Pesca & Lazer

Aberta temporada do pesque e solte

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 5 min

Com o término do período de defeso, pescadores de todo o País já estão com a tralha na mão para seguir à procura dos peixes. Nesse momento, é fundamental relembrar a importância da prática da pesca esportiva para garantir a pescaria do próximo ano. É visível a redução dos estoques pesqueiros do Brasil, com espécies ameaçadas de extinção e o desaparecimento dos grandes exemplares.

É bastante comum ouvir queixas de pescadores com relação ao tamanho reduzido de muitas espécies, além da escassez em muitas regiões, que até bem pouco tempo eram consideradas excelentes para a pesca. Apesar da maioria dos pescadores não se sentir responsável pelo problema, é fato que eles são muito valiosos na disseminação de informações e hábitos. Portanto, cabe também ao pescador esportivo a tarefa de orientar os amigos e, em algumas oportunidades, informar pescadores ribeirinhos e piloteiros sobre a urgente necessidade de preservação dos estoques pesqueiros.

Nascido em Coronel Macedo e “mordido” pelo bichinho da pesca em Santa Cruz do Rio Pardo, onde cresceu e adquiriu a paixão do pai, Ezequiel Theodoro da Silva, 56 anos, é um dos principais teóricos sobre pesca no País. Ele é professor aposentado pela Unicamp, onde participa do Grupo Interdisciplinar de Pesca Esportiva (Gipe), e também atua como colaborador voluntário em uma pesquisa voltada para a leitura das linguagens virtuais. Com 35 livros publicados, dos quais quatro na área de pesca, Silva comanda o Pescarte, site que contém o maior banco de dados em pesca esportiva no Brasil, e luta para mudar a mentalidade do pescador brasileiro.

“Não podemos ignorar as leis de mutação genética. O pescador, ao sacrificar o peixe grande, impede a transmissão da carga genética, inclusive do gene do crescimento, e os exemplares ficam cada vez menores. Isso já está ocorrendo com o tambaqui amazônico”, exemplifica o pescador e pesquisador.

Liberdade

Silva comenta que técnicos americanos avaliam que outro fator colabora com a cultura do pesque e solte: o valor da liberdade. “Não é à toa que a religião cristã tem como símbolo o peixe, que traz o valor da liberdade para o indivíduo. Na água existe o direito de ir e ver, não tem fronteiras”, acrescenta o pesquisador. De acordo com ele, as pessoas que aprendem a soltar agregam um novo valor à pescaria. “Primeiro, o prazer da luta, de um arremesso bem feito, o processo de espera, a escolha da isca. Depois, a liberação do peixe.”

A história

A pesca esportiva (catch and release) é uma filosofia desenvolvida e propagada internacionalmente pelo pescador de fly americano Lee Wulff, há mais de 60 anos. “Ele e a esposa começaram a observar a finitude dos estoques selvagens e a necessidade da preservação desses peixes”, acrescenta Ezequiel Theodoro da Silva.

Nesse processo, observou-se que o mesmo exemplar poderia proporcionar o prazer da pescaria a mais de um pescador. “Estudos científicos foram feitos para saber se a soltura valeria a pena e comprovou-se que o peixe vale mais vivo do que morto.” Segundo ele, um exemplo é a truta argentina, que solta na natureza gera mais divisas ao país com a pesca esportiva. “A própria tartaruga marinha é outro exemplo”, acrescenta.

Acompanhando a onda americana, no Brasil o pioneiro na pesca esportiva foi Rubinho Almeida Prado, que incluiu a prática em seu programa televisivo, há mais 10 anos. Até então não existia nenhuma preocupação na preservação dos estoques pesqueiros, o “bonito” era pescar em grande quantidade.

Hoje, a prática do pescar e soltar já é bastante difundida, porém ainda pouco praticada com seriedade. Não basta devolver o peixe para a água, é fundamental que ele esteja em condições reais de sobrevivência.

Consciência versus desrespeito

Em Bauru, muitos pesqueiros adotaram a pesca esportiva, principalmente por motivos econômicos. Dessa forma, o pescador, que antes era obrigado a levar todos os peixes fisgados, permanece por mais tempo no local e satisfaz seus desejos de farta pescaria.

Porém, mesmo em tanques, a preocupação na devolução de um peixe à água deve ser a mesma, o que infelizmente não ocorre. De acordo com o proprietário do Pesqueiro Pé no Chão, Renato Franceschetti, alguns pescadores não respeitam as recomendações e até maltratam o pescado. “Durante a semana, não temos problemas de peixes mortos, somente na segunda-feira ocorre a mortandade de três a quatro peixes por falta de cuidado do pescador”, comenta.

Franceschetti já presenciou pessoas chutando o peixe para a água e outros tipos de agressões e crueldades. “Um dia peguei um peixe que teve a guelra cortada. Fiquei chocado, pois todos sabem que só de colocar a mão na guelra o peixe já pode morrer”, acrescenta.

Outro acidente comum é a pessoa ficar passeando com o peixe para mostrar aos amigos e tirar fotos. “Aí, eu digo: ‘Ô rapaz, se eu colocar você dentro da água você agüenta a metade do tempo que está com esse peixe?’ A conscientização do pescador é um processo lento.”

O pescador aposentado Tomonori Horikwa, 67 anos, pesca com freqüência, mas evita os finais de semana. “Prefiro quando está com pouca gente.” Ele explica que é preciso pegar o peixe com cuidado. “Também não pode deixar o peixe estressar, tem que soltar logo e nunca pisar nele.”

Massanori Sakuma, o Massa, 67 anos, é rigoroso na hora de devolver o peixe para a água. “Não pode machucar o peixe, então é melhor usar anzol sem farpa para facilitar a liberação.” Ele também sugere uma “vistoria” no peixe. “Se o peixe estiver muito machucado, eu levo para casa. Só solto quanto o peixe está em condições de sobreviver.”

Antonio Orbetelli, 69 anos, é aposentado e pelo menos uma vez por semana vai pescar. “Eu prefiro usar o coador para pegar, às vezes uso o alicate para facilitar e não judiar do peixe.”

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