Na opinião do arquiteto Wagner Domingos, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em Bauru e vice-presidente de arquitetura da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag) de Bauru, o bauruense está começando a descobrir a arquitetura.
Para ele, o surgimento de edificações diferentes na cidade, que atraem a atenção de quem passa pelas ruas, é um sinal de avanço nesse sentido.
“Acho que o povo de Bauru está descobrindo a arquitetura com mais ênfase agora. Em qualquer lugar da cidade por onde passa, você vê as obras diferentes. Você vê que tem a mão de um arquiteto. Você vê obras que realmente fazem diferença na paisagem urbana”, expõe.
O arquiteto, entretanto, afirma que é difícil definir o estilo observado em obras recentes de Bauru. Confira, a seguir, trechos da entrevista que ele concedeu ao JC nos Bairros.
JC nos Bairros - O que o senhor tem observado em relação às tendências dos projetos arquitetônicos executados em Bauru?
Wagner Domingos - A gente tem uma mistura de estilos. O que está ocorrendo é algo “além do pós-moderno”. Estamos no momento do “além do pós-moderno”. Ele não tem uma definição - como foi o modernismo da arquitetura.
JC - Como identificar esse “além do pós-moderno”?
Wagner - Não tem uma identificação definida. Nós somos solicitados a fazer trabalhos que misturam muito isso. Você tem as linhas do gótico e, ao mesmo tempo, acabamento de extrema tecnologia que não tem nada a ver com o gótico. Tem mistura de componentes materiais também. Tem várias tecnologias sendo usadas e misturadas ao mesmo tempo. Tem concreto, estrutura metálica, alvenaria, madeira. Eu costumo definir que nesse “após o pós-moderno” a gente tem uma não-definição de estilo. A ênfase maior está nos interiores. O bauruense está dando muito valor à arquitetura de interiores. Está buscando isso. Há muitos anos, isso não era muito valorizado. A arquitetura hoje não é só mais a criação da casa em si, mas o acabamento de interiores, etc.
JC - Essa mistura toda é positiva ou negativa, na sua opinião?
Wagner - Extremamente positiva.
JC - Por quê?
Wagner - Primeiro, porque as pessoas buscam morar bem, e não simplesmente um teto para se morar.
JC -Mas a mistura de estilos e materiais significa morar bem?
Wagner - É difícil distinguir ou achar interessante, mas é o que está sendo feito hoje porque a tecnologia se difundiu muito. O mais interessante é a questão da criação, da criatividade desenvolvida. Isso eu destacaria.
JC - Há quanto tempo o senhor observa essa tendência em Bauru?
Wagner - Eu acho que a ênfase maior foi a partir do meio da década de 90. Se você fizer uma análise na região, você vai verificar que, em Marília, que é uma cidade menor, essa tendência se difundiu melhor. O desenvolvimento da arquitetura lá está mais avançado do que aqui, por exemplo.
JC - Por quê?
Wagner - Por uma questão cultural. Acho que o povo de Bauru está descobrindo a arquitetura com mais ênfase agora. Em qualquer lugar da cidade por que você passa, você vê as obras diferentes. Você vê que tem a mão de um arquiteto. Não é só a casa simples ou o trivial na paisagem da cidade. Você vê obras que realmente fazem alguma diferença na paisagem urbana. Se destacam.
JC - A tendência é brasileira?
Wagner - É uma tendência brasileira. Ainda é um pouco cultural isso. Varia de acordo com a localidade. Bauru busca muito essa identificação no que diz respeito a São Paulo, Curitiba, as Capitais.
JC - A preocupação com a arquitetura é algo restrito a quem tem alto poder aquisitivo?
Wagner - Temos um dilema hoje. Todas as pessoas acham que o arquiteto é um profissional que tem uma qualificação boa e que é buscado muito pela elite. Na verdade, nós temos várias funções, principalmente sociais. Temos condições de desenvolver projetos de moradia econômica com extremo baixo custo. Falta um pouco de divulgação em larga escala para que esse público alcance essa informação. Mas nós realmente somos procurados mais por uma classe que tem poder aquisitivo maior porque tem condições de fazer casas mais requintadas.
JC - Mas existem em Bauru casas populares com as características do “além do pós-moderno”?
Wagner - É difícil. Seriam obras desenvolvidas com custo maior. Existe uma diferença entre morar bem e apenas ter uma casa para morar. É uma realidade de países de terceiro mundo. Não é só Bauru ou Brasil.
JC - Mas seria possível fazer...
Wagner - Sim, é possível. É possível fazer moradia de baixa renda com tecnologias. O poder público precisa buscar integrar isso.