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A Nação de porre


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O repórter do Times vê as pingas que a gente toma mas não vê os tombos que a gente leva. Melhor cumpriria com suas responsabilidades sociais se tivesse levado para as páginas dominicais do seu influente jornal uma análise dos primeiros 500 dias do mandato de Lula, confrontando-os com as expectativas que a sociedade brasileira depositou na opção vitoriosa de 2002. Diria dos principais projetos deste governo que não conseguiram decolar. Das esperanças da população pobre que se desvanecem. O jornalista perdeu a oportunidade de prestar um grande serviço ao Brasil. Que bom se pudesse propiciar reflexões sobre as causas das frustrações do povo brasileiro. Alguns dos principais projetos não conseguiram decolar, como o Fome Zero e o Primeiro Emprego. O anunciado “espetáculo do crescimento” tem sido postergado rapidamente. Somente amanhã, o trabalhador terminará de pagar a sua contribuição para a máquina estatal. Somados todos os impostos o brasileiro precisa trabalhar cada vez mais só para pagá-los. Dos 360 dias que o empregador paga para o empregado o governo fica com o equivalente a 138, ou seja, quatro meses e 18 dias.

O governo, que se dizia social democrático, e também dos trabalhadores, se empenhou e se empenha em cobrar cada vez mais dos que têm carteira assinada, ainda quando os seus proventos não passam de poucos salários mínimos. Para conseguir isso, nem foi preciso aumentar as chamadas alíquotas do Imposto de Renda. Bastou congelar a base da taxação, como se em oito anos acumulados a inflação não tivesse corroído nem um pouco o poder aquisitivo da população. Qualquer manual de Ciências das Finanças ensina que “o imposto atende a um interesse coletivo, que deixa de ser o do próprio Estado, para ser da sociedade”. Na prática, porém, quem calcula a contribuição dos cidadãos é uma máquina burocrática infernal, representada no Brasil por um animal importado, um leão, que parece ser o símbolo da autoridade governante.

A reportagem do NYT e a desastrada tentativa de punição de um repórter que só buscava o palco iluminado com a história de um presidente que gosta de umas e outras, serviram para mostrar que o humilde presidente-operário sabe pôr suas garrinhas de fora. Nada diferente do presidente-sociólogo que o antecedeu. Desde 1966 a tabela do IR acumula uma defasagem de 55,3%. Isso significa que os trabalhadores com salários de até R$ 1.643 deveriam estar isentos de tributos, mas atualmente aqueles que recebem acima de R$ 1.058 já começam a ser onerados. Quando os trabalhadores vaiam o presidente pedindo a justa correção o ministro Palocci ameaça criar outras faixas de contribuições mais altas. Isto é: pau na classe média, mais uma vez. Quem paga imposto de renda é o assalariado. O resto sonega.

Todo mundo em Brasília sabe que o Lula toma “bebidas fortes” na intimidade. O que é feito entre quatro paredes não é vício. Nelson Rodrigues dizia que “se nós soubéssemos da vida sexual dos outros ninguém falaria com ninguém”. O velho Brizola disse a verdade. Eu mesmo vi o Lula em Bauru tomando pinga com catuaba que ele dizia ser muito bom para “retemperar”. Pode tomar o que quiser nos seus churrascos na Granja do Torto, desde que discretamente e sem dar vexames. O mais importante é a Nação sair logo do porre provocado pelas doses cavalares impostas pelo FMI e começar a cuidar dos interesses do povo.

Quem está na política tem a obrigação de agüentar as críticas. Se forem injustas, o papel de vítima é dos mais confortáveis. Se forem justas ganha-se a oportunidade de corrigir os erros. Até a intimidade do governante tem limites muito estreitos. “Quem sabe o Lula não está mesmo exagerando no copo e a dona Marisa precisa policiá-lo melhor?” Fica o ilustre jornalista do Times devendo ao povo brasileiro uma reportagem de contexto mais social. De fait-divers chega os nossos jornais, agora dedicando, todo dia, meia edição só para esse assunto. Do Waldomiro e do salário-miséria ninguém mais fala.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.

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