Edson Celulari, Arietha Corrêa, Adriano Garib, Gustavo Haddad, Pedro Garcia, Tatiane Foresti, Jaciara Rosa, Susan Grey da Silva e Ana Paula Alvarez. Esse elenco consagrado pelo público e pela crítica de teatro, e em alguns casos até mesmo na tevê e no cinema, saiu de Bauru, mais precisamente da lista de chamada do Curso Livre de Teatro do professor, autor e diretor Paulo Roberto Alves Neves, 55 anos, 35 deles efetivamente nos palcos.
Afinal, Paulo é filho de Celina Lourdes Alves Neves, a professora de datilografia e a mulher que mais militou pelo exercício teatral na cidade, tanto é que o teatro municipal de Bauru leva seu nome.
Neste anos todos, o diretor foi cobrado por não ter seguido uma carreira na Capital como o contemporâneo Mauro Rasi. Neves se defende dizendo não se arrepender da opção, pois oportunidade teve sim.
Ele optou por amparar a família e acabou por não desamparar as companhias teatrais do País. Ele ensinou a muitos a arte de interpretar e revelou inúmeros talentos.
A experiência do ensinar arte e história, ter alunos exemplares e espetáculos primorosos, numa cidade sem patrocínio e até poucos anos atrás sem teatro, é sua grande recompensa.
Na última remessa, Paulo Neves exportou seis alunos para grupos e universidades de teatro e tevê. Renata Camila César foi fazer faculdade de artes cênicas em Curitiba (PR), Ariene Martinez, Agostinho Neto e Marcelo de Oliveira estão na escola InCenna de Teatro e Televisão, em São Paulo; Mariana Mazziviero passou em primeiro lugar em artes cênicas na Faculdade Anhembi-Morumbi e na São Judas Tadeu; Larissa Marques, integra o Centro de Pesquisa Teatral do Sesc em São Paulo, coordenado por Antunes Filho.
Num processo de recomeçar a formar um novo grupo desde os primeiros passos e textos, Paulo Neves contou um pouco da sua trajetória de muitos atos, num bate-papo com o caderno Ser. A questão política do teatro na cidade é pauta para uma próxima longa conversa.
Jornal da Cidade – O teatro está na veia, não tem como negar, mas como foi o começo de tudo? Por ironia do destino, temos uma máquina de escrever ao nosso lado.
Paulo Neves – Exatamente, vamos ligar o útil ao agradável. No meu apartamento, eu tenho máquina de escrever. Tudo o que escrevo, bato à máquina ainda. É uma coisa que está no sangue, não adianta. Eu nasci no meio da máquina de escrever, meus irmãos idem. Nós ficamos a vida inteira em volta da máquina de escrever. Quando veio o computador, a minha mãe não teve condição de comprar computadores e montar uma escola de computação, então, fechamos a Escola Progresso. Para o meu irmão foi mais tranqüilo. Para mim foi mais doloroso, porque o processo da máquina é algo intrínseco. Faz dez dias que ganhei meu primeiro celular de uma amiga que disse que eu estava sozinho demais. Mas voltando, eu acho que a vida da família Paulo, Carlos e Elisabeth foi exatamente vivendo com teatro, convivendo com educação, com conhecimentos gerais que é muito interessante. O que era conhecimentos gerais para dona Celina? O aluno precisava saber datilografia, mas precisava saber taquigrafia, inglês, política, filosofia e isso ela fazia questão de passar para os alunos. A gente nasceu e cresceu em cima desta visão educacional, não mercantilista, bem voltada para o “eduque-se os meninos e não será preciso castigar os homens”, do Pitágoras. Essa foi a nossa criação o tempo inteiro. Então, quando a minha mãe começou a caminhar para fazer o teatro clássico, eu falei não, do teatro clássico eu não gosto. Eu acho que para a cidade naquele momento não ia dar certo. Aí, nós partimos para fazer no teatro, naquele momento, em 68, algo diferente. Lancei um espetáculo na Faculdade de Filosofia, antiga Fafil, chamado “Yes, nós somos brasileiros”. Esse foi o primeiro. Ele analisava o Brasil naquele momento do AI-5, no momento político, econômico e social. Mauro (Rasi) e eu somos contemporâneos. O Mauro deu aquele salto enorme de qualidade, sem dúvida. O Mauro foi muito ousado e eu fiquei. Sem nenhum drama de consciência, eu fiquei.
JC - Por quê?
Paulo Neves – Eu acho que tinha muito respeito pela minha mãe. Eu acho que essa é uma colocação que pela primeira vez estou fazendo. Mas se você pegar o JC do dia 12 de agosto de 2000 e ler o que a dona Celina falou numa carta publicada na Tribuna do Leitor no dia da morte dela, é uma coisa muito sintomática. Foi a primeira vez que ela falou que sentia em não ter dado oportunidade para o Paulo ir para São Paulo. Ela nunca falou isso e no dia de sua morte estava lá no jornal. Eu fiquei com receio, era uma questão de respeito, porque minha mãe era sozinha. Eu era o filho mais velho, meio ovelha negra da família, de repente, eu saio... Como é que vai ficar a minha mãe, como vai ficar meu irmão. Então eu fico. Outra coisa que ela disse que não queria, e disse no artigo, era para não entrar na política, pois tinha pavio curto e não iria agüentar muita coisa que veria. Então, é importante ressaltar esse lado porque, às vezes, as pessoas falam: “Você teve oportunidade...”, sim tive oportunidade sim.
