequena. Eu deixo a casa aberta porque é rápido.”

O quesito tranqüilidade também pode ser sentido durante as compras. Enquanto nas grandes redes de supermercados as pessoas disputam os produtos em promoção, os estabelecimentos das cidades de pequeno porte não apresentam se quer filas nos caixas.

O número reduzido de moradores permite que se conheçam entre si e possibilitam o comércio ‘caipira’, com o registro de contas em caderneta para pagamento posterior.

Como as distâncias entre um ponto e outro da cidade são pequenas, o uso de transporte coletivo não é necessário. O fluxo de carros é pequeno, evitando os transtornos do trânsito urbano. A carroça, a charrete e as bicicletas, todos meios de transportes pouco usados nos centros de médio e grande porte, são usadas como meios de se chegar a um determinado local.

Além de ser saudável, o meio de transporte representa exercícios, quer físico ou mental. Para quem conhece, sabe que andar de carroça ou charrete e conduzir um animal é uma atividade prazerosa, enquanto que andar de bicicleta é um exercício físico indispensável para quem já atingiu a casa dos 50.

O casal Lázaro Campos Penteado, 82 anos, e Josefina da Silva Penteado, 77 anos, moradores da cidade de Arealva, não dispensa o passeio de charrete, três vezes por semana. “Nós moramos na zona rural e pelo menos três vezes por semana vamos à cidade fazer compras.”

Alimentação

O arroz e feijão são a base da alimentação dos ‘jovens’ acima de 60 anos. Eles não dispensam um bom prato feito na hora. Se a descendência for italiana, a macarronada do domingo está garantida, mesmo que a indicação médica desaconselhe a ingestão desse tipo de alimento.

Aliás, passar por cima dos conselhos médicos e do regime imposto pela enfermidade é uma tarefa repetida constantemente pelos idosos, que preferem manter a tradição do que se submeter a uma ‘dieta’.

Fazer com que o idoso ‘siga’ as recomendações médicas é um desafio para os profissionais que trabalham com esse público e é um dos fatores que influencia na longevidade da população. A coordenadora de saúde da cidade de Iacanga, Silvana Pultrini de Almeida, admite que a falta de conscientização do doente é o que leva ao óbito. “No grupo dos hipertensos e diabéticos esbarramos com essa dificuldade.”

De acordo com ela, alguns hipertensos tomam o medicamento e seguem a orientação médica até conseguirem controlar a pressão. “Quando eles sentem que estão bem, começam a abusar. Param de tomar o remédio na sexta-feira para tomar uma cervejinha no final de semana.”

No caso dos diabéticos, eles prosseguem da mesma maneira até atingirem um controle, depois passam a deixar o medicamento em segundo plano para comer um ‘docinho’.

Para driblar a situação, a Prefeitura de Iacanga criou, há seis meses, uma equipe multidisciplinar que pode reverter os índices de longevidade negativos obtidos entre 97 e 2000, quando a taxa de mortalidade entre os maiores de 60 anos (por mil habitantes) passou de 41,1 para 42,6.

Uma ‘força-tarefa’ formada por médicos, enfermeira, assistente social e psicóloga está em ‘campo’ tentando conscientizar o público-alvo e fazer com que eles não abandonem o tratamento, ainda que temporariamente, explica a coordenadora.

A rebeldia dos ‘jovens’ acima de 60 anos, também é sentida na cidade de Reginópolis. A enfermeira chefe do centro de saúde da cidade, Laurecí Regina de Oliveira Feldenheimer, constata o pouco interesse de uma parcela dos idosos, em seguir as recomendações médicas. “A maioria leva a sério o que o médico recomenda. Mas há os rebeldes.”

Ela lembra que nos programas de diabetes e hipertensão os medicamentos são gratuitos. “Há ainda aqueles que sofrem de outras enfermidades e, por falta de recursos financeiros, não seguem os conselhos dos médicos.”

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