O presidente da Associação Comercial de Dois Córregos, Francisco Inácio Simões, é enfático em dizer que a chegada de quatro mil novos moradores, ainda que temporários, alavanca a economia do município. “Especialmente no setor de vestuário, alimentação, móveis e eletrodomésticos.”
De acordo com ele, o pagamento à vista, praxe dos trabalhadores rurais, movimenta recursos positivos para o município. “Eles fazem pagamentos em dinheiro ou com cheques-pagamento. Então não ocorre a inadimplência.”
Simões lembra que na chegada dos migrantes quem faz a ‘festa’ são os comerciantes de móveis. “Os donos de alojamentos compram camas e colchões para equipar o local onde os trabalhadores rurais vão ficar.”
Depois de dois meses de trabalho, mais ou menos, os migrantes, passam a adquirir roupas para trabalhar e no final da safra compram eletrodomésticos para levar para a família.
O final da safra, entre novembro e dezembro, é o período de maior movimento no comércio. “Alguns desses trabalhadores guardam dinheiro todos os meses para adquirir mercadorias só no final da safra, a fim de levar para a família que normalmente ficou no Norte ou Nordeste do País.
As compras de alimentos para uso diário, segundo o presidente da associação, são feitas em um dos supermercados locais. “Os comerciantes já conhecem os migrantes porque, com raras exceções, são os mesmos. Eles chegam sem dinheiro e compram o que precisam para se alimentar. Quando recebem o primeiro pagamento, vão até o estabelecimento e acertam as contas.”
Simões lembra que há trabalhadores rurais que chegam a comprar carro para voltar para casa. “Eles compram sempre nas lojas mais populares. Eu lembro de um caso que o migrante retornou de carro para sua terra natal.”
Fashion no campo
O comerciante de roupas, confecções e sapatos Wilson Garbelini diz que suas vendas aumentam em 50% na época da safra e o pagamento à vista aumenta o capital de giro em caixa. “Eles fazem compra com dinheiro ou com cheques dos empreiteiros. Muitas vezes, nós trocamos o cheque, que é dinheiro garantido, e voltamos o troco.”
Na loja, que comercializa produtos diversos, os migrantes costumam comprar, nos primeiros meses, sapatões, botas, camisas e calças, especialmente as jeans. “No final da safra, eles adquirem roupas de mulher e crianças para levar para a família.”
Ele lembra que os migrantes chegam não só para a safra de cana-de-açúcar. “Nos meses de junho e julho recebemos os migrantes que chegam na cidade para a colheita de café. Eles chegam do Paraná e Minas Gerais.”
Os gastos, geralmente não excessivos, variam de R$ 50,00 a R$ 200,00. “Eles compram muitas peças, mas todas populares, de baixo valor.”
Os trabalhadores também são compradores de sapatos. Na loja de Garbelini, eles preferem os sapatões, botas e tênis. “Tênis para eles e para as crianças que eles deixaram em suas cidades de origem.”
Som é o objeto de desejo
No início da safra, os trabalhadores rurais que migram para Dois Córregos procuram as lojas de eletrodomésticos para comprar um ‘radinho’ de pilha e gastam em torno de R$ 50,00, dependendo do modelo e tamanho. No final da safra, com a verba rescisória, eles adquirem um aparelho de som com o qual viajam de volta para casa.
O objeto de desejo dos migrantes, segundo a comerciante Maria Aparecida Fávaro Garbelini é o aparelho de som de maior valor, o mais sofisticado, com display colorido. “Mas como o preço desses aparelhos é alto, eles optam pelos mais populares.
Na opinião dela, as vendas aumentam de 30 a 40% com a safra de cana. “No início vendemos os colchões de 12 centímetros e as camas mais populares para os proprietários dos alojamentos. No final da safra comercializamos os produtos com os migrantes.”
Além do ‘radinho’ e do aparelho de som, muitos cortadores de cana levam bicicleta desmontada para o Norte e Nordeste, de onde vieram.
Criminalidade
Mas se por um lado a economia registra bons índices com o aumento do número da população da cidade, a criminalidade também cresce. O índice de furtos de pequenos objetos apresenta um aumento de cerca de 20%, segundo o comandante do pelotão da Polícia Militar, tenente Luiz Paulo Gracindo. Ele faz questão de frisar, no entanto, que 90% dos migrantes são trabalhadores bem-intencionados. “O problema é que no meio deles, sempre tem alguns que aprontam.”
Dentre os objetos furtados, ele destaca os botijões de gás, utensílios domésticos, roupas e sapatos. “Não é nada assustador, mas acontece um aumento no número de furtos.”
As lesões corporais graves provocadas pelas brigas em bares é outro item que influencia no índice de criminalidade da cidade.
O tenente explica que os trabalhadores se embriagam e discutem, gerando as agressões. “Eles se agridem com facões, ferramentas de trabalho diário.”