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Política externa de Zapatero


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Rodríguez Zapatero anunciou que as prioridades do novo governo em política externa serão Europa, o Mediterrâneo e a América Latina, nessa ordem. Obviedade para qualquer observador da realidade política, geográfica e econômica da Espanha, choca com a evidência contrária mostrada pelo governo anterior de José Maria Aznar. A Espanha, nos últimos oito anos (e mais, desde o 11 de setembro), deslizou para uma agenda que destacava a relação com os Estados Unidos (justificando-a por se tratar de um país povoado por 40 milhões de hispanos), Iraque, uma “nova” Europa atribuída por Donald Rumsfeld, e a defesa de alguns investimentos na América Latina, nessa ordem.

As prioridades a partir de agora serão canalizadas pelo caminho do melhor interesse nacional de uma das mais velhas nações do planeta. A Espanha havia cimentado, desde 1976, sua posição razoável, e dentro de suas possibilidades como potência média, no cenário mundial. A Espanha agora se volta à única Europa possível, a “velha”.

Ao encarar o problema da ocupação do Iraque, o grande desafio de Zapatero será conseguir um consenso nas Nações Unidas para que uma parte importante (utópico seria uma entrega total) do poder da administração internacional do país passe a depender da ONU. Do contrário, a pressão social será notável e não restará outro remédio ao governo espanhol a não ser cumprir sua promessa eleitoral de retirar as tropas. No Mediterrâneo, sobretudo com o Marrocos, o desafio também é enorme, já que o Partido Socialista Operário Espanhol (POSE) de Rodrigues Zapatero voltará ao ponto de partida.

Na América Latina, o novo governo encara um continente atomizado, entre governos conservadores e zelosos de suas estratégicas alianças com Washington (casos notórios da Colômbia e da maioria dos países centro-americanos) e os progressistas de diferentes calados no Cone Sul. Em todo caso, a Espanha deverá centrar-se no continente em dois eixos primordiais: a revitalização da Comunidade Iberoamericana de Nações (agora reduzida a umas cúpulas sem graça) e a reconversão de uma política de ajuda seletiva e condicionada para uma verdadeira de desenvolvimento e defesa dos direitos humanos. A primazia da atenção dada pelo governo anterior para a segurança jurídica dos investimentos deve ser coordenada com a luta contra a pobreza e a marginalização.

Com Washington impõe-se uma dose de cautela para não envolver-se em um debate interior que desembocará nas eleições de novembro. Convém insistir no discurso da primazia da ordem internacional baseada no multilateralismo e na necessidade de que os grandes e urgentes temas passem a ser tratados tanto nas Nações Unidas quanto, e sobretudo, no tocante aos interesses estratégicos da Espanha, no contexto da União Européia, onde a Espanha vai recuperar a influência perdida nos últimos anos. Somente dessa maneira se forçará o governo norte-americano a inserir as referências à União Européia (ausente no discurso da Casa Branca) como protagonista inquestionável do cenário internacional.

O autor, Joaquín Roy, é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami.

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