João Carlos de Almeida, nasceu às 23h, no dia 8 de novembro de 1947, sob o signo de escorpião, ascendente em câncer, lua em virgem, em Bauru, na rua Val de Palmas, que hoje é Célio Daiben, filho de um ferroviário da Noroeste, ex-jogador de futebol famoso em Bauru, e de uma dona de casa, que até hoje é chamada de “mãezinha”.
Ele poderia ter jogado bola se não tivesse sido vitimado pela paralisia infantil, mas não teria sido locutor esportivo e não teria tido a chance de zombar do destino que, nas ondas do rádio, lhe apresentou a astrologia. Ciência que prefere chamar de arte e que lhe deu a chance de ser reconhecido internacionalmente no segmento editorial, com o codinome de JoãoBidu.
Numa conversa com o caderno Ser, Bidu conta detalhes da história que estava escrita nas estrelas, mas ele jura que não leu.
Jornal da Cidade – Onde começa a história pessoal de JoãoBidu?
João Carlos de Almeida, o JoãoBidu – Que eu me lembre, eu vivi até os 2 anos e poucos na rua Val de Palmas. Foi quando contrai a paralisia infantil. Depois fomos morar na Vila Dutra/Curuçá, que era uma vila só para ferroviários. Aí, o tempo passou e eu me lembro que, em função da minha deficiência, eu não podia jogar bola com a molecada, mas eu ficava em volta do campo transmitindo o jogo. Ali nasceu aquela vontade de ser radialista, de ser locutor esportivo.
JC - O filho de um jogador de futebol, que queria e não podia jogar bola...
JoãoBidu – Exatamente, o meu pai jogava, os meus irmãos também, a molecada... naquele tempo todo mundo jogava bola e eu não tinha condição de jogar. Então, eu tive duas fases: a da locução esportiva e a de apitar o jogo também. Mas para apitar tinha que correr muito e não tinha condição. Mas foi com uma latinha na beira do campo, que tudo começou. Aí meu pai falou com o Alonso Campoi, que naquele tempo trabalhava no Noroeste e era o locutor esportivo da rádio Terra Branca para que ele arrumasse uma vaga para mim. Eu fui e quem me deu uma força muito grande foi o Leonardo de Brito (editor de esportes do JC), com quem comecei no Plantão Esportivo. Eu comecei comentando jogo de várzea. Saía de Curuçá de manhã no domingo e evidentemente eu não tinha condições de voltar, porque tinha um trenzinho que ligava o bairro à cidade e ele seguia os horários da oficina e, no domingo, como era dia de folga, tinha essa coreinha de manhã e depois só à noite, duas vezes à noite. Eu saía de manhã, assistia o jogo, almoçava na casa da minha tia ou da minha madrinha. De lá, eu ia para a rádio Terra Branca, fazia o comentário do jogo e ficava na emissora fazendo a chamada rádio-escuta, ouvia os resultados dos outros jogos e passava para o Leonardo. E para eu matar a vontade de falar um pouquinho, tinha um programa depois da transmissão dos jogos, que era o Resenha Esportiva, que comentava e dava resultados de jogos dos campeonatos do mundo inteiro: Bordeaux 1 x Toulose 0, falava com biquinho francês; do campeonato espanhol também falava com sotaque: Barcelona e Real Madri. E, para eu poder falar, eu só pegava a coreinha de volta às dez horas da noite.
JC – Você ficava um domingo inteiro em função do futebol?
JoãoBidu – O domingo inteiro atrás de futebol e, para eu falar, esperava até as dez da noite.
JC – E você tinha quanto anos nessa época? 12, 13?
JoãoBidu – 15 anos. E saía da Terra Branca naquela escuridão para pegar o ônibus em frente à Panela de Pressão. Naquele tempo, era tudo escuro. Ainda bem que a segurança era 100%, mas era duro.
JC – A deficiência não lhe deixou jogar bola, mas atrapalhava em outros pontos?
JoãoBidu – Não, não. Eu fui logo trabalhar, estudar. A minha mãe, sem querer, promoveu a minha inclusão, porque naquele tempo era muito comum a família esconder uma pessoa com deficiência, não deixar que ela fosse aqui ou ali. Às vezes, a molecada fazia gozação. Mas a minha mãe não tinha medo. Ela sempre me tratou como pessoa normal, me levou para a escola e quando fazia bagunça a professora ou a diretora a chamavam, ela ia lá, me comia o fígado, me batia. Nunca tive privilégio por causa da minha deficiência.
JC – E também nunca deu uma bengalada em alguém?
JoãoBidu – A bengala eu comecei a usar com 18 anos, depois que parei de usar aparelho. Até eu tinha vergonha de usá-la. Era um sarro. Eu fiz ginásio e colégio no Guedes de Azevedo e eu ia com a bengala até a estação em Curuçá, deixava ela lá e ia para a escola sem bengala. Para andar era uma dificuldade... Passou um tempão e eu resolvi parar com aquilo e andar com a bengala. Para mim, ela facilita muito e eu venci mais uma. Quebrei o tabu da bengala. Andar de aparelho para mim não era nada, o problema era a bengala (risos). Vá entender uma coisa dessas.
JC – Voltando um pouco, o fato da sua mãe ter lutado pela sua inclusão foi a motivação para esse seu lado de filantropia?
