Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, tem uma relação de intimidade com o cinema. A arte esteve presente em seus trabalhos de mestrado e doutorado na Universidade Ludwig Maximiliam, em Munique, na Alemanha, onde fez o curso de Teologia. Atualmente, ele também é um dos responsáveis pelo cineclube da Instituição Toledo de Ensino (ITE), onde dá aulas. O padre, que também é formado em Direito e História, assistiu “A Paixão de Cristo” e, logo após a sessão, concedeu a seguinte entrevista ao JC, na qual não recomenda o filme pelo seu excesso de violência.
Jornal da Cidade - Qual a sua opinião sobre filme?
Padre Beto - É um filme para sádicos e masoquistas, é muito violento... Tecnicamente o filme é bom. O Mel Gibson trabalhou muito bem as imagens, os movimentos de câmera. Mas o excesso de violência é até irreal.
JC - Esse excesso de violência não tem nenhum objetivo no filme?
Beto - No fundo, o conceito que está por trás é que o Cristo é o cordeiro que é sacrificado pelo pecado dos homens. Essa é a concepção. E aí ele faz um sacrifício literalmente. Mas mesmo essa concepção é algo sem sentido. O Cristo sofre e nós assistimos esse sofrimento mas isso não nos traz nenhum conteúdo em termos de vida. Na verdade a grande mensagem de Jesus Cristo não está aí, ela está antes a cruz e depois cruz. Está na vida dele, no que ele ensinou que está narrado nos evangelhos ou está na mensagem final depois da morte, que é a esperança do ser humano ter uma vida depois da morte, que é a ressurreição.
JC - Nesse sentido, o filme erra ao abordar somente as últimas 12 horas da vida de Jesus?
Beto - Exatamente, o filme acentua a parte menos importante da vida dele.
JC - Além da violência, “A Paixão... “ tem sido acusado de ser anti-semita. Em algum momento isso fica claro?
Beto - Eu não achei o filme anti-semita. Até na questão do julgamento no Sinédrio, entre os judeus, existe uma divisão. Há judeus que se mostram contra o julgamento. Há um personagem que lembra que nem todo o conselho está reunido ali... Outro procura defender Jesus, dizendo que não vê provas que o condenem. Então assistimos uma certa divisão entre os judeus. É claro que o mal na história recai sobre os fariseus, que é um grupo de judeus, mas não percebi uma visão unilateral contra os judeus.
JC - Como são trabalhados os personagens?
Beto - O que eu percebi é que ele (o diretor) torna algumas figuras caricaturas. Os fariseus são caricatos, são a representação do mal, que querem o sangue todo de Jesus e vão até o fim querendo que ele sofra. Os próprios romanos que o torturam são caricatos, eles são extremamente violentos, são anormais. Eu me perguntei no filme qual seria a razão de tanto ódio contra aquele homem. O filme não justifica isso. Os romanos parecem ter um ódio mortal de Jesus, o que parece uma coisa irreal. Eu não acredito que o Cristo histórico tenha morrido daquela maneira. Ele deve ter sido um prisioneiro como qualquer outro, tido como apenas mais um místico judeu. Naquela época muitos apareciam se dizendo o Messias. Não acredito que os romanos tenham tratado um prisioneiro dessa forma. Toda violência acaba se tornando sem sentido.
JC - O senhor recomenda o filme?
Beto - Não recomendo. Eu acho que o filme não traz a mensagem de Jesus Cristo, apesar de, em algumas cenas, ele relembrar fatos da sua vida. Mas é muito pouco para Jesus. O filme é interessante para sadistas ou masoquistas. Ou você tem prazer de ver todo aquele sangue derramado, a pele de Jesus Cristo saindo, literalmente, ou você sofre o filme todo, do começo ao fim. É um filme vazio, sem conteúdo.
JC - Mas existem pontos positivos no filme?
Beto - Um ponto positivo do filme, que para mim foi interessante, foi a linguagem utilizada. Ouvir o aramaico e o latim foi positivo na produção do Gibson. Toda produção de Jesus de Nazaré ou da Paixão de Cristo tem também o problema daquela linguagem mítica dos Evangelhos: anjos, demônios, efeitos que são simbólicos, e acho que ele (Gibson) solucionou bem o que seria um anjo, a própria figura do demônio, mas não solucionou tão bem como Scorsese (Martin, que dirigiu “A Última Tentação de Cristo” em 1988), que fez da figura do demônio uma coisa surpreendente, bem suave, bem bonita, um anjo mesmo. Mas fez algo fascinante também, misterioso, atraente. Acho que o diretor solucionou bem essas questões, apesar de ter ficado nas 14 estações clássicas da Via Sacra. Ele não fugiu disso, achei que foi pobre nesse sentido. O Cristo foge também daquele padrão loiro de olhos azuis, é um Cristo talvez mais próximo de um judeu. Na Paixão, ele segue João e Lucas. Naqueles trechos de memória, ele combina Mateus e Marcos. Isso foi também uma solução interessante.