Ela já foi considerada o elixir da juventude, capaz de aliviar sintomas e proporcionar enorme vigor, saúde e bem-estar às mulheres no climatério. Estudos mais aprofundados, porém, mostraram que a terapia hormonal, como qualquer medicamento, também tem seus problemas. Desde então, ela divide opiniões entre os médicos.
Os defensores alegam que a terapia oferece melhora significativa aos sintomas e conseqüências da menopausa, incluindo fogachos, irritabilidade, insônia e osteoporose. Os contrários argumentam que há fortes indícios de aumento dos riscos de outras patologias, como o câncer (especialmente o de mama) e as doenças cardíacas.
Na prática, todos eles parecem ter razão. Estudos científicos realizados nas últimas décadas comprovam tanto os benefícios quanto os riscos atribuídos à terapia hormonal. O problema é que muitas perguntas continuam sem respostas - daí a manutenção da polêmica.
Preocupados com a angústia de suas pacientes e com sua própria conduta, especialistas brasileiros acabam de lançar o livro “Terapêutica hormonal no climatério feminino: Onde estamos e para onde vamos?” (Editora Segmento) - um manual que descreve, de maneira crítica e objetiva, as vantagens e desvantagens descobertas até agora.
Baseados em estudos científicos realizados nas últimas décadas e em experiências próprias, eles buscam um ponto de equilíbrio onde as regras principais são a individualização do tratamento e o bom senso.
O livro foi escrito por 13 especialistas - todos eles ligados a universidades ou entidades representativas, como a Sociedade Brasileira de Climatério e a Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia.
História
Segundo os autores, a história da terapia hormonal no climatério começa em 1942, quando o órgão controlador de remédios e alimentos dos Estados Unidos (Food and Drug Administration - FDA) autorizou a utilização de uma preparação com estrogênios conjugados eqüinos para o alívio das ondas de calor da menopausa.
Em 1960, o uso de hormônios era tão incentivado que culminou na publicação do tratado de Robert Wilson, intitulado “Feminine forever” (feminina para sempre). Wilson considerava o estrogênio a verdadeira fonte da juventude, segundo os especialistas brasileiros.
Naquela época, análises epidemiológicas indicavam que a incidência de doenças cardíacas aumentava após a menopausa, o que levou à convicção de que os estrogênios eram a fonte de proteção das mulheres em idade fértil.
Surge, então, o primeiro estudo para verificar a relação entre estrogênios e proteção cardiovascular. A pesquisa foi encerrada em 1972, quando os resultados apontaram para um aumento dos riscos cardíacos.
Paralelamente, as pílulas anticoncepcionais indicavam aumento do risco de acidente vascular cerebral (derrame), trombose venosa e doenças cardíacas. E outras pesquisas indicavam aumento de adenocarcinoma de endométrio em usuárias de estrogênio.
Na década de 1980, novos estudos observacionais indicam redução dos problemas cardíacos com uso da terapia hormonal e ela volta a ser o tratamento de escolha para prevenir as doenças cardiovasculares na pós-menopausa. Mas surgem indícios de aumento do câncer de mama em mulheres que usavam estrogênios em longo prazo.
Mais recentes
Novos estudos e novas contradições apareceram nos anos seguintes até que, em 1993, o National Institute of Health (NIH) e o laboratório Wyeth Ayerst iniciaram os primeiros ensaios clínicos controlados sobre a eficácia da terapia hormonal na prevenção primária e secundária a doença cardiovascular, conhecidos, respesctivamente por WHI (Women’s Health Iniciative) e Hers (Heart and Strogen/progestin Replacement Study).
A WHI estava prevista para durar oito anos, mas foi encerrada três anos antes, quando os resultados apontaram para um aumento significativo do risco cardíaco e um risco aumentado também para o desenvolvimento de câncer de mama. O Hers confirmaria o aumento dos eventos coronarianos.
O pânico instalou-se mundialmente, pois um dos pilares da terapêutica hormonal - a proteção cardiovascular - acabava de ruir, enquanto outras suspeitas, como a do câncer de mama, mostravam-se mais fortes.
Segundo os autores do livro, as dúvidas permanecem. Muitos especialistas questionam os resultados destes estudos alegando que os grupos de mulheres avaliadas já apresentavam outros riscos cardiovasculares, como sobrepeso, hipertensão e tabagismo.
Em janeiro de 2003, o FDA propôs que todas as formulações estrogênicas dos Estados Unidos deveriam trazer uma advertência no rótulo indicando os resultados do WHI. A afirmação também deveria recomendar o uso do estrogênio apenas para alívio dos sintomas da menopausa.