JoãoBidu – Eu trabalhava na rádio e o Thomas, o idealizador da Sorri (Sociedade para Reabilitação e Reintegração do Incapacitado), me chamou para ser conselheiro lá e eu me achei na condição de ir. Era uma pessoa com deficiência, trabalhava num veículo de comunicação, tinha também essa obrigação social de tentar fazer alguma coisa. Conscientemente, acho que não tem relação com a minha infância.
JC – E como a astrologia entrou na sua vida para virar paixão?
JoãoBidu – A astrologia entra quando o Tobias Ferreira resolveu criar na Auri-Verde a figura do JoãoBidu, em 1972, se não me engano. Ele não seria um astrólogo, mas o âncora de um programa astrológico onde a figura principal era o Ohmar Cardoso, que mandava a fita com o programa dele. Na época, eu não queria aceitar, porque meu negócio era futebol, mas ele insistiu. Falei com a minha mãe, que chamo de mãezinha, e ela disse que era para fazer, se não gostasse, desistia. Aí peguei gosto pela coisa. Senti uma empatia muito grande, porque no futebol, lidando com homem, você é muito contestado, questionado, uma hora você está no céu, outra no inferno. E, ao trabalhar com astrologia, eu descobri a mulher e eu vi o carinho e a compreensão até mesmo pelos meus erros. Aí eu me apaixonei por trabalhar com o público feminino e com a astrologia. Mas como não estava lá para ser astrólogo, fui aprender astrologia. Li muitos livros, fiz cursos em São Paulo e peguei o jeitão da coisa. Quando o Ohmar Cardoso foi para outra rádio foi a minha prova de fogo, mas devagar fui conquistando espaço e estamos aí.
JC – E assim até hoje você faz as previsões para o ano inteiro?
JoãoBidu – Exatamente. Hoje, eu não sou sozinho, tenho equipe, mas estou sempre acompanhando. Eu sempre falo que astrologia não é um bicho-de-sete-cabeças. De astrólogo para astrólogo existe um pouco mais de intuição, sensitividade, mas diferentemente de outras ciências ou de arte, como prefiro afirmar, você tem planetas e configurações, das quais não se pode fugir. Você pode ser mais otimista ou menos otimista. Como existem vários dados, você poder acertar mais ou errar menos. Cada conjunção tem uma série de significados e você vai escolher com quais informações vai trabalhar. É essa a hora crucial em que vai aparecer o dedinho do astrólogo, pois até então todos os astrólogos têm as informações do mapa.
JC – Escorpião é um signo naturalmente teimoso, possessivo, ciumento, etc, etc...
JoãoBidu – Eu não sou bem assim, porque meu ascendente em câncer minimiza essa parte escorpiana. Eu corroboro plenamente porque vivi com o Tobias Ferreira, que foi meu criador, que era um esporpiano bem assim com esse traço teimoso, prepotente e vaidoso ao extremo. Mas eu não vou dizer que não sou teimoso, sou sim. Mas um teimoso diplomático: eu ouço todo mundo, mas acabo fazendo o que dá na minha cabeça. Não tenho arrogância, aqui na editora mesmo não devo ter falado alto com ninguém. Não é meu feitio. Posso até dar uma olhada, mas falar alto não tenho esse costume.
JC – Mas ser um patrão elogiado te orgulha muito?
JoãoBidu – Lógico, não posso deixar de sentir um orgulho, porque hoje em dia a gente está muito entrosado e isso é uma coisa que me deixa muito feliz. Mas quando recebo um elogio, fico mais feliz pela parte humana do que profissional, porque o mínimo que você pode fazer é tentar ser cada vez mais uma pessoa melhor, que ajuda os outros, que sabe ouvir, que não julga. A gente está sempre exercitando isso e não posso negar que me lisonjeia.
JC – Você fala muito em paixão, quantas foram as paixões de JoãoBidu?
JoãoBidu – (risos) Foram várias, muitas, muitas. Uma delas foi pelo rádio e não conheço até hoje. Sei que se chama Ana Lúcia, casou-se com um médico, tem três filhos e mora em São Paulo. Uma vez me ligou, ficou uma amizade distante, mas foi uma grande paixão. Depois veio a Djanira com quem me casei e foi minha primeira paixão. Larguei a Djanira e me casei com a Lourdes, a minha segunda paixão. E agora estou com a Inês, que espero que seja a minha última e eterna paixão. Além dos dois filhos: o João Carlos e a Angélica e os netos. Eu já sou avô!
JC – Você previu o seu sucesso?
JoãoBidu – De jeito nenhum. Isso estava escrito nas estrelas, mas eu não vi. Eu jamais poderia imaginar que as coisas chegassem a ficar assim. Foi tudo de maneira lenta, primeiro no rádio, depois a revista que começou com um anuário, depois Guia Astral (que completa 18 anos, no próximo dia 18), um sonho do JoãoBidu e depois vieram muitas pessoas trabalhar para que a editora ocupasse o espaço significativo no mercado nacional. Pelo segundo ano consecutivo, com a venda somente em banca, somos a segunda do Brasil. A primeira é a Abril e a segunda, a Alto Astral. Isso não dava para prever de jeito nenhum.
JC – Para matar a curiosidade de muita gente: você tem o hábito de ler horóscopo?
JoãoBidu – Acompanho o que os outros estão fazendo na Folha e no Estadão, mas não sou tão fanático como muitas pessoas. Só quando vou fazer algo importante, eu dou uma olhadinha. Mas eu sempre acompanho o meu inferno astral, os 30 dias que antecedem o meu aniversário. Aí eu fico muito ligado, pois é incrível: coisas ruins acontecem, tem baixo astral e dá até desânimo.