Lembra muito bem a história que há 50 anos os principais temas da música brasileira eram o amor, a paixão, o namoro, a miséria, a saudade, a opressão e o trabalho forçado. Conseqüentemente, devotados compositores como Tom Jobim, Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Ary Barroso, José Maria de Abreu, Lamartine Babo e Nara Leão, dedicavam-se a enfocar as belezas naturais do Rio de Janeiro, citando especialmente o sol, as estrelas, as nuvens, o mar, as praias, as areias, o Corcovado, o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Era o tempo de Francisco Alves, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Sylvio Caldas, Gilberto Alves e outros hoje saudosos seresteiros. O grande país atravessava dias calmos e destacava então, por seu turno, a heróica caminhada do Estado de São Paulo, que se industrializava rapidamente e absorvia a maior parte dos imigrantes nordestinos, fugitivos da tristeza, da miséria e da seca imperantes em seus Estados. A calmaria atingia também as classes estudantis, que levavam amostras de teatro, cinema e música cantada às favelas e áreas periféricas, assim como às ondas hertzianas, que tinham em Assis Chateaubriand um dos principais incentivadores. As artes dominavam perceptivelmente e, em 1966, entravam em seu contexto os concorridos festivais de música, com destaque para a “Banda”, de Chico Buarque de Holanda, e “Disparada”, de Geraldo Vandré. Mas a destinação nacional não paralisaria nisso, pois a nação mudava politicamente, inclusive com o advento do Ato Institucional nº 5, acarretando a detenção celular e expurgatória de muitos intelectuais e músicos. E o espetáculo “Roda Viva”, de Chico Buarque, até motiva o espancamento de atores porque dizia: “A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva, e carrega o destino pra lá”... Melodias de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Sérgio Buarque também sofreram restrições, principalmente as que significavam idéias oposicionistas de Vandré, onde pintava: “Vem, vamos embora! Que esperar não é saber! Quem sabe faz a hora! Não espera acontecer...”
E continuava se transformando o grande Brasil que, aos poucos, ia deixando para a esperança a força de seu temário, como o demonstra agora quando joga sobre o seu governo a expectativa de suas maiores aspirações sociais e políticas. E as mudanças envolvem novamente a música popular que aí está, desta feita bem liberada, colaborando para a concretização dos sonhos da sociedade, pois leva aos ouvidos dos governantes o que pensam e almejam seus autores e intérpretes, usando inclusive gírias, malícias e imoralidades. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.
“Não se deve ficar lembrando perenemente coisas do começo, nem é preciso ter saudade das coisas do passado, pois sempre se pode realizar muitas coisas novas” - Chiara Lubich.