Cultura

'Divulgo a cultura através do saci'

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

Jornal da Cidade - Como é um saci?

Maria Tereza Guimarães - Os sacis medem mais ou menos 90 centímetros de altura. É um primata negro que tem rosto. A estrutura de sua coxa une uma perna a outra, formando uma perna só. A cabeça tem uma pele avermelhada que parece um funil, por isso as pessoas dizem que ele tem um gorro. Porque saci não fala, mas faz sinais e age muito com as mãos.

JC - A senhora consegue enxergar um saci?

Dona Tereza - É um pouco difícil porque ele fica no meio da floresta. Conforme a luz elétrica vai chegando, ele vai sumindo. Para ver o saci, tudo tem que estar escuro e calmo. Também não se pode fotografá-lo. Às vezes eu o vejo, mas costumo ouvir seus assobios e perceber suas travessuras.

JC - Quando a senhora começou a criar sacis?

Dona Tereza - Tudo teve início há 15 anos, em Três Pedras, um local perto de Botucatu. Meu filho, José Osvaldo Guimarães, e alguns amigos foram lá para ver coisas que estavam aparecendo, como discos voadores. Mas eles tiveram uma surpresa porque viram coisas que o saci fazia, como trançar o rabo dos animais, além de ouvirem assobios e barulhos. A partir daí, meu filho foi para Minas Gerais e lá ele soube que haviam sacis. Como ele tem muito amor pela natureza, acabou ganhando um casal de sacis e os trouxe para Botucatu em uma gaiola. Eles ficaram uma semana presos e depois nós soltamos os dois na floresta. Agora devem existir mais ou menos uns 30 sacis na mata, mas não dá para se ter uma idéia exata.

JC - Qual é a técnica para se criar um saci?

Dona Tereza - O segredo é o ambiente. Tem que ter bastante mata, brotos e frutas pois o saci é vegetariano. Ele não faz mal aos homens, mas faz muitas travessuras e brincadeiras. Entre elas, pega-pega e corda. Além de ser brincalhão, através do saci, nós aprendemos a não destruir a natureza.

JC - Tudo isso é uma lenda, não?

Dona Tereza - Não, é verdade. Realmente o saci existe. Pelas suas atitudes nós sabemos que ele existe. O Monteiro Lobato criou o saci e nós o levamos para frente.

JC - Mas o Monteiro Lobato criou o personagem Saci...

Dona Tereza - É porque ele não teve essa oportunidade de ver o saci.

JC - Algumas pessoas podem não acreditar que a senhora cria sacis. Como lidar com isso?

Dona Tereza - Não me importo. O que eu quero é divulgar a cultura brasileira através do saci, que faz parte do nosso folclore. Porque as histórias de bruxas e do Halloween, por exemplo, não fazem parte da nossa cultura. Embora todos devam ter liberdade para gostar do que quiserem, precisamos valorizar o que é nosso.

JC - Qual é o objetivo de se contar histórias sobre o saci?

Dona Tereza - Cada pessoa que conta uma história do saci está criando um saci e a intenção é fazer com que ele seja criado não só na mata, mas também nas casas das famílias. Não estou falando do personagem, mas sim das histórias. É interessante porque as crianças vibram quando contamos essas histórias. O saci faz uma malvadeza sadia, que não prejudica ninguém. Essa é a melhor qualidade do saci e está muito ligada à infância.

JC - A senhora conta histórias para seu neto?

Dona Tereza - Demais. Não só do saci, mas muitas histórias. Agora ele também conta histórias para outras crianças.

JC - O que leva a senhora a divulgar a lenda do saci?

Dona Tereza - As crianças precisam voltar a ouvir histórias e o fato dos pais contarem histórias como a do saci para os filhos e os filhos ouvirem os pais, ajuda a unir a família. Isso é um bem muito grande e traz felicidade para as crianças. Vejo pelo meu filho, que faz show junto com o Paulo Freire. É impressionante ver a alegria das crianças e a vibração dos pais. É uma coisa sadia, que só traz benefícios.

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