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Crise faz brasileiro economizar mais

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

Torneira aberta, luz acessa, TV e rádio ligados, geladeira aberta, alimentos jogados no lixo, roupas novas, CDs, carro novo, cheque especial, cartão de crédito... É fácil esbanjar até no momento de listar onde os brasileiros desperdiçam seu dinheiro, gastando de maneira desnecessária ou pagando juros após a compra.

No entanto, já é possível notar uma mudança, senão no comportamento, pelo menos na consciência dos consumidores, que aprenderam da pior maneira possível que a crise econômica afetou a todos e é necessário aprender a conviver com ela.

O casal Elizete Polastri Thereza e Anilson Barbosa Thereza comenta que teve de reaprender a fazer compras para não deixar a crise afetar a família de modo mais drástico. “Hoje, fazemos mais economia e pesquisa de preços para tudo. Cortamos alguns itens das nossas compras, isso foi inevitável, e continuamos racionalizando energia. Acaba virando um hábito mesmo”, apontam.

O analista econômico Carlos Sette opina que, nos últimos anos, os consumidores estão aprendendo a se controlar melhor, apesar do perfil consumista do brasileiro. Segundo ele, há uma grande propensão ao consumismo, porém a recessão econômica dos últimos três anos causou sérios problemas nas finanças de inúmeras famílias de todas as classes sociais.

“Em função da crise, o brasileiro está revisando a maneira de se comportar em relação ao consumo, e quando essa situação passar, isso será bom pois talvez a gente aprenda a consumir mais racionalmente, para que haja uma sobra no orçamento e possamos investir em outras coisas, como o lazer”, aponta.

Com a implantação do Plano Real e o controle relativo da inflação, os consumidores de todas as classes tiveram acesso a oportunidades de compra com parcelamento, financiamentos, cheque especial e cartão de crédito. Porém o desemprego também tomou a população de susto, e muitas pessoas que haviam comprometido seu orçamento com dívidas de compras ficaram cara-a-cara com o desespero.

“As pessoas se endividaram porque não se programaram. Trocaram geladeira, TV, carro, comprometeram 50% do orçamento familiar em prestações, mas qualquer emergência vai descontrolar esse consumidor. Ele tem seus bens novos, mas vai atrasar as prestações e pagar juros altos, quando poderia aplicar esse dinheiro em outras coisas”, argumenta Sette.

Mesa farta

O padre Herman Vos, que é professor de economia internacional, veio da Bélgica em 1970 e mora em Bauru há mais de 30 anos. Ele vê o brasileiro com um povo esbanjador, se comparado com os europeus ou os japoneses. “Principalmente na comida. É um traço cultural. Se você convida pessoas para comer, tem que sobrar comida, senão você se preocupa, na verdade, se faltou comida para os convidados. Na Europa, tudo é mais comedido, talvez pelas duas Guerras Mundiais, e o povo foi obrigado a ser mais econômico”, diz.

Para a professora Cecília Ferreira, é justamente no desperdício de alimentos que está o principal problema de esbanjamento dos brasileiros. “O que não é consumido no dia, você joga fora no outro, quando poderia aproveitar perfeitamente. Com a crise, a gente teve de aprender a controlar melhor os gastos, e a saída que encontrei foi comprar só o que é de primeira necessidade, e depois de fazer muita pesquisa de preço.”

Por outro lado, a artista plástica Roseli Maria Bezerra afirma que vem tentando não reduzir as compras de alimentos, apesar de notar que gasta atualmente o dobro do que empregava há alguns anos na alimentação da família. “Estamos cuidando de reduzir nossos gastos com energia e água, por exemplo. Mas não acho que devemos nos privar dos alimentos. Na nossa família, isso é um prazer, é importante ter as coisas que a gente gosta. Mas concordo que somos esbanjadores, sim”, diz.

O padre Herman também concorda que os hábitos dos consumidores foram alterados pela situação econômica dos últimos anos, mas aponta que desde a implantação do Real, as pessoas deveriam ter mais facilidade para se planejar, ao contrário do que ocorre com a maioria dos endividados.

“As coisas hoje estão mais previsíveis, do ponto de vista econômico, apesar do alto desemprego e da grande parcela da população na economia informal. Eu conheci o Brasil na época do milagre econômico (início dos anos 70) e depois tivemos de pagar a conta, com a dívida externa. Hoje, o brasileiro está aprendendo a lidar com suas prestações, com seu orçamento que é pequeno, e viu o quanto é perigoso se deixar levar pelo consumo”, opina.

Estresse de dívidas

De acordo com Sette, a crise no setor de energia elétrica, há três anos, despertou os brasileiros para os desperdícios que eram cometidos em seu dia-a-dia. O analista econômico ressalta que a população pôde perceber que poderia racionalizar o consumo – e que isto não seria sinônimo de fazer sacrifício.

“Esse é o esbanjamento, quando você percebe que pode deixar de fazer algo que não vai lhe fazer falta. A racionalização do consumo deve partir mesmo de dentro de casa. A primeira dica é olhar para seus hábitos e perceber o que pode ser reduzido. Não é possível parar de pagar as contas nem as prestações, então tem de achar outros pontos”, orienta.

Entre as principais orientações que Sette oferece, está o controle de financiamentos, das prestações e de gastos no cartão de crédito. “Não se pode comprometer todo o orçamento com prestações. E o cartão de crédito, tem de saber administrar, guardar os recibos e ir controlando durante o mês. Os juros do cartão são os mais altos do mercado, e as dívidas colocam o consumidor em um círculo vicioso que demora anos para acabar. O maior stress da vida moderna são as dívidas”, diz.

Para o administrador de empresa Fábio Iazbek, o brasileiro se acostumou a resolver seus problemas apenas quando a situação chega em seu limite. “Todo mundo hoje trabalha no vermelho, pouquíssimas pessoas conseguem ficar com as contas no azul o tempo todo, mas nos acostumamos com essa situação. Existem reparcelamentos, refinanciamentos, os juros dos devedores são retirados, como no caso do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), e isso não é saudável, deixa o povo mal-acostumado”, critica.

A professora Carla Sakoman aponta que o consumismo exagerado e o desperdício do brasileiro são resultados da falta de informação e de ensino para a população. “As pessoas compram além do necessário, mesmo que não tenham necessidade. Muita gente não consegue entender que estamos em um momento difícil na economia, e isso é muito ligado à educação. Infelizmente, as pessoas ainda não têm um bom nível de escolaridade e as maneiras de colaborar com a sociedade, evitando o desperdício, passam despercebidas”, conclui.

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