“Estamos de volta. Novembro de 2000, às margens do caudaloso e exuberante rio Paraná, mais precisamente no rancho do Moita, em Castilho (SP). Defronte ao rancho, espalha-se a ‘pequena’ Ilha Comprida, divisora do Paranazão em dois profundos canais.
O local é paradisíaco. As imensas árvores se debruçam sobre as águas permitindo uma sombra generosa e aconchegante. Nos galhos mais altos, exigem flores multicolores em meio às folhas verdes e viçosas. O rio gigante, cujas águas límpidas emprestam o tom prateado à paisagem, emoldura, ao fundo, aquela esplendorosa obra da natureza.
Desta vez fomos eu e o senhor Yassumoto Higa, aposentado da Polícia Militar, mais conhecido como ‘Tio Bu’, que também levou o seu falante papagaio-pescador, que atende pelo nome de ‘Louro Shaberu’. Teria sido uma pescaria normal se não fosse esse inusitado personagem: o papagaio do Tio Bu!!
‘Vamos pescar, Shaberu?’ Foi este o amável convite que Tio Bu fez, logo pela manhã, àquela ave ‘psitaciforme’ da família dos ‘psitacídeos’! (Não seria mais fácil chamá-lo de ‘Louro’?) E não é que o papagaio respondeu, concordando? ‘Pescar, pescar!’, repetia a bela ave de penas verdes!
Vejam o que aconteceu nas próximas horas ...
O tablado especial para pescar ficava sob o sol, forte e abrasador, longe das árvores. Ele se prendia à escada que chegava ao rio pelas grossas cordas de náilon. Deixamos nossos molinetes armados no tablado, encaixados nos seus respectivos suportes, e voltamos para a sombra.
As linhas, esticadas que estavam, oscilavam, gostosamente, ao sabor da correnteza. De onde estávamos, não era possível ver as varas, fato que me preocupava um pouco, mas não abalava o Tio Bu. Os caros leitores vão entender já já o porquê da tranqüilidade do dono do papagaio.
Sabem onde ficou o nosso ‘Louro Shaberu’? Exatamente, empoleirado no cano da escada, observando a tudo e a todos. Enquanto o Tio Bu, no aconchego de uma cadeira de balanço, deliciava-se à sombra de enormes paineiras, pitando, preguiçosamente, seu cigarro de palha. Eu, mais curioso do que uma manicure fazendo as unhas de uma madame fofoqueira, aguardava, ao seu lado, que o inesperado fizesse uma surpresa qualquer. Dito e feito.
De repente, o silêncio e a paz do rio foram cortados pelo estridente chamado do ‘Louro Shaberu’:
- Peixe, peixe! - repetia insistentemente o papagaio.
Corremos para a escada e, já no tablado ensolarado, vimos nossa varas serem sacudidas freneticamente de um lado para o outro. Recolhemos as linhas e pudemos ver uma piapara em cada anzol, numa luta titânica para não sair do rio. Como podem imaginar, foi assim a tarde toda , até o escurecer . Sequer precisávamos ficar olhando para as varas.
Bastava colocar uma nova isca e deixar por conta do genial papagaio. Assim que o peixe era fisgado, ouvia-se em alto e bom som o aviso:
- Peixe, peixe!
Foram 13 piaparas ao todo, sem a gente sair da sombra! ‘Sombra e peixe fresco’, ao invés de ‘sombra e água fresca’! Se algum pescador se interessar, o Tio Bu comunica que ele aluga o fantástico ‘Louro Shaberu’. É só mandar email para: currupaco@louroshaberu. tratar.com.tiobu
Fernando Lucilha Jr. é aposentado, pescador e contador de histórias verdadeiras