JC – Se você tivesse ido para São Paulo, o que teria acontecido? Dá para imaginar isso?
Paulo Neves – Eu acho que eu faria o que sempre gostei de fazer. Se desse oportunidade, eu faria direção, eu não escreveria. Eu partiria para fazer direção, que eu gosto muito. Ou diretor de televisão ou de teatro, eu queria uma chance. A oportunidade apareceu e eu não fui. Medo? De jeito nenhum. Eu nunca tive medo. Quando eu fui fazer a primeira direção, em 1968, do “Yes, nós somos brasileiros”, eu fiz o roteiro, fiz o texto, as irmãs deixaram e eu fui no Colégio São José apresentar o espetáculo, depois no Automóvel Club e eu falei: “É um negócio gostoso, vou continuar”. Em 69, fiz um musical que chamava-se “O Primeiro Psicosamba” e veja que estava Badê, Fredoca, Roberto Magalhães na bateria, Paulo Sérgio Simonetti sendo entrevistado. Em 69, eu paro o espetáculo, ninguém sabia de nada, nem o Paulo, que foi entrevistado pelo elenco, sentadinho num banquinho e ainda com cabelo. Fomos os primeiros a prestar uma homenagem a Adilson Godoy na trilha com Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Esse foi o segundo espetáculo. O terceiro, em 1970, foi uma homenagem às mulheres “Mulheres, segundo terceiras”, no Tênis lotado em três dias, com todos os textos e slides enfocando mulheres bonitas, feias, brancas, negras. Em 71, fui presidente do Diretório Acadêmico Veritas, mas em 73 comecei a escrever “Errare, humanum est”, que foi onde o Edson (Celulari) apareceu. Aí veio outro espetáculo falando de amor, porque, no fundo, eu sou extremamente romântico “É preciso falar... de amor”, esse espetáculo fiz com o Edson também e aí veio a continuidade até 2004. Isso tudo tem muito a ver com a dona Celina, mas quando se faz faculdade de história se fica muito crítico e tive professores que me alertaram sobre tudo. E, graças à professora Maria da Glória Portal Roldan, eu virei rato de biblioteca numa época em que o País fervilhava. Eu tenho todas as coleções de jornais, do Pasquim, do Movimento, do Opinião, Versus, do Flor do Mal e do Bondinho. Eu li tudo isso e ía a São Paulo pegar o Pasquim porque não chegava em Bauru, a minha mãe achava um perigo, porque se detonavam com bombas as bancas de revista. Mas eu tenho teses e muita informação ali. Eu procurei me informar, aprender. Eu vi 17 vezes o filme “Hair” e 32 vezes a peça, estava todo final de semana conversando com a Sônia Braga, o Antônio Fagundes, Armando Bogus, Aracy Balabanian. O Ademar Guerra não agüentava mais o Paulo chegar de madrugada de Expresso de Prata. Mas eu estava lá e aprendi muito com ele. O Altair Lima foi meu padrinho no primeiro casamento. A minha vida esteve sempre toda no teatro.
JC – Mesmo com tanta informação, você nunca pensou em outra coisa para a sua vida?
Paulo Neves – Exatamente. Não. Eu nunca pensei em ficar rico. Isso é um grande problema hoje, porque eu estou desempregado. E se não tiver aula para dar, vai ser complicado. Pois a minha vida foi e é em função do teatro. Eu trouxe “Hair” para Bauru e fui abjurado, foi uma loucura. Mas 1.500 pessoas foram ver “Hair” no Tênis. Então, o que eu fiz foi sempre em benefício da cultura, da educação e da cidade. Uma coisa que é fundamental para mim e que olho para traz e digo que vou morrer com isso: eu fiz coisas muito boas e muito bonitas: “Avatar”, “Perseguições”, “Bailei na Curva”, “Cala a boca já morreu”. O que eu queria e como cabe no Ser é que alguém me patrocinasse, me desse condições de produzir um espetáculo. Eu mato a pau.
JC – Você é um dos poucos que faz tudo sozinho: escreve, dirige, seleciona elenco, monta cenário, figurino, faz a luz, coreografa...
Paulo Neves – Esse é o grande diferencial e queria que alguém chegasse e me falasse para eu cuidar só da peça e dos atores. Vocês vão ter um senhor espetáculo. Realmente, é muito difícil quando você tem que cuidar da iluminação, quando você tem que estar com o elenco e este tem que estar redondinho. Mas se você me perguntar se em 35 anos de teatro, valeu? Eu digo: valeu, valeu a pena.