Economia & Negócios

74% de devedores não conseguem pagar

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisa inédita da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP) aponta que 74% dos devedores na Grande São Paulo não acreditam que possam liquidar suas dívidas em curto prazo. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) entrevistou 1.050 pessoas no último mês. Desse total, quase 65% têm dívidas, sendo que 39,1% estão inadimplentes.

O levantamento levou em conta qualquer tipo de comprometimento da renda, seja com cheque especial, empréstimo, cartão de crédito, financiamento ou prestações de qualquer ordem. Embora a pesquisa tenha sido realizada nos municípios da Grande São Paulo, o vice-presidente da Fecomércio-SP, Walace Garroux Sampaio, que é presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sincomércio) de Bauru, afirma que a situação na cidade é semelhante.

“Na média, os números valem para todo o Estado”, diz Sampaio. Isso porque as causas levantadas pela assessoria econômica da Fecomércio-SP para explicar os números têm paralelo em Bauru (assim como na maioria dos municípios paulistas). “São dois lados: não há renda e os juros são absurdos se a pessoa quiser compor sua dívida”, afirma.

O economista Fernando Pinho também indica os mesmos motivos, especialmente o achatamento da renda do trabalhador. “Se não há renda nem capacidade da pessoa se endividar mais porque já tem dívidas, como ela vai consumir? Só se alguém fizer uma doação”, ironiza.

Entre os números revelados pela pesquisa da Fecomércio-SP, alguns itens são impressionantes. Dos entrevistados, 13,5% têm entre 51% e 70% da renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas. No caso de comprometimento com cartão de crédito ou com o cheque especial, em que os juros mensais chegam na casa dos 10%, a tendência é de piora no quadro.

“O trabalhador é empurrado pelo sistema financeiro em direção ao endividamento”, resume Sampaio. Para o economista Pinho, essa “via de mão única” é resultado de uma política econômica de arrecadação voraz de impostos sem uma contrapartida de desenvolvimento. “Se não houver uma certa massa salarial, não adianta fazer microcrédito, reativar a construção civil. Não podemos nos esquecer de que onde não há mercado, não há negócios”, completa.

Pinho cita que o plano do governo de aquecer o mercado da construção civil, embora louvável pelo fato de proporcionar trabalho à população de menor renda, esbarra na falta de poder aquisitivo do trabalhador - que caiu 14% no ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Por mais que uma pessoa precise comprar uma casa ou sonhe com isso, como é que ela vai assumir mais um financiamento se não tem condições de pagar aquilo que já tem empenhado?”, indaga o economista.

Pequenas em crise

Sem dinheiro e atolado em dívidas com o sistema bancário-financeiro, o problema do trabalhador com renda corroída vai bater em outro lugar: nas micro e pequenas empresas. Um dos principais motores da economia, o setor dos pequenos empreendedores sofre com uma inadimplência alta, que aliada ao crédito escasso e caro e à carga de impostos, perde capital de giro, demite e, não raro, fecha as portas.

“O ciclo da economia está interrompido”, afirma o presidente do Sincomércio, lembrando que o faturamento do comércio caiu 18% em janeiro deste ano em relação ao mesmo mês de 2003. O economista Pinho concorda: “Não existe nenhuma possibilidade em curto prazo de se diminuir essa carga tributária, até porque o governo precisa desse dinheiro, e a população fica de mãos amarradas. E esse problema de defasagem de renda é o que faz com que a economia não deslanche”.

Diante do quadro, Sampaio afirma que resta procurar alternativas locais para aquecer a economia. Atualmente, o Grupo Pró Bauru, do qual faz parte, está com esforços voltados para a liberação de R$ 4 milhões definidos no Orçamento da União para as obras do novo aeroporto. “É bem provável que o aeroporto seja um fator de desenvolvimento para a cidade”, diz. E indaga: “Milhares de universitários estão se formando em Bauru todos os anos. Para quê? Será que há mercado de trabalho para essa gente toda?”

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Triplo do salário

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) realizado pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP) indica que a maioria da população está com pelo menos parte da renda comprometida com dívidas. Há, no entanto, casos mais graves, em que nem três salários de uma só vez seriam suficientes para liquidar o comprometimento.

É nessa situação que se enquadra uma operadora de telemarketing de 24 anos, moradora de Bauru. Ela calcula ter uma dívida de mais de R$ 1.300,00 com uma operadora de celular, causada principalmente pelos juros cobrados, além de cerca de R$ 100,00 de um empréstimo num banco. O detalhe é que ela ganha pouco mais de R$ 400,00 por mês.

“No momento, só ganhando na Quina para poder pagar essa dívida”, brinca a operadora. Segundo ela, além da falta de perspectiva imediata de um emprego em que ganhe um salário maior, a empresa credora se nega a aceitar um parcelamento. “Se aceitarem parcelar minha dívida em R$ 50,00 por mês, até é possível pagar. Mas como não aceitam, vou deixar como está por enquanto”, diz.

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