Auto Mercado

Uma aventura na fornalha

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Você teria coragem de viajar montado em uma motocicleta até o local mais seco de todo o planeta? Não? Mas o bauruense Alexandre Munhoz de Freitas teve. Em uma aventura quente por natureza, ele encarou mais de 9 mil quilômetros em 19 dias, grande parte deles rodados nas trilhas pedregosas do deserto do Atacama, no Chile.

Coisa de maluco? Não para Alexandre, que há tempos sonhava em embrenhar-se no Atacama por sua aura mística e vontade de conhecer novos povos e culturas. Mas tornar seu desejo uma realidade envolveu um intenso preparo e uma série de sacrifícios, até mesmo vender um Opala 1990, veículo que era seu “xodó”. “Doeu no coração, mas não tive escolha”, ressalta.

O esforço era necessário para comprar uma moto - uma XT 600 -, conforme Alexandre, mais adequada para aguentar “o tranco” no Atacama e adquirir acessórios fundamentais à viagem, como barracas, sacos de dormir e comida.

Mesmo assim, como a grana era curta, ele destaca que o planejamento não previa espaço para luxo. “O objetivo era gastar, no máximo, R$ 100,00 por dia, bem abaixo dos US$ 80, cerca de R$ 240,00, normalmente dispendidos em aventuras do gênero no Atacama”, enfatiza.

Ao mesmo tempo, Alexandre também definiu um companheiro para a viagem. Para isso, ingressou em um clube virtual de apaixonados pela XT 600 e alardeou a intenção de desbravar o Atacama. Após vários debates via Internet, fechou a parceria com o paulistano Jéferson Estevan.

Com isso, e alguns encontros “ao vivo” com Jéferson na Capital, o início da aventura estava próximo, o que não demorou a ocorrer. No dia combinado, em 30 de dezembro do ano passado, Alexandre parte de Bauru em direção a São Paulo para encontrar o parceiro.

De lá, seguiram para Curitiba, Florianópolis e Uruguaiana até chegar à Argentina, onde enfrentaram alguns problemas, como encontrar um local para comprar um pneu da moto de Alexandre destruído pelo asfalto abrasivo das rodovias.

Após superarem a Argentina, os motoaventureiros alcançaram Santiago, a Capital chilena, e continuaram o trajeto rumo à rota Panamericana, pista simples considerada a porta de entrada do deserto de Atacama. Ao atingirem-na, Alexandre e Jéferson conferiram “in loco” que a fama do local não é à toa.

Ambos andaram cerca de 2.500 quilômetros em pleno deserto, que alternava trilhas de asfalto com estradas de puro cascalho, e encararam temperaturas que variavam dos 40º aos 46º durante o dia e entre 2º e 3º à noite.

Tais experiências marcaram para sempre os aventureiros. “Ele é seco demais e impressiona em vários trechos onde não se vê um ser vivo, nem formiga, cobra ou mosquito. Além disso, há locais que só é possível escutar o vento e você se sente solitário, um nada dentro daquela imensidão”, relata Alexandre.

Além disso, acrescenta o bauruense, todos os sacrifícios exigidos durante a viagem, como dormir ao relento em várias oportunidades, foram compensados pelo privilégio de ter conhecido locais paradisíacos e de rara beleza, como os salares, os gêiseres, os vulcões e a cidade de San Pedro do Atacama, considerada a Capital do deserto.

Eles gostaram tanto de desafiar o deserto que Alexandre não titubeia. “Sem dúvida, faria tudo novamente”, garante. Mas quem pensa que o seu espírito aventureiro esmoreceu após ter encarado o Atacama está enganado.

Prova disso é que ele já tem em mente o próximo alvo de suas peripécias em quatro rodas. “Quero chegar a Ushuaia e Machu Picchu via Transamazônica”, conclui.

Comentários

Comentários