Saúde

Consenso é dose baixa e tempo restrito

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

De acordo com o livro “Terapêutica hormonal no climatério feminino: Onde estamos e para onde vamos?”, o consenso que vigora hoje sobre a terapia hormonal entre os especialistas é o de que a mesma deve ser iniciada apenas para o alívio dos sintomas da menopausa, com a menor dose que seja eficaz e durante o menor tempo necessário, devendo ser interrompida tão logo desapareçam os mal-estares.

Segundo os autores, a redução na produção hormonal decorrente da menopausa acarreta diversas alterações no organismo. A primeira manifesta-se no ciclo menstrual, que torna-se irregular.

A seguir, podem ocorrer sintomas vasomotores e neuroendócrinas, como fogachos, sudorese, formigamento, insônia ou sono entrecortado, depressão, nervosismo, perda de memória e dificuldade de concentração. Esses sintomas causam grande desconforto e chegam a afetar a qualidade de vida e a vida social da mulher.

A terapia hormonal atualmente é preconizada, em consenso, apenas para atenuar esses desconfortos. Segundo os autores do livro, eles acometem até 85% das mulheres climatéricas e tendem a desaparecer em dois a cinco anos. Após esse período, as mulheres ficariam confortáveis mesmo com a descontinuação terapêutica, segundo a maioria dos especialistas.

Mesmo assim, é importante salientar que a terapia hormonal é comprovadamente eficaz no combate à osteoporose e às alterações urogenitais (ressecamento vaginal, entre outros) no pós-menopausa. Mas ainda restam muitas dúvidas quanto à relação dos medicamentos com os cânceres e com as doenças cardiovasculares.

Individualidade

Para o ginecologista de Bauru José Osmar Guerini, a indicação da terapia hormonal deve ser individualizada. “Existem três grupos de mulheres. As que não apresentam sintomas e não precisam do tratamento. As que apresentam sintomas e podem fazer o tratamento. E as que apresentam sintomas e não devem fazer o tratamento”, comenta.

Este último grupo engloba as mulheres que têm contra-indicações para a terapia hormonal, o que inclui ter antecedentes de câncer de mama, ter câncer de mama na família, sofrer de hipertensão, doenças circulatórias ou diabetes e ser fumante. Tudo isso é apurado numa avaliação minuciosa, que engloba mamografia, ultra-sonografia e todos os outros exames clínicos de rotina.

“O assunto é muito polêmico e é muito sério. Nós temos que trabalhar com o que temos em mãos e com a experiência em consultório. Temos de ser criteriosos e usar o bom senso”, afirma.

Indagado se vê mais pontos positivos ou negativos na terapia, Guerini enfatiza mais uma vez a individualidade. “Quando tem necessidade eu vejo pontos negativos. Quando não precisa, não precisa. Sou favorável quando há necessidade e não há contra-indicação. Havendo contra-indicação, podemos usar substâncias alternativas, como os fito-hormônios, derivados de soja e da folha de amora”, encerra.

Câncer

Individualidade também é palavra-chave da terapia hormonal na opinião do mastologista de Bauru José Roberto Salina. Ele salienta que mulheres que já apresentaram tumores ou que têm casos de câncer de mama na família têm contra-indicação absoluta para a terapia. Outras doenças devem ser avaliadas segundo o princípio do risco versus benefício.

Salina também defende as doses baixas e por tempo restrito. Ele cita estudos recentes que demonstram que o uso da terapia hormonal por mais de cinco anos aumenta o risco de câncer de mama.

“Também há indícios fortes de que esse risco não significa o aparecimento de novos tumores, mas o desenvolvimento precoce de tumores pré-existentes, ou seja, a mulher que teria um câncer aos 60 anos pode apresentar a doença mais cedo se tomar hormônios”, comenta.

Mas ele pondera que a questão deve ser avaliada com bom senso. Salina salienta que o estudo de 2002 (WHI) gerou polêmica porque tinha o objetivo de comprovar a eficácia da terapia hormonal na prevenção das doenças cardiovasculares e acabou demonstrando o contrário. O trabalho teve de ser interrompido antes da hora porque houve aumento do risco de doenças cardíacas.

“Mas a terapia hormonal tem sim seus benefícios, que são a diminuição da perda óssea e melhora na qualidade de vida com o alívio dos sintomas, desde que sejam seguidos os critérios de indicação”, conclui.

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Climatério não é doença

Para o ginecologista homeopata Admir Franzolim, os sintomas da menopausa são inerentes a uma fase natural do desenvolvimento humano e não deveriam exigir tratamento. “Eu não acredito nessa dependência de hormônios, porque eu não acredito que a natureza esteja errada”, destaca.

Segundo o médico, o climatério é um período de adaptação em que o corpo mostra estar perdendo sua fertilidade.

“O que acontece é que a mulher de hoje, aos 50 anos, não está preparada para isso. Ela levou uma vida sofrida, com muitos sonhos não alcançados, teve uma vida conjugal difícil, sofreu decepção com os filhos, perdeu sua auto-estima. A única coisa que ela sabe fazer é ser mãe e isso leva a mulher a ficar muito fragilizada durante essa adaptação hormonal”, defende.

Ele afirma que, diante de um quadro sintomático de climatério, faz uma avaliação integral da paciente e recomenda atividades que visem o autoconhecimento, produtos homeopáticos, tratamentos florais e outros recursos que ajudem a paciente a encontrar equilíbrio emocional para enfrentar mais facilmente essa fase de transição.

Defensor da homeopatia, Franzolim diz ser contra todo medicamento que só trata sintomas. Na opinião dele, é preciso descobrir a raiz dos problemas e curar suas causas. Ele alega que não adianta trabalhar só pelo alívio das conseqüências, porque o problema vai voltar.

“Mas a mulher quer ser mocinha para sempre, quer fugir da sua idade real e acaba engolindo tudo o que aparece prometendo manter aquele padrão exigido pela sociedade”, ressalta.

Questionado sobre a melhor maneira de lidar com a polêmica, o médico sugere que as mulheres ouçam várias opiniões médicas antes de optar ou não pela terapia hormonal. “A melhor mensagem que eu posso passar é recomendar que a mulher compare diferentes opiniões médicas, ouça todos os argumentos e tire suas próprias conclusões”, encerra.

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